Um dia tramado no planeta
Em Copenhaga, cinco grandes países proclamaram um acordo ineficaz com objectivos insuficientes que vai deixar países do Sul debaixo de água. O representante dos 77 países mais pobres protestou. Dizia Tucídides, no ano quatrocentos e tal antes de Cristo: “os grandes fazem o que querem; os pequenos aguentam como podem”.
Acto contínuo, Obama abandonou a cimeira apanhou o avião por causa de uma tempestade de neve sobre Washington. Começo a ficar irritado com o provincianismo americano. Com as tempestades de neve também — fecharam o aeroporto e não consigo voltar para casa.
As alterações meteorológicas criarão “refugiados climáticos”; quando eles se começarem a mexer, aos milhões, em busca de lugar para viver, tudo o que conhecemos com as actuais migrações vai parecer uma brincadeira. Os mesmos tipos que negam as alterações climáticas vão fartar-se de resmungar.
Não ligo a TV, não me mostrem o jornal. As doenças novas têm nomes esquisitos; as velhas têm nomes assustadores. As primeiras chegaram e as segundas não desapareceram.
Os bancos rebentaram com a gente e deixaram-nos a recolher os nossos próprios restos. A Islândia já faliu, o Dubai não paga as dívidas, a Grécia está em apuros. Um em cada cinco espanhóis está desempregado.
***
Em Portugal, parece que o país está ingovernável (está sempre). Parece que estabilidade governativa está em risco (como sempre) porque parece que Cavaco Silva disse qualquer coisa difícil de decifrar (e não diz sempre?). Numa visita aos “francisquinhos” (não perguntem) o Presidente da República gaguejou ao tentar dizer “inverno demográfico” e exprimiu, por causa de os portugueses não fazerem bébés, a preocupação que nunca lhe ouvi pelos portugueses que trabalham horários cada vez mais longos e desregulados. Neste Natal vai haver gente a trabalhar sessenta horas por semana e quatorze no dia da consoada; não deixa muito tempo para os bébés.
Alguém roubou uma máquina multibanco com uma retroescavadora. O CDS fala de crime “cada vez mais sofisticado” e quer saber se foi “cometido por estrangeiros”. Não consta dele o deputado Ricardo Rodrigues, voz do PS contra a corrupção, que um tribunal deu como envolvido com um “gangue internacional” que incluía off-shores e um cardeal Ortodoxo. Noutras notícias, a conta do BPN vai em quatro mil milhões de euros.
Vasco Pulido Valente proclama que Portugal não tem homens; a igreja exclama que os homens querem casar uns com os outros.
***
E assim por diante, semana após semana e mês após mês deste nosso ano quase no fim. É tentador perguntar se vale a pena tanto trabalho. Porque, sabem? Se isto fosse tudo para o galheiro sempre poderíamos dizer que a culpa foi de todos. Se a culpa foi de todos, a culpa não foi de ninguém. E depois começávamos de novo.
Ou talvez não.
Há gente de quem eu gosto e que, apesar de tudo, lá vai gostando de mim. O meu sobrinho defende a tese hoje; é mais esperto do que eu (sim, eu sei que não é difícil) e estuda plantas e sabe imensas coisas sobre regiões com pouca ou nenhuma água. Pode ser que ele e os colegas nos safem. Além disso, quero visitar os meus pais, que estão velhinhos mas vivos.
E vocês, sem dúvida, terão coisas parecidas para dizer. Boa sorte para esta semana. Cuidado na estrada. Se puderem, nem se metam no carro.

Em Copenhaga, cinco grandes países proclamaram um acordo ineficaz com objectivos insuficientes que vai deixar países do Sul debaixo de água. O representante dos 77 países mais pobres protestou. Dizia Tucídides, no ano quatrocentos e tal antes de Cristo: “os grandes fazem o que querem; os pequenos aguentam como podem”.

Acto contínuo, Obama abandonou a cimeira apanhou o avião por causa de uma tempestade de neve sobre Washington. Começo a ficar irritado com o provincianismo americano. Com as tempestades de neve também — fecharam o aeroporto e não consigo voltar para casa.

As alterações meteorológicas criarão “refugiados climáticos”; quando eles se começarem a mexer, aos milhões, em busca de lugar para viver, tudo o que conhecemos com as actuais migrações vai parecer uma brincadeira. Os mesmos tipos que negam as alterações climáticas vão fartar-se de resmungar.

Não ligo a TV, não me mostrem o jornal. As doenças novas têm nomes esquisitos; as velhas têm nomes assustadores. As primeiras chegaram e as segundas não desapareceram.

Os bancos rebentaram com a gente e deixaram-nos a recolher os nossos próprios restos. A Islândia já faliu, o Dubai não paga as dívidas, a Grécia está em apuros. Um em cada cinco espanhóis está desempregado.

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Em Portugal, parece que o país está ingovernável (está sempre). Parece que estabilidade governativa está em risco (como sempre) porque parece que Cavaco Silva disse qualquer coisa difícil de decifrar (e não diz sempre?). Numa visita aos “francisquinhos” (não perguntem) o Presidente da República gaguejou ao tentar dizer “inverno demográfico” e exprimiu, por causa de os portugueses não fazerem bébés, a preocupação que nunca lhe ouvi pelos portugueses que trabalham horários cada vez mais longos e desregulados. Neste Natal vai haver gente a trabalhar sessenta horas por semana e quatorze no dia da consoada; não deixa muito tempo para os bébés.

Alguém roubou uma máquina multibanco com uma retroescavadora. O CDS fala de crime “cada vez mais sofisticado” e quer saber se foi “cometido por estrangeiros”. Não consta dele o deputado Ricardo Rodrigues, voz do PS contra a corrupção, que um tribunal deu como envolvido com um “gangue internacional” que incluía off-shores e um cardeal Ortodoxo. Noutras notícias, a conta do BPN vai em quatro mil milhões de euros.

Vasco Pulido Valente proclama que Portugal não tem homens; a igreja exclama que os homens querem casar uns com os outros.

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E assim por diante, semana após semana e mês após mês deste nosso ano quase no fim. É tentador perguntar se vale a pena tanto trabalho. Porque, sabem? Se isto fosse tudo para o galheiro sempre poderíamos dizer que a culpa foi de todos. Se a culpa foi de todos, a culpa não foi de ninguém. E depois começávamos de novo.

Ou talvez não.

Há gente de quem eu gosto e que, apesar de tudo, lá vai gostando de mim. O meu sobrinho defende a tese hoje; é mais esperto do que eu (sim, eu sei que não é difícil) e estuda plantas e sabe imensas coisas sobre regiões com pouca ou nenhuma água. Pode ser que ele e os colegas nos safem. Além disso, quero visitar os meus pais, que estão velhinhos mas vivos.

E vocês, sem dúvida, terão coisas parecidas para dizer. Boa sorte para esta semana. Cuidado na estrada. Se puderem, nem se metam no carro.

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