Arquivo mensal para Outubro, 2011

Uma conspiração de irresponsáveis

A história registará a forma como tudo isto aconteceu, mas não compreenderá. Parece a obra de uma conspiração de irresponsáveis.

Ainda bem que Merkel e Sarkozy proclamam fazer tudo para salvar o euro e a União. Se fosse para destruir o euro e a União ninguém daria pela diferença.

Quando isto começou, há mais de ano e meio, só poderia ter havido uma mensagem da União: o euro é inexpugnável, ponto.

A bem do euro, qualquer dúvida sobre a solvência de um dos seus estados – no caso, a Grécia – teria de ser cortada pela raiz. Infelizmente, a Senhora Merkel tinha então umas eleições na província, e preferiu o provincianismo. Impediu qualquer resposta comum ao incêndio que começava a lavrar e ainda não resistiu a lançar gasolina para o fogo, com uns comentários infelizes sobre os países do Sul, lançando para a opinião pública alemã preconceitos que nunca mais ninguém conseguiu controlar.

O incêndio ganhou mais dois focos, Irlanda e Portugal. Continuar a ler ‘Uma conspiração de irresponsáveis’

Projectos-piloto aprovados

Dois projectos-piloto que apresentei foram hoje aprovados por unanimidade na votação no Parlamento Europeu do Orçamento da União Europeia para 2012: o Plano de Emergência para Refugiados e a continuação do Programa de Apoio a Vítimas de Tortura.

Um terceiro projecto-piloto – a criação de um Instrumento de Monitorização do Pluralismo dos Media Europeus – foi rejeitado pela Comissão Europeia (CE) e pelos grupos dos Socialistas e Populares do PE – rejeição a que certamente não foi alheia a influência de bastidores de países-membro como a Hungria ou a Itália. Para o ano que vem voltaremos a tentar fazer passar este importante instrumento.

Aqui ficam os documentos, para consulta de todos:

Plano de Emergência para Refugiados

Programa de Apoio a Vítimas de Tortura

Pluralismo dos Media

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Federal e confederal

O que quer dizer federal  e confederal, no contexto da União Europeia? Vamos começar pelo que não quer dizer: democrático. 

Esta é a nossa primeira crise federal: o euro é uma realidade federal. Não se pode vencer uma crise federal com armas confederais.

Em duas frases, este é o problema, e esta é a raiz de todos os fracassos em resolver o problema. A partir daqui, há duas soluções possíveis: ou se acaba com o euro, ou se avança com a federação. Enquanto portugueses e europeus devemos ter muito claro o que isto implica, e debater a fundo em que condições aceitamos um caminho ou outro. Em tese, este seria um debate a adiar para um futuro abstrato. Mas a crise tornou-o urgente. Continuar a ler ‘Federal e confederal’

A demoglobalização

A mesma Europa que manda cortar nos salários e pensões prepara-se agora para implorar aos bancos que aceitem o nosso dinheiro, ilimitado e sem condições.

Lembram-se daquele slogan dos anos 90, “as pessoas primeiro”? Em 2011, encontrou um novo sentido: as pessoas lixam-se primeiro.

Escrevendo ontem neste jornal, o economista Paulo Trigo Pereira perguntava “onde estão as gorduras” do estado que este governo apregoava ir cortar, e dá um início de resposta: “afinal, «gorduras» eram só salários e pensões”. Outro economista, João Rodrigues, confirma que “com este Orçamento, todos saberão o que são as «gorduras» do Estado: salários, pensões e bens sociais, da saúde à educação, amputados; a vida de tantas famílias injustamente fragilizada”. A amargura é justificada: na hora de cortar, os governos escolhem as pessoas primeiro. Continuar a ler ‘A demoglobalização’

Processo de Ruína em Curso

Como todas as revoluções, este PREC tem os seus crentes, os seus clientes e os seus dementes. Quando os planos começam a falhar é muito difícil, e quase inútil, conseguir distinguir uns dos outros.

Nos anos 70, — em comparação, a única outra grande crise entre a Grande Depressão e a crise atual —, o choque petrolífero apanhou Portugal em pleno processo revolucionário. Saído de uma ditadura, acabando uma guerra colonial, discutindo a sua inserção geopolítica entre dois super-poderes, a Europa ou o Terceiro Mundo, o país atingiu o ponto de ebulição durante seis meses em 1975 — que foi também o ponto alto da crise internacional. Desde então há uma direita portuguesa que culpa aquela meia-dúzia de meses transcorridos há mais de 30 anos pela maioria dos problemas atuais de Portugal.

A propósito disso pensei há tempos escrever uma crónica com o título: “Última Hora! O PREC já acabou”. Só que, entretanto, começou um novo PREC. Continuar a ler ‘Processo de Ruína em Curso’

Sem onde nem como

Onde há poder, não há em geral legitimação democrática. Onde há legitimação democrática, há em geral pouco poder, ou um poder amputado.

Quando os árabes se indignaram, bastou-lhes sair à rua. Uma ditadura está em todo o lado e, em consequência, qualquer ajuntamento em qualquer lugar põe em causa a ditadura. Não é preciso procurar o centro de um poder omnipresente.
Quando os americanos se indignaram, não foram para a frente da Casa Branca. De que serviria manifestarem-se em frente a um Barack Obama sem poder? Também não foram para o Capitólio, manifestar-se perante deputados e senadores, — no fundo, o verdadeiro poder não estava ali. Para os americanos, o verdadeiro poder tem um lugar: Wall Street, sede do capitalismo financeiro americano. Ali estavam as empresas que desencadearam a crise e puseram obstáculos à restauração de uma economia sã. E ali estavam, ainda por cima, os autênticos donos de muitos deputados e senadores. Porquê esperar então? A contestação dirige-se para onde o poder está.

A pergunta que eu tenho para vocês é: para onde devem ir os europeus? Continuar a ler ‘Sem onde nem como’

Pensando na 46

Em resultado, Alberto João Jardim suscita também uma espécie de loucura, mas com pouco método.

1. Alberto João Jardim ganhou ontem a sua 45ª eleição consecutiva na Região Autónoma da Madeira. Como dizer qualquer coisa que não tenha sido repetida já 45 mil vezes?
Podemos começar, julgo eu, por um eleitor imaginário, que existirá certamente, e que tenha votado contra Alberto João Jardim estas 45 vezes. Essa pessoa foi sempre derrotada; se teve oportunidade disso, quis explicar ao resto do país como era o poder de Jardim na sua terra; viu as instituições da República omitirem o seu dever e permitir aquele estado de exceção. Continuar a ler ‘Pensando na 46’

Livros para Timor-Leste — um teste

Conforme prometido há dois meses, eis uma lista de vinte escolas de aldeia (de “suco”) no Distrito de Baucau que precisam de duas coisas simples: um dicionário (de preferência ilustrado) e uma gramática de língua portuguesa. Aquelas que têm um asterisco ao lado do nome já estão atribuídas, as outras estão livres.

Por favor enviem um mail para livrosparatimor — arroba — gmail.com se quiserem ficar com uma escola à vossa responsabilidade. Como habitual em Timor, esta experiência vai ter uma parte de aventura (não há carteiro para levar estes livros às montanhas e às zonas rurais, onde vivem a maior parte dos timorenses, e onde chegam menos livros) e vamos tentar testar as melhores soluções de entrega até servir estas vinte escolas. Também em Portugal vai ser preciso explicar nos correios que vamos usar uma tarifa especial, quase desconhecida, e muito incompreendida, para enviar livros para Timor-Leste.

As instruções chegarão pela volta do correio. Se tudo correr bem, voltamos a tentar com mais vinte escolas. E depois mais vinte.

1.    EPP 07 Buibau*

2.    EPP 09 Belavista*

3.    EPP 02 Teulale*

4.    EPP 03 Gariuai*

5.    EPc Samalari*

6.    EPC Sao Domingos Savio*

7.    EPC Uailili

8.    EPP Daytula

9.    EPC  Uatowa’a

10. EPP 11 Vila Nova Baucau

11. EPP Dare-Gata

12. EPP Ague

13. EPP 04 Buruma

14. EPP 08 Caibada Makasae

15. EPP Uaimanuboe

16. EPP Leqeracabuu

17. EPP Macalaku

18. EPP Yatua

19. EPP Kaisidu

20. EPC Baoli

 

Empurrar uma corda pela ponta

Ao injetar dinheiro nos bancos que estes não passaram para a economia real, os estados estavam a tentar empurrar uma corda comprida para dentro de um buraco. Um trabalho tão fútil quanto esgotante.

1. Uma pessoa normal, em geral, fica insolvente quando não tem dinheiro para pagar as suas dívidas e demais obrigações. Um banco fica insolvente quando não tem pessoas a quem emprestar o seu dinheiro. As duas coisas podem ocorrer em ciclo: as pessoas insolventes não pagam as suas dívidas aos bancos; e os bancos deixam de ter clientes dignos de crédito, entrando em insolvência.

Se o negócio do banco está em encontrar gente a quem possa emprestar dinheiro isso significa que as pessoas são o ativo do banco. Pessoas insolventes tornam insolventes os bancos.

No início desta crise, os estados tentaram resolver a crise Continuar a ler ‘Empurrar uma corda pela ponta’

Uma jeremíada

As pessoas reais não precisam que gostem delas; querem é ser respeitadas.
Em Portugal, os políticos que gostam mais de dinheiro do que de poder tornam-se administradores. O tempo em que eram ministros ou deputados foi uma espécie de recruta a que não desejam regressar. É nas empresas, públicas, privadas, ou híbridas, que estão os salários de dezenas de milhares de euros por mês, os bónus de milhões, os pagamentos chorudos para assistir a umas raras reuniões — abrigados da crítica pública e auferindo dos salários de gestores mais altos da União Europeia, em termos absolutos.

Os políticos que gostam mais de poder do que de dinheiro ficam na corridinha de obstáculos a que às vezes se chama — só o nome assusta — a carreira partidária. Esta depende da submissão ao chefe e, tanto quanto possível, de guardar as suas ideias para si. A regra é: comenta tudo, não te comprometas em nada. Diz o mínimo, nunca escrevas, e andarás pelo seguro. Chegado ao topo dessa carreira o político que gosta de poder exercerá o poder nos limites partidários, o que se resume a isto: manter um nicho de mercado. Pode ser no mercado da governação ou n, o mercado da contestação, desde que fale para o seu nicho, que lhe devolverá o eco da sua voz.

E depois há os políticos que sonsamente dizem que “gostam de pessoas”. Continuar a ler ‘Uma jeremíada’