Arquivo mensal para December, 2016

Razões de esperança

Lamento: 2016 foi mau e 2017 vai ser a continuação. Mas se a pergunta for “há razões de esperança?”, eis uma tentativa de resposta: em nenhuma democracia consolidada há maiorias a favor do nacional-populismo, os jovens são esmagadoramente contra o fechamento do mundo e das fronteiras, a problemática UE tem mais potencial de progresso do que a Rússia, a Turquia ou os EUA trumpistas e há ideias de liberdade, democracia, cosmopolitismo e ecologia para o nosso tempo. Há um grande problema: falta dar representação política e encontrar intérpretes para esta cultura que é ainda maioritária — e que provavelmente será mais maioritária ainda nos próximos anos, com a chegada de um eleitorado mais jovem — mas às razões para esperança deverão seguir-se as razões para a ação.

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A cristandade está mal entregue

Três Reis Magos, mosaico em San Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália. No muro da igreja, concluida em 569.

Na primeira crónica da semana escrevo sobre o “cristianismo” de Trump — que promete aumentar o arsenal nuclear dos EUA —, Putin — que bombardeia cidades indiscriminadamente — e Farage — que repreende o Arcebispo de Cantuária por este ter ousado falar em refugiados na Missa de Natal. Considerem-nos assim uma espécie de Reis Magos ao contrário.

“Desde o seu início há dois mil anos, o cristianismo teve crentes que tentaram ser sábios usando a religião. Também teve homens que usaram a religião para tentar ganhar poder. Os segundos, em geral, odeiam os primeiros. Não é por acaso que estes auto-proclamados defensores políticos e militares da cristandade rejeitam o Papa Francisco e pelos vistos também o Arcebispo de Cantuária, como detestam qualquer líder espiritual ou laico que lhes lembre as suas obrigações morais perante os refugiados, o planeta ou a humanidade.

Ora, qualquer outra pessoa, mesmo que de outra (ou nenhuma) religião, tem por seu lado também uma obrigação moral: a de tentar não confundir qualquer destes três homens com qualquer vestígio do cristianismo que eles por vezes tentam alegar defender.”

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Melindrosíssima

                                                                                   Jornal O Século – 1914

“Às vezes, na sala de aula, mostro uma após outra duas primeiras páginas do jornal O Século num dia do começo de Agosto de 1914, mesmo antes de a Grande Guerra começar. São duas edições publicadas no mesmo dia, como era hábito dos jornais em tempo de muitos leitores e muitas notícias: na edição da manhã um título a várias colunas anuncia que a situação se apaziguou e que os esforços diplomáticos de várias potências permitiram evitar a guerra; na edição da tarde a machete vem substituída por um nervoso “A Situação É Melindrosíssima”. Passado algumas horas, começavam os combates.

Pois bem, 2016 foi preocupante. Mas 2017 vai ser, para usar a expressão secular d’O Século, melindrosíssimo. (…) Se há lição a reter de há cem anos, ela não está na coincidência dos factos precursores, mas na das culturas vigentes. Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.”

Leia mais aqui: https://www.publico.pt/…/mu…/noticia/melindrosissima-1755561

Leituras do dia – 21.12.16

Foto: Freire de Andrade / 1859-1929

1 – Ignore claims about the EU falling apart – Europe knows Brexit was a terrible idea, and New York is the city which will benefit (Denis MacShane)

“No EU capital likes the European Court of Justice, which is more of a giant commercial court and administrative tribunal despite its grandiose title. The UK has won more cases than it has lost at the ECJ. But a rulebook needs an arbiter, and so the rest of Europe remains puzzled at the fact that Britain, the nation that invented “playing by the rules” and accepting the umpire’s decision, now can no longer bear to do so.”
http://www.independent.co.uk/…/brexit-europe-negotiations-a…

2 – India is displaying classic signs that foreshadow fascism (Harish C Menon)

“Mishra was expectedly roasted for dubbing Modi as a disaster in the making for India. However, the Indian prime minister’s lifelong association with Hindu nationalist organisation Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) inevitably leaves him open to such charges. RSS, with its avowed goal of the Hindu rashtra, or Hindu nation, and of which Modi’s Bharatiya Janata Party (BJP) is an offshoot, has always had a fascination for the likes of Benito Mussolini and Adolf Hitler. And with the BJP’s electoral triumph—in 2014, it formed India’s first full majority government in decades—the spectre of violent identity politics has once again raised its head.”
http://qz.com/…/along-with-narendra-modis-rise-india-has-d…/

3 – Leavers are angry, for their lies will return to haunt them (Nick Cohen)

“Why in these circumstances are Leavers angry? What the hell do they have to be angry about? A part of the answer is that raging is all the poor dears can do. Across the west, the populist right is as much a countercultural movement as a political movement. Its supporters are closer to satirists than thinkers and doers with practical plans to change society. The right feasts on undoubted hypocrisies and evils in the liberal mainstream. It picks them apart and examines their ghoulish contradictions. Like its counterparts on the left, it then rapidly loses itself in the magic world of conspiracy theory. If you genuinely believe a sinister force has organised 97% of climate scientists to lie about global warming, or Brussels has bribed economists across the world to lie about the danger of Brexit, you are not just assuming mass mendacity at an astonishing level. You are also assuming “the establishment” is capable of the astonishing level of organisation required to persuade tens of thousands to lie.”
https://www.theguardian.com/…/brexit-leavers-fear-their-lie…

Confusos?

Surpresas, reviravoltas e tuites contra potências nucleares. De uma série nos anos 80 à eleição de Trump na minha crónica de ontem.sopa

“Um jovem jornalista senta-se comigo para um copo e uma conversa e abana a cabeça, desolado. “As notícias estavam aí, foram publicadas e eram conhecidas”, diz, “como podem não ter feito diferença e as pessoas agora fingirem-se surpreendidas?”. As conversas que tenho nestes dias enquanto me preparo para regressar a Portugal começam quase todas assim: toda a gente tem uma instituição na qual acredita — o jornalismo, a independência judicial, o estado de direito, a existência de uma oposição, a constituição federal — e cada um procede confessando o seu receio, às vezes a sua quase certeza, de que essa instituição já falhou ou vai falhar no futuro. Os americanos, tal como os russos e os turcos e os húngaros e muitos outros no passado — por vezes com grande ajuda do aparelho de estado dos EUA — vão percebendo como as instituições democráticas são na verdade extraordinariamente vulneráveis quando há uma vontade política persistente em fazê-las desmoronar.

Tudo isto teria mais valor pedagógico se fosse só uma telenovela. Mas quando o tuíte matinal de Donald Trump é um ataque verbal sem precedente à China — em que Trump comete o lapso de escrever “sem presidente” em vez de “sem precedente” — e nos apercebemos, precisamente por causa desse lapso só corrigido 90 minutos depois, que ninguém lê ou aconselha o presidente-eleito antes de ele atacar perante milhões de pessoas outra super-potência nuclear, aí a coisa fica mais séria. Já houve guerras que começaram por mal-entendidos, e noventa minutos pode já ser tarde de mais para mandar os mísseis voltarem para trás.”

Leia o resto aqui: https://www.publico.pt/…/…/19/mundo/noticia/confusos-1755302

Tudo é Rússia

russia

Pavel Filonov

Tudo é Rússia, ontem no Público.

“Os opinadores e intelectuais que a partir do Ocidente teorizam sobre a importância benevolente da Rússia de Putin deveriam pensar no que significaria fazer algo em sinal contrário por lá.

O mesmo valeria para os políticos anti-sistema (na verdade, anti-política, quando não anti-democracia) na Europa, se estes se preocupassem com o destino que é dado aos opositores mais recalcitrantes na Rússia — uma bala vinda de algures disparada por não-se-sabe-nunca-quem. Mas para eles só interessa o mesmo que a Putin: não tentam sequer provar que na Rússia as coisas são melhores, mas antes que elas são más em todo o lado.”

Leituras do dia – 7.12.2016

Boyle’s air pump – Robert William Boyle

1 – Autocracy: Rules for Survival (Masha Gessen)

“Rule #6: Remember the future. Nothing lasts forever. Donald Trump certainly will not, and Trumpism, to the extent that it is centered on Trump’s persona, will not either. Failure to imagine the future may have lost the Democrats this election. They offered no vision of the future to counterbalance Trump’s all-too-familiar white-populist vision of an imaginary past. They had also long ignored the strange and outdated institutions of American democracy that call out for reform—like the electoral college, which has now cost the Democratic Party two elections in which Republicans won with the minority of the popular vote. That should not be normal. But resistance—stubborn, uncompromising, outraged—should be.”
http://www.nybooks.com/…/trump-election-autocracy-rules-fo…/

2 – Please, Theresa May, save my husband from death in Bahrain (Zainab Ebrahim)

“Their aim was to punish Mohammed for his participation in the pro-democracy protests by getting him to confess to a crime he did not commit. Eventually, Mohammed and his co-defendants signed false “confessions” to make the torture stop. Mohammed was not allowed to see or speak to his lawyer until after his trial had started. He was convicted on the basis of his forced confession, even though he had recanted it. This “evidence” – which would immediately be thrown out of any court in Britain – is the reason that my beloved husband and the father of my children is facing imminent execution.”
https://www.theguardian.com/…/theresa-may-save-mohammed-ram…

3 – After The Islamic State (Robin Wright)

“Daesh has distorted the image of Islam,” Rahim said, using an Arabic term for the Islamic State. “Everything it’s done—its videos of beheadings, burning prisoners alive, drowning them, the destruction of churches and places of worship—all of this has nothing to do with Islam. But I don’t see any country or leading figure coming in and offering new breath for the Sunni world.

“It makes me very sad,” he went on. “This is what makes me fear that Daesh may be defeated politically and militarily but the idea won’t die. If the region were stable, there would be no place for Daesh to reëmerge. But it isn’t stable. The same thing that happened in Syria or Libya could happen in Algeria or Morocco or someplace else in this chaos.”
http://www.newyorker.com/…/20…/12/12/after-the-islamic-state