Arquivo mensal para August, 2012

Final alternativo

Não, caro leitor, não é isso que a Lei de Gresham diz: ela diz que moeda má expulsa a boa “quando a taxa de câmbio é fixa”. Neste caso, a taxa de câmbio seria flutuante — a ideia é mesmo essa.

 Como uma grande série televisiva depois do recesso estival, a crise da zona euro regressa para a sua terceira temporada, e todo o mundo ansioso para saber a resposta às grandes questões: irá a Grécia sair? que acontecerá à Espanha e Itália? este Hollande é melhor do que aquele Sarkozy? irá finalmente a Merkel apaixonar-se pelo Eurobond?

Em antecipação, ofereço nesta crónica uma espécie de quebra-cabeças para dois problemas de longo prazo da União Europeia e do euro — os problemas de curto prazo continuam a ser os mais difíceis — com proposta de solução.

Continuar a ler ‘Final alternativo’

Aos papéis

Nós não queremos “voltar a ter” serviço público de televisão — nós queremos é não perder aquele que temos!

Na passada semana um consultor do governo chamado António Borges apareceu com um plano, não para privatizar a RTP, mas (para ser mais preciso) acabar com ela, cortá-la aos pedaços, enterrá-la no fundo do quintal e pagar renda a um capataz para lhe administrar a herança. Passado uns dias, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho ainda não veio esclarecer se isto é só uma brincadeira de mau gosto ou se é para ver se pega. Mas, não temei: António José Seguro, líder do maior partido da oposição, já disse que “quando o PS for governo voltará a existir serviço público de televisão”.

Fantástico.

Continuar a ler ‘Aos papéis’

Mineirinhos

Cinquenta anos e uns meses depois, a polícia sul-africana matou mais de trinta mineiros da empresa Lonmin, na localidade de Marikana. Nós vimos, na televisão, na internet. E depois, tal como Clarice Lispector, fomos à nossa vida. 

Em 1962 a polícia brasileira matou um homem a quem chamavam Mineirinho, José Rosa de Miranda, com 13 tiros. Tinha vinte e oito anos, uma medalha de São Jorge ao peito e, no dia seguinte, a escritora Clarice Lispector leu sobre o homicídio no jornal. Os treze tiros e a medalha de São Jorge chamaram a sua atenção. Nasceu-lhe uma pergunta: “como não amá-lo, se ele viveu até ao décimo terceiro tiro o que eu dormia?”

Clarice Lispector foi uma das melhores de sempre a escrever, pelo menos na nossa língua. Era também uma pessoa que vivia exteriormente bem: ex-mulher de um diplomata, colunista relativamente bem paga na imprensa, dona de uma casa na zona sul do Rio de Janeiro. Perguntou à sua empregada o que achava da morte do Mineirinho. Ela respondeu: “Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho a certeza de que ele já se salvou e entrou no céu”. Continuar a ler ‘Mineirinhos’

Partilhar o tempo

A resposta está, curiosamente, numa causa genética, e hoje esquecida, da esquerda: a partilha do emprego e a diminuição do tempo do trabalho.

 Há uns anos estive num debate organizado em que, falando da sustentabilidade da segurança social, o conferencista disse: “se calhar temos de trabalhar mais tempo”. Houve quase um motim no público. Esta experiência repetiu-se há dias num debate; um dos participantes disse o mesmo e duas ou três pessoas saíram imediatamente da sala.

O que se passa, julgo eu, é que tanto o primeiro como o segundo orador gostam do que fazem. A hipótese de ter de trabalhar mais uns tempos é contigente, mas não é uma contingência terrível. A maior parte das pessoas, no entanto, detestam aquilo que fazem. Quando não detestam aquilo que fazem, detestam o lugar, os colegas, a forma como é feito, a quantidade de tempo que têm de passar naquilo, o facto de outro alguém (o patrão, a empresa ou, no caso dos funcionários públicos, o estado) ter a faca e o queijo na mão. Mais ainda: estas pessoas descontaram para a segurança social durante 40 anos ou mais. Com os seus descontos, parece-lhes que chega para a reforma deles; quanto ao resto, não suportam nem ouvir falar.

Eu — que gosto daquilo que faço — compreendo-os perfeitamente. Continuar a ler ‘Partilhar o tempo’

Não há milagres

François de Pâris

Em janeiro de 1732, um decreto mandou encerrar aquele cemitério onde a fé no empobrecimento como via para a salvação tinha chegado longe demais. Era empobrecimento com redistribuição, o que talvez tenha assustado o poder.

 Não duvido de que, ao ouvirem ontem Pedro Passos Coelho discursando no Pontal, uma maioria de portugueses se tenha lembrado de um momento crucial nas relações entre a razão de estado e a religião, ocorrido há 280 anos, e seis meses, em 1732. Para os restantes, segue-se esta sucinta narrativa.

Havia em Paris um padre chamado Pâris, François de Pâris, que vivia uma vida ascética entre os pobres de um dos bairros mais pobres da cidade e já por duas vezes tinha dado a esses pobres todo o seu dinheiro (quando entrou na vida religiosa e quando recebeu por herança as propriedades dos seus pais, que vendeu e cujo lucro distribuiu). Tinha inúmeros seguidores e quando morreu aos 39 anos, em 1727, rapidamente foi tomado por santo Continuar a ler ‘Não há milagres’

Mentiras verdadeiras

“Dirás ao teu pai, o conde Tolstoi, que caíste. E que quem te levantou foi Fiodor Dostoievski.”

Jantei uma vez na casa de um extraordinário russo, na Rússia. A conversa fazia-se num inglês fragmentário, mas expressivo. O seu interminável repertório de histórias subdividia-se em diversas categorias; às melhores ele chamava “true fake”, ou seja “mentiras verdadeiras”, que não eram sequer mentiras mas apenas tão boas que mereceriam sê-lo. Depois vinham as “fake fake”, que eram mentiras mesmo mentiras mas suficiente boas para merecerem ser verdade. Quando as histórias eram tristemente verdadeiras, o meu anfitrião encolhia os ombros, fazia uma cara quase de quem pede desculpas, dizia: “this, my friend, is true-true”. Verdade verdadeira, meu amigo; o mais baixo da escala.

Os graus de importância eram pontuados com brindes de vodca. Os temas eram os absurdos da política e as grandes rivalidades literárias, em particular a de Tolstoi e Dostoievski. Os dois grandes escritores admiravam-se em público, invejavam-se em privado e desdenhavam-se no íntimo. Diz-se que uma pessoa pode tender a Tolstoi ou a Dostoievski, nunca a ambos. Os dois nunca se encontraram. Continuar a ler ‘Mentiras verdadeiras’

Uma refundaçao democrática? (6)

O desperdício de gente é o mesmo numa economia injusta e num sistema político capturado.

Portugal é um país de exclusão. Exclusão económica e social. Mas também exclusão política. As duas estão ligadas, pois uma democracia da qual os cidadãos estão excluídos não  só não funciona como democracia como não conseguirá trazer justiça e económica e social. É estranho que os partidos que combatem a exclusão económica e social continuem a praticar a exclusão política, a negar que ela existe, ou a comportar-se como se ela fosse um assunto menor.

Nas últimas cinco crónicas desta série comecei por descrever como a degradação da democracia não é uma novidade em Portugal, tendo seguido no liberalismo e na república a mesma trajetória de clientelismo, feudalismo e partidocracia que estamos a experimentar agora; em seguida apresentei propostas para a democracia local (eleições primárias abertas) e europeia (eleição do chefe de missão no Conselho); ao chegar ao Parlamento e aos partidos deparamo-nos com dois problemas quase inamovíveis, a saber, um parlamento onde a disciplina partidária pode mais do que a Constituição (na liberdade de voto e mandato), os interesses podem mais do que a obrigação de legislar (com deputados trabalhando para escritórios de advogados) e, finalmente, partidos que partem e repartem uma escolha que não chega bem a ser nossa. Continuar a ler ‘Uma refundaçao democrática? (6)’

Habitat

Nós poderemos um dia viver debaixo de água. Mas não sem cultura.
A cultura é o habitat do ser humano. Se não formos o mais frágil dos animais, somos certamente dos mais dependentes e até mais tarde, mas o nosso habitat envolve-nos tanto que não precisamos de dar por isso. Raramente temos de experimentar como a exposição a um certo frio a mais ou um certo calor a mais nos mataria. Mas temos roupas, e temos casas, e temos até refrigeração, e com elas podemos viver no ártico ou nos trópicos.
Há humanos que vivem em órbita, outros que foram à lua. Poderemos um dia viver noutro planeta. O que nos levará lá será a cultura humana, e o que nos manterá foi podermos estender até lá o nosso habitat, que é a cultura humana. Veja-se um austronauta: Continuar a ler ‘Habitat’

Uma refundação democrática (5)?

As pessoas nos partidos deveriam ver mais longe, e entender que “mais do mesmo” não chega para os nossos tempos históricos.

Há um princípio chamado de Clay Shirky, do nome de um autor de livros sobre cultura e tecnologia, segundo o qual “as instituições procuram preservar o problema para o qual deveriam ser a solução”. A razão é muito simples: caso resolvesse o problema para o qual foi criada, a instituição X perderia a sua razão de existir; em consequência, no conflito entre resolver o problema e assegurar a sua própria manutenção, a instituição tende — a menos que seja forçada por outra via — para a segunda opção.

Este paradoxo faz lembrar, de forma irresistível, a situação dos partidos políticos em Portugal. Os partidos são  essenciais à democracia; porém, se fossem verdadeiramente democráticos perderiam a razão de existir na sua forma atual, que é a de afunilar a democracia portuguesa. Continuar a ler ‘Uma refundação democrática (5)?’

Uma refundação democrática? (4)

A nossa democracia só poderá evitar repetir as decadências do passado se conseguir abrir-se à sociedade. Só que, nesse campo, o nosso regime está a fazer um péssimo trabalho.

 Esta série de crónicas parte de um pressuposto: o de que o regime democrático português tem sido desvirtuado. Começámos por um paralelo histórico, pois as duas anteriores tentativas de regimes análogos em Portugal (o liberalismo e a Iª República), com todos os seus defeitos e diferenças, começaram também pelas melhores intenções constitucionais e acabaram presas do clientelismo, do feudalismo político, e de partidos políticos hierárquicos, fechados e a certa altura ideologicamente vazios, pois serviam apenas de entrepostos de distribuição de lugares e de favores.

A questão aqui é: será mera coincidência qualquer semelhança com o presente? Na minha opinião, há uma diferença enorme. Continuar a ler ‘Uma refundação democrática? (4)’