Arquivo mensal para Dezembro, 2009

Os jovens curdos (um epílogo)

Os jovens curdos (um epílogo)
Ancara, Turquia. — Sehriban, Sevin, Sultan, Emel e Evran. Quatro raparigas e um rapaz. Têm menos de trinta anos. Todos são licenciados — em Química, Relações Internacionais, Comunicação Social. Pertencem todos à minoria curda, mas já não falam curdo.
A única rapariga mais religiosa — o rapaz diz-se ateu — é alevita, de uma minoria que conta com um quarto da população, e que pratica um islamismo aberto —  as suas mesquitas chamam-se simplesmente “assembleias” e nelas os homens e as mulheres rezam juntos embora, pelo exemplo presente, pareçam pouco assíduos. “Quando vais ao teu templo?”, pergunto. “No dia 18 de Janeiro”, responde Emel. Estamos longe das cinco orações por dia, e até das idas à mesquita todas as sextas.
Estes jovens descontraídos apoiam um partido que acabou de ser ilegalizado — o Partido da Sociedade Democrática, pró-curdo — e esperam na sede do partido que a polícia venha levar um dos seus deputados, Ahmed Türk, para ser julgado em tribunal por “insultos à nação turca”. Esperam por notícias.
E quais são as notícias de Ancara? Complôs. A polícia investiga as forças armadas por causa de um alegado complô para matar o vice-primeiro-ministro. As forças armadas queixam-se de um alegado complô da parte de certos deputados para denegrir a sua imagem. O tribunal constitucional ilegaliza o partido pró-curdo considerando que existe um complô contra a integridade do estado turco; e o partido pró-curdo alega que há um complô para o apresentarem como separatista. Todos se contraplõem uns aos outros — alegadamente.
Mas alguém tem de ceder. O partido no poder é democrático no sentido em que é maioritário, mas não é propriamente secular nem pluralista. O exército é secular mas não propriamente pluralista nem democrático. E os partidos das minorias tendem a ser pluralistas e seculares mas — afinal de contas — são minoritários.
Como o próprio Ahmet Türk me lembra, calmamente conversando comigo enquanto a polícia faz de conta que não o vê, pior do que uma Turquia com falsas esperanças só uma Turquia desesperada. Por isso, sugere ele, a actual posição de franceses e alemães contra a entrada da Turquia na UE é o pior de dois mundos. A União deve deixar muito claro que apenas uma Turquia reformadamente democrática, pluralista e secular poderá ser estado-membro. Deve, aliás, ser bem mais exigente nas negociações políticas. Mas o que Sarkozy e Merkel indicam é apenas que a Turquia nunca entrará por ser muçulmana, ou porque eles não querem. Isto é, no fundo, dizer que nenhuma reforma conta, e dar carta branca para os militares e os religiosos fazerem o que quiserem.
A uns mil quilómetros daqui, em Teerão, milhares de jovens de outro país arriscam a vida pela democracia. A Turquia e o Irão têm várias coisas em comum. São dois grandes países não-árabes do médio-oriente, herdeiros de impérios vastos e históricos — o otomano e o persa —, com populações jovens e bastante educadas. Já que não conseguimos facilitar a vida aos jovens de Teerão, poderíamos ao menos tentar não dificultá-la aos jovens de Ancara.
***
Entretanto escrevo para o Público a última crónica de 2009 — e dos próximos tempos. Tal como no ano passado, aproveito este período para meter férias e tentar avançar com os meus projectos historiográficos (sem prejudicar o parlamento). Vão vocês andando à minha frente e tendo o melhor ano possível; daqui a uns tempos já vos apanho.

Ancara, Turquia. — Sehriban, Sevin, Sultan, Emel e Evran. Quatro raparigas e um rapaz. Têm menos de trinta anos. Todos são licenciados — em Química, Relações Internacionais, Comunicação Social. Pertencem todos à minoria curda, mas já não falam curdo.

A única rapariga mais religiosa — o rapaz diz-se ateu — é alevita, de uma minoria que conta com um quarto da população, e que pratica um islamismo aberto —  as suas mesquitas chamam-se simplesmente “assembleias” e nelas os homens e as mulheres rezam juntos embora, pelo exemplo presente, pareçam pouco assíduos. “Quando vais ao teu templo?”, pergunto. “No dia 18 de Janeiro”, responde Emel. Estamos longe das cinco orações por dia, e até das idas à mesquita todas as sextas.

Estes jovens descontraídos apoiam um partido que acabou de ser ilegalizado — o Partido da Sociedade Democrática, pró-curdo — e esperam na sede do partido que a polícia venha levar um dos seus deputados, Ahmed Türk, para ser julgado em tribunal por “insultos à nação turca”. Esperam por notícias.

Continuar a ler ‘Os jovens curdos (um epílogo)’

Na terra de Jano

Na terra de Jano
Istambul, Turquia. — Tento orientar-me na cidade desconhecida. Cheguei pela primeira vez há menos de vinte e quatro horas; não tenho aqui amigos; o idioma não se parece com nada que eu entenda. E, no entanto, sinto-me bastante em casa.
Istambul não é “outro mundo” — para isso, seria talvez mais fácil pegar no carro e ir até Marrocos, tão perto. Istambul faz parte do nosso mundo; se quiséssemos ser rigorosos, poderíamos até dizer que é ao contrário: é o nosso mundo que em parte foi criado aqui, desde os tempos dos imperadores Constantino e Teodósio. Mesmo quando não sabemos, fazemos parte da história desta cidade.
A basílica de Hagia Sofia — Aya Sofya em turco, Santa Sofia ou Santa Sabedoria se quisermos — é um bom exemplo da amálgama cultural que aqui se fez: sendo ainda na essência um monumento clássico, é um primeiro grande templo cristão, e por acrescento se fez uma mesquita, bastando para isso a aposição de enormes placas caligráficas com dizeres do Corão, os agora famosos minaretes e uma mirhab para indicar a direcção de Meca.
Por isso, se quisermos mesmo ser rigorosos, Istambul faz parte do nosso mundo mas faz também parte de um outro — vários outros — por sobreposição. No avião comigo vinham os emigrantes turcos de regresso a casa, iguais aos nossos emigrantes portugueses, falando com os filhos uma mescla do idioma materno com francês ou alemão. No aeroporto, esperando as bagagens junto ao tapete rolante, estavam os peregrinos que tinham feito a hajj, aguardando que chegassem os seus garrafões de água da sua cidade santa. Por ali passa também um judeu hasídico; nas paredes um cartaz anunciando uma exposição de Chagall.
***
Nestes dias de fim de ano é comum evocar o deus Jano, que deu o nome ao mês que começa esta semana, e que tinha duas caras — uma para olhar para o presente, outra para o passado. A Turquia é uma espécie de deus Jano da Geografia: o seu olhar vai para o Ocidente e para o Oriente ao mesmo tempo. Tem de fazê-lo e deve fazê-lo; há nesse duplo olhar potencial e risco.
Nas notícias do dia, uma ilustração do que acabo de escrever. Por um lado, a Turquia oferece-se para ser o local da troca entre urânio das centrais iranianas e combustível nuclear que não serve para fazer bombas; os iranianos parecem confiar nos turcos e os ocidentais estão discretamente esperançosos. Por outro lado, um dirigente cipriota turco diz que já desesperou de procurar uma solução para a divisão da sua ilha com os cipriotas gregos e que não vale a pena continuar a falar para sempre — pelo tom, não parece que se tenha sequer esforçado muito. Em cada caso, um exemplo de como a Turquia pode ajudar a resolver problemas, ou a eternizá-los ainda mais.
***
Tenho comigo um email enviado de um estudante turco que faz o seu ano erasmus em Lisboa. Ele Taksim como sendo “o Bairro Alto de Istambul”. Chego aqui e — surpresa! — é o Bairro Alto em Istambul. Sento-me num bar de jazz. Nas paredes, cartazes anunciando que Istambul vai ser a Capital Europeia da Cultura em 2010. Se nos distraíssemos, iríamos jurar que a Turquia já entrou na União Europeia.
E, no entanto, é entre estes jovens idênticos aos jovens de Barcelona, de Amesterdão ou Berlim — que não usam véu mas piercing, que bebem cerveja e falam inglês — que estão os maiores desiludidos com a União Europeia. “Vocês não nos querem”, diz Zeynab, uma recém-economista, “e inventam motivos para não entrarmos. Pessoalmente, acho que não vale a pena tentar mais”.

Istambul, Turquia. — Tento orientar-me na cidade desconhecida. Cheguei pela primeira vez há menos de vinte e quatro horas; não tenho aqui amigos; o idioma não se parece com nada que eu entenda. E, no entanto, sinto-me bastante em casa.

Istambul não é “outro mundo” — para isso, seria talvez mais fácil pegar no carro e ir até Marrocos, tão perto. Istambul faz parte do nosso mundo; se quiséssemos ser rigorosos, poderíamos até dizer que é ao contrário: é o nosso mundo que em parte foi criado aqui, desde os tempos dos imperadores Constantino e Teodósio. Mesmo quando não sabemos, fazemos parte da história desta cidade.

A basílica de Hagia Sofia — Aya Sofya em turco, Santa Sofia ou Santa Sabedoria se quisermos — é um bom exemplo da amálgama cultural que aqui se fez: sendo ainda na essência um monumento clássico, é um primeiro grande templo cristão, e por acrescento se fez uma mesquita, bastando para isso a aposição de enormes placas caligráficas com dizeres do Corão, os agora famosos minaretes e uma mirhab para indicar a direcção de Meca.

Por isso, se quisermos mesmo ser rigorosos, Istambul faz parte do nosso mundo mas faz também parte de um outro — vários outros — por sobreposição. No avião comigo vinham os emigrantes turcos de regresso a casa, iguais aos nossos emigrantes portugueses, falando com os filhos uma mescla do idioma materno com francês ou alemão. No aeroporto, esperando as bagagens junto ao tapete rolante, estavam os peregrinos que tinham feito a hajj, aguardando que chegassem os seus garrafões de água da sua cidade santa. Por ali passa também um judeu hasídico; nas paredes um cartaz anunciando uma exposição de Chagall.

Continuar a ler ‘Na terra de Jano’

Por uma cidade que se respeite

Por uma cidade que se respeite
Uma cidade que se respeite não permite que um proprietário tenha o seu prédio degradado, a cair, abandonado, com falta de pintura, destelhado, entaipado, em risco de incêndio ou derrocada. Não permite. Ponto.
Uma Câmara Municipal digna desse nome multa, castiga, reprime o desleixo e negligência de quem for dono de um prédio nessas condições. Se não tiver instrumentos legais robustos para o fazer, exige-os ao governo da República. Se não o conseguir, tem que se fazer porta-voz da indignação dos munícipes.
O governo do país tem a obrigação de impedir que os centros das nossas cidades estejam sujos, ocos e cariados. Tem o dever de tornar muitíssimo dispendioso este mau hábito de quem não cuida da sua propriedade urbana. Tem o interesse — num país antigo, peculiar e turístico como o nosso — de garantir que os nossos centros históricos estejam impecáveis.
Não existe o direito de ter um prédio a cair. Tal como não existe o direito de guiar um carro sem travões ou poluente. Não interessa se o compraram ou herdaram. O carro tem de passar na inspecção periódica. O mesmo deveria valer para o prédio: tem de estar em boas condições, ou o proprietário terá de pagar pelo dano e risco que provoca a outrem.
Um prédio decadente faz reverberar o desleixo. Baixa o valor da sua rua ou do seu bairro, incluindo o daqueles prédios cujos proprietários, mais conscienciosos, trataram de cuidar e manter em boas condições. Um prédio a cair representa um risco de segurança para quem ali passa, para o solitário inquilino que às vezes lá resta, para os vizinhos.
A propriedade de um prédio não é coisa que venha sem obrigações. Esse é um equívoco que engendra outros equívocos de todas as partes envolvidas, sem excepção: a ideia de que os exemplos de prédios integralmente ocupados com rendas baixas (cada vez menos) podem servir de desculpa para situações de incúria em prédios praticamente vazios; a ideia de que o estado pode ser o primeiro proprietário negligente; a ideia de que às autoridades públicas cabe, sempre, pagar toda a factura do rearranjo dos prédios. O Rossio de Lisboa foi recuperado com dinheiros públicos há uma década. Hoje tem prédios com telhados cobertos de folha de alumínio. Lamento, mas isto não é cidade que se respeite.
***
O presente de Natal para toda a gente que gosta da cidade, da cultura e de música aí está: ardeu o prédio onde ficava o Hot Clube de Lisboa, um dos mais antigos clubes de jazz da Europa.
Perguntava um leitor do Público, ao saber da notícia: será que vale a pena fazer TGVs e novos aeroportos para mostrar uma cidade vazia? Sob o impacto do momento, o exagero é desculpável, porque toca na ferida. As pessoas não vão apanhar o TGV para Madrid para ficar a olhar para a estação ferroviária. Vão para ver o Museu do Prado.
Aquilo que Portugal e Lisboa esquecem — com o novo-riquismo desculpável de quem se encontra em algumas rotas da moda — é isto: ninguém volta ao hotel de charme para olhar de novo para o mesmo prédio esburacado em frente.
Andámos anos a discutir um ridículo projecto para o Parque Mayer, e deixámos o Hot Clube ao abandono. O salão do Conservatório está em ruina. O Pavilhão Carlos Lopes também. Não temos um lugar no centro da cidade para receber exposições internacionais que atraiam centenas de milhares de visitantes. Achamos natural que o candidato evidente para essa função — a Praça do Comércio — sirva para a burocracia do estado. Ou então, que se faça lá um hotel de charme. Temos, não o nego, muito charme no abandono.

Uma cidade que se respeite não permite que um proprietário tenha o seu prédio degradado, a cair, abandonado, com falta de pintura, destelhado, entaipado, em risco de incêndio ou derrocada. Não permite. Ponto.

Uma Câmara Municipal digna desse nome multa, castiga, reprime o desleixo e negligência de quem for dono de um prédio nessas condições. Se não tiver instrumentos legais robustos para o fazer, exige-os ao governo da República. Se não o conseguir, tem que se fazer porta-voz da indignação dos munícipes.

O governo do país tem a obrigação de impedir que os centros das nossas cidades estejam sujos, ocos e cariados. Tem o dever de tornar muitíssimo dispendioso este mau hábito de quem não cuida da sua propriedade urbana. Tem o interesse — num país antigo, peculiar e turístico como o nosso — de garantir que os nossos centros históricos estejam impecáveis.

Não existe o direito de ter um prédio a cair. Tal como não existe o direito de guiar um carro sem travões ou poluente. Não interessa se o compraram ou herdaram. O carro tem de passar na inspecção periódica. O mesmo deveria valer para o prédio: tem de estar em boas condições, ou o proprietário terá de pagar pelo dano e risco que provoca a outrem.

Um prédio decadente faz reverberar o desleixo. Baixa o valor da sua rua ou do seu bairro, incluindo o daqueles prédios cujos proprietários, mais conscienciosos, trataram de cuidar e manter em boas condições. Um prédio a cair representa um risco de segurança para quem ali passa, para o solitário inquilino que às vezes lá resta, para os vizinhos.

A propriedade de um prédio não é coisa que venha sem obrigações. Esse é um equívoco que engendra outros equívocos de todas as partes envolvidas, sem excepção: a ideia de que os exemplos de prédios integralmente ocupados com rendas baixas (cada vez menos) podem servir de desculpa para situações de incúria em prédios praticamente vazios; a ideia de que o estado pode ser o primeiro proprietário negligente; a ideia de que às autoridades públicas cabe, sempre, pagar toda a factura do rearranjo dos prédios. O Rossio de Lisboa foi recuperado com dinheiros públicos há uma década. Hoje tem prédios com telhados cobertos de folha de alumínio. Lamento, mas isto não é cidade que se respeite.

Continuar a ler ‘Por uma cidade que se respeite’

Um dia tramado no planeta

Um dia tramado no planeta
Em Copenhaga, cinco grandes países proclamaram um acordo ineficaz com objectivos insuficientes que vai deixar países do Sul debaixo de água. O representante dos 77 países mais pobres protestou. Dizia Tucídides, no ano quatrocentos e tal antes de Cristo: “os grandes fazem o que querem; os pequenos aguentam como podem”.
Acto contínuo, Obama abandonou a cimeira apanhou o avião por causa de uma tempestade de neve sobre Washington. Começo a ficar irritado com o provincianismo americano. Com as tempestades de neve também — fecharam o aeroporto e não consigo voltar para casa.
As alterações meteorológicas criarão “refugiados climáticos”; quando eles se começarem a mexer, aos milhões, em busca de lugar para viver, tudo o que conhecemos com as actuais migrações vai parecer uma brincadeira. Os mesmos tipos que negam as alterações climáticas vão fartar-se de resmungar.
Não ligo a TV, não me mostrem o jornal. As doenças novas têm nomes esquisitos; as velhas têm nomes assustadores. As primeiras chegaram e as segundas não desapareceram.
Os bancos rebentaram com a gente e deixaram-nos a recolher os nossos próprios restos. A Islândia já faliu, o Dubai não paga as dívidas, a Grécia está em apuros. Um em cada cinco espanhóis está desempregado.
***
Em Portugal, parece que o país está ingovernável (está sempre). Parece que estabilidade governativa está em risco (como sempre) porque parece que Cavaco Silva disse qualquer coisa difícil de decifrar (e não diz sempre?). Numa visita aos “francisquinhos” (não perguntem) o Presidente da República gaguejou ao tentar dizer “inverno demográfico” e exprimiu, por causa de os portugueses não fazerem bébés, a preocupação que nunca lhe ouvi pelos portugueses que trabalham horários cada vez mais longos e desregulados. Neste Natal vai haver gente a trabalhar sessenta horas por semana e quatorze no dia da consoada; não deixa muito tempo para os bébés.
Alguém roubou uma máquina multibanco com uma retroescavadora. O CDS fala de crime “cada vez mais sofisticado” e quer saber se foi “cometido por estrangeiros”. Não consta dele o deputado Ricardo Rodrigues, voz do PS contra a corrupção, que um tribunal deu como envolvido com um “gangue internacional” que incluía off-shores e um cardeal Ortodoxo. Noutras notícias, a conta do BPN vai em quatro mil milhões de euros.
Vasco Pulido Valente proclama que Portugal não tem homens; a igreja exclama que os homens querem casar uns com os outros.
***
E assim por diante, semana após semana e mês após mês deste nosso ano quase no fim. É tentador perguntar se vale a pena tanto trabalho. Porque, sabem? Se isto fosse tudo para o galheiro sempre poderíamos dizer que a culpa foi de todos. Se a culpa foi de todos, a culpa não foi de ninguém. E depois começávamos de novo.
Ou talvez não.
Há gente de quem eu gosto e que, apesar de tudo, lá vai gostando de mim. O meu sobrinho defende a tese hoje; é mais esperto do que eu (sim, eu sei que não é difícil) e estuda plantas e sabe imensas coisas sobre regiões com pouca ou nenhuma água. Pode ser que ele e os colegas nos safem. Além disso, quero visitar os meus pais, que estão velhinhos mas vivos.
E vocês, sem dúvida, terão coisas parecidas para dizer. Boa sorte para esta semana. Cuidado na estrada. Se puderem, nem se metam no carro.

Em Copenhaga, cinco grandes países proclamaram um acordo ineficaz com objectivos insuficientes que vai deixar países do Sul debaixo de água. O representante dos 77 países mais pobres protestou. Dizia Tucídides, no ano quatrocentos e tal antes de Cristo: “os grandes fazem o que querem; os pequenos aguentam como podem”.

Acto contínuo, Obama abandonou a cimeira apanhou o avião por causa de uma tempestade de neve sobre Washington. Começo a ficar irritado com o provincianismo americano. Com as tempestades de neve também — fecharam o aeroporto e não consigo voltar para casa.

As alterações meteorológicas criarão “refugiados climáticos”; quando eles se começarem a mexer, aos milhões, em busca de lugar para viver, tudo o que conhecemos com as actuais migrações vai parecer uma brincadeira. Os mesmos tipos que negam as alterações climáticas vão fartar-se de resmungar.

Não ligo a TV, não me mostrem o jornal. As doenças novas têm nomes esquisitos; as velhas têm nomes assustadores. As primeiras chegaram e as segundas não desapareceram.

Os bancos rebentaram com a gente e deixaram-nos a recolher os nossos próprios restos. A Islândia já faliu, o Dubai não paga as dívidas, a Grécia está em apuros. Um em cada cinco espanhóis está desempregado.

Continuar a ler ‘Um dia tramado no planeta’

Governar em oposição?

Governar em oposição?
A política portuguesa — e em particular o Governo — está em fase de negação. Sim, meus amigos, as eleições não deram uma maioria absoluta. Em particular, os eleitores desejaram que o governo para esta legislatura fosse de maioria relativa. Os eleitores disseram: “peguem nestes resultados e amanhem-se”. Não disseram: “dissolvam o parlamento e voltem a perguntar-nos daqui a uns meses”. O parlamento que temos é o parlamento que, enquanto cidadãos, demos aos governantes. Habituem-se. É aquilo que vão ter nos próximos anos.
Do meu ponto de vista, acontece mais uma vez que os cidadãos estão muito à frente dos políticos. Os cidadãos sabem que é possível governar assim e — ao votarem como votaram — parecem ser da opinião de que até se pode governar melhor assim. Têm razão: há muitos países, da Holanda à Noruega, presumivelmente melhor governados do que nós, que há décadas vivem em maioria relativa. Após 35 anos de democracia, também nós seremos capazes.
A única forma de isto falhar é se os políticos decidirem colocar o eleitorado sob chantagem, fazendo tão pouco esforço de se adaptar à nova situação que, por exclusão de partes, apenas reste como alternativa ir a novas eleições. Esperamos melhor deles.
***
O estado de negação é pernicioso para todos. Quem nega a sua situação presente não consegue trabalhar nem para agora, nem para o futuro.
O governo pode desejar uma maioria absoluta — desejar nunca fez mal a ninguém — desde que não perca de vista aquilo que tem, que é apenas uma maioria relativa. O que não pode certamente, é inventar uma nova maneira de governar, que é governar em oposição. “Governar em oposição” não existe — nem como oposição à oposição, nem como oposição ao parlamento que lhes demos.
A oposição tem sido mais rápida a adaptar-se à nova situação, o que é natural, uma vez que se trata da principal beneficiada. Mas também ali há um certo trabalho conceptual a fazer.
Na verdade, uma maioria relativa esbate as fronteiras entre governo e oposição. Porém: se o governo não pode governar em oposição, a oposição tem de pensar um pouco mais como se fosse governo. Isto não tem nada de estranho; num parlamento com vários tipos de maioria, as posições de cada partido deixam de ser meramente proclamatórias e passam a ter uma hipótese de se converter em realidade. Isso é bom; dá às várias componentes partidárias da nossa sociedade uma hipótese de mudar a vida das pessoas — que deveria ser a preocupação fundamental de quem se dá ao trabalho de entrar na política.
Vários meses antes das eleições escrevi que elas nos iriam colocar na encruzilhada entre um “novo parlamentarismo” e, caso este falhasse, um “novo presidencialismo”. Na altura, alguns politólogos — em particular, e salvo erro, a Marina Costa Lobo — torceram o nariz.
O novo parlamentarismo aí está e, se bem aproveitado, representa uma oportunidade para que o nosso país se reencontre com a política. Se mal usado, todos perderemos. Não adianta aos partidos procurar pela primeira frecha para se vitimizarem e acabaram com o jogo. Portugal só é ingovernável se eles o tornarem ingovernável.
Basta olhar para as notícias para ver como o centro de gravidade da nossa política se mudou para São Bento. Se os deputados não se mostrarem à altura do novo parlamentarismo, pode um dia mudar para Belém. É isso que querem?
A política portuguesa — e em particular o Governo — está em fase de negação. Sim, meus amigos, as eleições não deram uma maioria absoluta. Em particular, os eleitores desejaram que o governo para esta legislatura fosse de maioria relativa. Os eleitores disseram: “peguem nestes resultados e amanhem-se”. Não disseram: “dissolvam o parlamento e voltem a perguntar-nos daqui a uns meses”. O parlamento que temos é o parlamento que, enquanto cidadãos, demos aos governantes. Habituem-se. É aquilo que vão ter nos próximos anos.
Do meu ponto de vista, acontece mais uma vez que os cidadãos estão muito à frente dos políticos. Os cidadãos sabem que é possível governar assim e — ao votarem como votaram — parecem ser da opinião de que até se pode governar melhor assim. Têm razão: há muitos países, da Holanda à Noruega, presumivelmente melhor governados do que nós, que há décadas vivem em maioria relativa. Após 35 anos de democracia, também nós seremos capazes.
A única forma de isto falhar é se os políticos decidirem colocar o eleitorado sob chantagem, fazendo tão pouco esforço de se adaptar à nova situação que, por exclusão de partes, apenas reste como alternativa ir a novas eleições. Esperamos melhor deles.

Uma aposta simples

Ora acontece que só temos um planeta para gastar. Se dermos cabo dele nos próximos tempos, acabou-se a brincadeira.

Quando não temos conhecimento perfeito sobre os resultados possíveis de uma nossa acção, decidimos com base em probabilidades e riscos. Altas probabilidades de baixos riscos, por exemplo, tornam a inacção apetecível. Altíssimos riscos, mesmo em baixas probabilidades, urgem-nos à acção.

Existe pouca gente, no debate sobre as alterações climáticas, que pode alegar ter conhecimento perfeito — até porque conhecimento perfeito não há. Entre quem estuda o clima a sério e sabe sobre o assunto, parece haver uma quase unanimidade em dois pontos. São eles: primeiro, o clima está a mudar; segundo, a mudança tem origem na acção humana e em particular na poluição atmosférica.

Continuar a ler ‘Uma aposta simples’

Os novos anti-semitas

Quando decidiu passar à acção, assassinando milhares de pessoas num dos edifícios mais conhecidos do mundo, Mohammed Atta sabia muito bem o que estava a destruir.

Mohammed Atta, o terrorista que espetou o primeiro avião contra as torres gémeas de Nova Iorque, era diplomado em urbanismo, com uma tese de mestrado sobre uma das cidades mais antigas do mundo — Aleppo, na Síria — e discretamente detestava os arranha-céus “ocidentais” que ali eram construídos. Quando decidiu passar à acção, assassinando milhares de pessoas num dos edifícios mais conhecidos do mundo, Mohammed Atta sabia muito bem o que estava a destruir.

Minoru Yamasaki, o arquitectou que projectou as torres gémeas, era um apaixonado pela arquitectura islâmica. O seu edifício preferido era a Mesquita do Xá em Ispaão (ou Isfahan) no Irão. Um dos países onde trabalhou mais foi na Arábia Saudita, a serviço da família real (talvez tenha mesmo chegado a usar os serviços de Muhamad bin Laden, o pai de um certo adolescente chamado Osama, futuro estudante de engenharia). E em diversas ocasiões escreveu sobre o seu interesse pela arquitectura islâmica.

Continuar a ler ‘Os novos anti-semitas’

Nada é permanente

Os pais — e mães — da Europa, eram visionários de linguagem clara que insistiam em ser compreendidos

Quem disse que a União Europeia não é rápida quando calha? Na segunda-feira pude pela primeira vez escrever sobre um acordo entre a UE e os EUA, de que a maior parte dos cidadãos nunca ouviu falar, e que constrói uma base de dados com as nossas transferências bancárias para durar cinco anos. No mesmo dia o acordo estava assinado — não fosse ele ter de ser renegociado com participação dos eurodeputados.

Tenho participado e ouvido mais debates sobre o Tratado de Lisboa — e o Programa de Estocolmo — e outras coisas semelhantes — do que seria aconselhável. Num deles, após horas de aconselhamento por parte do serviço jurídico do Parlamento Europeu, especialistas aturadamente instruídos acabaram por admitir que não sabiam o que significaria a entrada em vigor do tratado para todos os temas relacionados com liberdades, justiça e direitos civis. Se acha que não entende o Tratado de Lisboa, fique tranquilo; ele de facto une-nos a todos europeus na ignorância daquilo que ele significa.

Continuar a ler ‘Nada é permanente’