Arquivo mensal para Dezembro, 2014

Tudo em aberto

Minha crónica de hoje no Público: “Chegou o momento de todos os poderes na Europa reconhecerem o óbvio: cinco anos desta insanidade política e económica na União criaram um eleitorado firmemente antiausteridade, mais ainda nos países que mais sofreram. Esse eleitorados não são antieuro nem antieuropeus. Pelo contrário, são cidadãos que querem um modelo de desenvolvimento para os seus países que passe pela valorização, e não pela desvalorização.”

Para ler a crónica completa, click em Tudo em aberto

 

O fim não está próximo

Minha crónica de hoje no Público: “Muito do que era impossível tornou-se possível. Afinal era possível viver — e confortavelmente — sem escravizar o nosso próximo. Há cem anos, pertencer a um sindicato poderia ser arriscado; entretanto, países e indústrias inteiras aprenderam a negociar salários e tempos de descanso com os sindicatos — e a prosperar por isso. Onde era impossível viver sem um monarca absoluto comemora-se hoje já dois séculos das primeiras constituições. Onde o povo não estava preparado para viver sem um homem forte comemoram-se as primeiras gerações nascidas em democracia.”

Para ler a crónica completa, click no link O fim não está próximo

“Se não eu, quem?”

A nossa sociedade está a ficar mais rica. Nós estamos a ficar mais pobres. E há quem ache que isto é normal.

Decoremos então este nome: Antoine Deltour, francês, 28 anos. Algumas das suas palavras a um jornalista:

“Há muitas pequenas e médias empresas que passam por dificuldades para poder fazer face à sua carga fiscal, e no entanto vejo que as multinacionais não contribuem com a sua parte para o esforço conjunto. Sou cidadão, pago os meus impostos como você, e gostaria que as multinacionais pagassem também a parte delas ao mesmo título que eu pago os meus impostos sobre o rendimento.”

Banal, não é? Toda a gente acha o mesmo. A diferença é que Antoine Deltour arrisca agora uma pena de prisão de cinco anos e uma multa de mais de um milhão de euros por isso. Continuar a ler ‘“Se não eu, quem?”’

Cavacos dos Natais passados

Minha crónica de hoje no Público: “O sono foi agitado. Pedro Passos Coelho, que ele conhecia desde rapazote, ligou-lhe (às nove da noite!) para o convidar a provar umas rabanadas lá em casa pelo Natal. “Achas que tens razões para luxos?” — disse Aníbal — “Isso está acima das nossas possibilidades.” Pedro murmurou qualquer coisa sobre a quadra. “Balelas!”, respondeu Aníbal, “mais uma palavra sobre este assunto e não te seguro como tenho feito”.

A crónica completa pode ser lida em Cavacos dos Natais passados

Ao delator desconhecido

Artista: William Michael Harnett

Se a sua identidade for revelada, centenas de milhões de europeus terão a quem agradecer por ter exposto o roubo organizado dos nossos recursos, num momento em que nos dizem que teremos de perder as conquistas sociais e democráticas das últimas gerações “porque não há dinheiro.

Recapitulemos. Enquanto a situação orçamental de vários países europeus, incluindo o nosso, ia ficando tão má que acabou por forçá-los a pedirem resgates, o homem que presidia a esses resgates governava um país, o Luxemburgo, que fazia acordos secretos com multinacionais para que estas pudessem pagar um imposto irrisório por transações que tinham lugar nos nossos países. Nas últimas semanas foram revelados milhares de documentos, em duas fugas diferentes, que comprovam a existência deste esquema inteiramente legal e profundamente imoral que, por si só, nos revela muito do que está errado na União Europeia de agora.

Ah, mas a justiça não falha. Finalmente um juiz do Luxemburgo abriu um processo de investigação por roubo e violação de segredo comercial… contra o delator do caso. Ainda não tem nome conhecido este homem, se for de facto homem, que se pensa ser francês e ter trabalhado na PricewaterhouseCoopers, apenas uma das quatro grandes empresas de consultoria e auditoria do mundo especializadas neste tipo de serviços, e aquela de onde vinham os documentos que abriram esta nova fase do escândalo.

Entretanto, o ex-primeiro ministro do Luxemburgo, Continuar a ler ‘Ao delator desconhecido’

Trancas à porta?

Minha crónica de hoje no Público: “Isto seria apenas divertido se as mesmas ideias e muitas das mesmas pessoas não se preparassem ainda assim para voltar a fazer estragos. Podem lamentar o que se passou nos últimos anos, verberar a irresponsabilidade dos banqueiros ou a pusilanimidade dos políticos, mas não se vê retirarem-se consequências.”

Para ler a crónica completa, click Trancas à porta?

A corda

Burdens-Rope – by Donato (2012)

Os deputados e deputadas da comissão parlamentar levaram a sério o seu trabalho, dignificaram a Assembleia da República e honraram-se a si mesmos.

O país seguiu ontem as audições parlamentares aos dois primos e banqueiros do Espírito Santo — uma espécie de maratona em estafeta na qual os dois corredores se detestam. À hora a que escrevo, José Maria Ricciardi ainda responde às perguntas dos deputados, depois das mais de dez horas de interrogatório a Ricardo Salgado. Para digerir tudo isto vamos precisar de um longo relatório, um par de romances, meia dúzia de livros de não-ficção e, provavelmente acima de tudo, uma ópera. No estilo ópera do malandro. A grande família, o poder, o dinheiro, as desavenças e o fiasco final. Um tenor fará de Ricardo Salgado, fleumático, composto, envolvendo o seu discurso numa cuidadosa teia verbal. Um barítono fará de José Maria Ricciardi, sanguíneo, intempestivo, dando erros de português enquanto as suas palavras se atropelam para sair.

E seria injusto não incluir o coro parlamentar. Continuar a ler ‘A corda’

“Se não eu, quem?”

Minha crónica de hoje no Público: “Há 500 milhões de cidadãos na União Europeia, e mais ainda no resto do mundo, que têm razões para estar gratos a Antoine Deltour. Com um só ato, pacífico e ordeiro, ele pôs o dedo na maior das contradições da economia atual. Essa contradição exprime-se em três frases. A nossa sociedade está a ficar mais rica. Nós estamos a ficar mais pobres. E há quem ache que isto é normal.”

A crónica completa está em “Se não eu, quem?”.

Política é tempo

Como todos os políticos, Soares pode ter errado muitas vezes nas coisas pequenas. Como poucos, acertou na grande.

São várias as artes de que é composta a política. Para o desenho institucional e constitucional, a arquitetura. Para encontrar as palavras, a literatura. Para a representação do poder, a cenografia. Para a oposição de ideias e temperamentos, o drama. Para mover as pessoas, o arco narrativo do cinema. Para as juntar, a arte mais profunda que é a da psicologia, a leitura das almas. A política é uma arte de artes. Ninguém domina todas elas.

Mas fazer política — essa é a arte de ler o tempo. Como a música, portanto. Ler o tempo não é fácil. Para quem não o tenha de instinto, só se ganha com muita observação, mas toda a vida humana é feita de tempos, de ritmos que se cruzam. Há tempos longos, mais sinfónicos, e tempos curtos, mais metronómicos, e por cima dessa estrutura há uma total cacofonia de palavras e modas, exigência e temas, todos os dias, todas as horas, para confundir os incautos.

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Ao delator desconhecido

A minha crónica de hoje no Público: “Mas há dinheiro, muito dinheiro, por aí. Mais do que suficiente para recuperar as nossas economias e manter o essencial do estado social. E esse dinheiro é nosso, usado em transações quotidianas nos nossos países, mas em que as multinacionais têm facilidade em declarar como se tivessem sido realizadas nos países onde pouquíssimo imposto se paga, ao abrigo de acordos especiais e secretos.”

Leia o texto na íntegra: Ao delator desconhecido