Sem querer ser preciosista, esse é exatamente o sentido da República: sermos governados por gente imperfeita.

5 de Outubro de 1910

Parece que a Iª República cometeu o grande pecado de ser uma balbúrdia, — mas por oposição a quê? Pelos vistos, deve haver quem ache que o resto do mundo era, naquele primeiro quartel do século XX, uma espécie de pacífico jardim.

Não era; desde ocupantes de cargos eleitos a cabeças coroadas, do primeiro-ministro de Espanha ao arquiduque da Áustria, houve homicídios para todos os gostos naquela época. Não excederam, contudo, a morte massificada da gente comum; entre os anos de 1914-1918 — não tinha a nossa República quatro anos — houve simplesmente uma Guerra Mundial, neste continente e nas suas colónias. Quando essa Grande Guerra e a sua estúpida e inútil mortandade acabou, tinham acabado também vastos impérios: o dos Czares, varrido por duas revoluções e desmembrado; o Austro-Húngaro, despedaçado; e pouco tempo depois o Império Otomano. No culminar desse processo, fez-se o ensaio geral aos genocídios que seriam levados às maiores consequências nos meados do século XX europeu. A República Portuguesa lá aguentou, mas entre a Iª e a IIª Guerra Mundial nasceram o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, e regimes seus aparentados — como a ditadura nacional em Portugal — um pouco por toda a Europa. Desfez-se o sonho da Sociedade das Nações. Como eloquentemente diz a historiadora Zara Steiner, esta foi a época em que — por quase todo o mundo e sobretudo na Europa — “as luzes falharam”.

Perante isto, — ou melhor, esquecendo isto — há gente que faz da leitura da Iª República uma única lenga-lenga sobre como os líderes políticos portugueses da época eram defeituosos. Pois eram. Sem querer ser preciosista, esse é exatamente o sentido da República: sermos governados por gente imperfeita.

Precisamente porque não existe gente perfeita, nem gente que herde a predisposição para governar vitaliciamente um país, o princípio republicano é o de que nem o nascimento nem a classe social devem vedar alguém de eleger e ser temporariamente eleito.

Isto é uma coisa boa, e uma coisa simples. Às vezes há coisas assim. É pueril alegar que ser governado pelo filho do rei da Casa de Bragança tivesse sido melhor do que ter sido governado pelos Srs. Teófilo Braga ou Bernardino Machado, mas quer o sentimento anti-progressista que rasguemos as vestes por cada vez que este país deu um salto político. Pelo grande gozo que é “irritar a esquerda”, pratica-se o contorcionismo da mioleira. Mesmo assim, o liberalismo continua a ser melhor do que o absolutismo; e a república melhor do que a monarquia, a democracia melhor do que a ditadura. Melhores porque regimes mais livres e mais iguais, mais próximos do princípio de que a sociedade se pode — e deve — auto-governar.

Isto não faz destes regimes isentos de críticas; mas fá-los certamente dignos de comemoração, dignos de serem lembrados em conjunto. Mas, lá está; Pedro Passos Coelho faltou ontem ao lugar onde se proclamou a República; como a direita portuguesa em geral faz por ausentar-se do 25 de Abril. É uma atitude de ignorância voluntária que só poderia desculpar-se se ao menos fosse clara e assumida.

Mas enfim, não se pode exigir vontade a quem não a tem. A melhor comemoração da República é viver querendo governar-nos a nós mesmos. Uns dias melhor e outros pior, lá vamos insistindo.

5 thoughts to “100 anos e um dia

  • Vasco

    Obrigado.

  • Ana Luísa

    Ah! Um regalo este “contorcionismo da mioleira”…!

    Só uma dúvida: será que detecto também aqui algum pudor em considerar o “salazarismo” como um “fascismo”?

    Há tempos, lia uma entrevista na Ípsilon ao autor da mais recente biografia de Salazar e dizia ele (excerto transcrito da versão on-line da revista do dia 25 de Setembro de 2010):

    “Esta questão tem na base a interpretação feita do fascismo. Quem o vê como uma simples resposta ao comunismo provavelmente verá em Salazar um fascista. Mas para quem considera o fascismo um fenómeno histórico digno de estudo, complexo nas suas causas e nas suas acções, Salazar surge como algo bem diferente. E não é a repressão estatal, impossível de negar, que chega para colmatar a brecha.” [Fim de citação]

    Foi, então, que me ocorreu que todos nós – (tinha pensado pôr como sujeito desta frase “os historiadores”, mas estaria a ser injusta, pois parece-me que é mais caso para apontar o dedo aos “cientistas políticos”) – sofremos por vezes do “síndrome da tentação taxonómica dos biólogos”, isto é, aquela tentação que consiste em tudo ordenar e encaixar em conceitos prévios muito bem arrumadinhos. E, só depois, descobrimos que estes se revelam imprestáveis para definir um contexto e momento históricos que podem ter incluído alguns elementos de relativa singularização e particularismo dentro de uma mesma “categoria”.

    Ocorreu-me, então, um rótulo alternativo para o fascismo que foi o salazarismo: que tal “Fascismo Português Suave”, como a arquitectura do Raúl Lino?

    Por momentos, esquecera-me de uma exposição que vira (e de uma conferência de Irene Pimentel que ouvira), no museu do neo-realismo, sobre o campo de concentração do Tarrafal…
    Depois, esta memória “chegou-me para colmatar a brecha” que o autor da biografia detecta existir entre o salazarismo e o fascismo e achar que, definitivamente, o qualificativo “suave” – mesmo que tão-somente no contexto da “metáfora tabágica” – geraria sempre um oximoro, quando aplicado ao fascismo.

    Assim, acabei por decidir-me por “fascismo português” ou, alternativamente, por “fantasia lusitana”, como escolheu o João Canijo. O que é que acham?

    Viva a República!
    E, a propósito, ressalve-se o recheio da casa dita “dos patudos” projectada pelo arquitecto supra-mencionado para o grande republicano José Relvas!

  • Maria Nazaré Oliveira

    Excelente!

  • Pedro Maria

    Excelente texto! Ainda melhor comentário!
    O perigo de momentos como o que vivemos hoje é justamente aparecer alguma figura providencial “perfeita” (como a da tal ditadura portuguesa suave), que ache que só ela sabe determinar o que é bom para todos.
    Felizmente, temos pessoas lúcidas, como os participantes neste blogue.

  • Alexandra

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