Arquivo mensal para April, 2009

Nem todo o pretérito é imperfeito

[A ver se aproveito a ocasião para blogar aqui mais do que apenas as crónicas do Público]

Recebi hoje várias respostas à crónica sobre Manuela Ferreira Leite, que estará aqui publicada mais tarde. Um dos comentários a este post meu é até bastante magoado — o que não julguem que me agrada. Simplesmente, pergunto-me se deveremos submeter a presidente do PSD a uma fasquia menos exigente do que aquela que usamos para outros líderes partidários. Não estou a ver que se perdoasse a Sócrates, Portas, Jerónimo ou Louçã o tipo de gaffes e atrapalhações que têm ocorrido a Manuela Ferreira Leite. E espero que os seus apoiantes não comecem a usar a tática “da incubadora” que tão maus resultados tem dado com todas as lideranças do partido.

Interessante é a forma como o 31 da Armada, logo repescado por diversos blogues de direita, encontrou para reenquandrar o meu comentário ao atual PSD:

Rui Tavares afirma que Manuela Ferreira Leite acabou com “o partido do risco, da internacionalização e da concorrência”. Notável. A exaltação dos méritos passados dos adversários com intenção de aumentar o contraste com as misérias actuais não é uma inovação retórica desta dupla de euro-candidatos. Mas apetece perguntar por onde é que andavam estes retro-adeptos quando o PSD era o partido fantástico que descrevem.

Vamos lá ver: acho que qualquer observador honesto terá de reconhecer que em tempos o PSD foi isso mesmo, o partido que defendia o risco e a competição. Tal como terá de reconhecer que houve — e em certa medida ainda há — uma esquerda isolacionista e terceiro-mundista. E daí? Isso significa apenas que o PSD desse tempo, auto-confiante e encorajador, era um adversário temível. Sei do que falo: andámos os anos 80 e metade dos 90 a perder eleições para eles. Isso não quer dizer que um tipo de esquerda tivesse de ser PSD, mas antes que tinha de se esforçar para superar o isolacionismo que ainda havia à esquerda, defendendo que Portugal não tinha nada a temer por se aproximar do resto da Europa ocidental.

Por outro lado, não me deixa feliz ver Manuela Ferreira Leite usar o tipo de argumentos a que eu chamo “a vingança da União Nacional sobre a Ala Liberal”. Claro que isso faz do PSD um adversário mais débil. Mas eu preferiria ver o PSD não regredir para uma posição em que já temos medo de um comboio para Madrid. É mau para todos, e principalmente para os simpatizantes do PSD, que no fundo conhecem bem aquilo de que eu estou a falar.

ADITAMENTO [em resposta a um leitor]: Respondi ao seu comentário e a outras críticas à minha crónica de hoje no meu blogue. Reenvio-lhe essa resposta através deste mail. Queira crer que a atitude de um cronista que escreve uma crónica como a de hoje é ambivalente. Se existe algum prazer inegável na prosa satírica, também me compadece escrever sobre alguém contra quem não tenho qualquer ânimo negativo. A pergunta que me faço sempre é: se fosse outro líder partidário a dizer isto seria poupado? Os líderes de esquerda são poupados quando dizem disparates? A minha crítica é justa? A resposta a estas perguntas é que, evidentemente, acho que a minha crítica é justa, embora implacável — ou não a teria publicado.

Não nos esqueçamos que os líderes políticos o são por sua própria escolha e ambicionam governar o país. O cronista, quando começa a sentir pena deles, deve perguntar se esse sentimento não o impede de cumprir a obrigação de estimular e alertar o debate público. É minha opinião que se começamos a poupar muito os políticos ficamos mal servidos: por exemplo, por alguém que pode chegar a primeiro-ministro sendo receoso ao ponto de ter medo do TGV (o que é bem diferente dos outros argumentos sobre a oportunidade e os custos da obra, como tive ocasião de notar).

Os próximos treze anos

Daqui a treze anos, a nossa democracia fará 48 anos e ultrapassará em duração a ditadura. O país terá finalmente vivido mais tempo em liberdade do que em opressão.

Acha Rui Rio que não é em ano eleitoral que se consegue fazer um combate sério à corrupção. Pois, claro. Nos anos não-eleitorais, como todos sabemos, o combate à corrupção tem sido seríssimo. Também todos sabemos que um antigo vice de Rui Rio, Paulo Morais, saiu da Câmara do Porto denunciando a corrupção na administração local como “um cancro” e declarando que “Rui Rio já não tira o sono aos interesses instalados”. Quem sabe? Talvez Rui Rio ache que o combate sério à corrupção passa por deixar os interesses instalados tão tranquilos que os possamos apanhar enquanto estão a dormir.

Mas qual é, afinal, o problema dos anos eleitorais? Continuar a ler ‘Os próximos treze anos’

Preventivo e universal

As declarações do ministro das finanças sobre reunir “pela imprensa” suspeitas contra o contribuinte x ou y também não me descansam nada. Então vai continuar a ser possível fugir aos impostos desde que se seja discreto? E que garantia temos de que o sigilo não será quebrado arbitrariamente

 

Como é viver num país sem sigilo bancário? Posso explicar.

Estudei por uns anos num país onde era frequente os meus colegas bolseiros regressarem às suas terras de origem para fazer os seus “trabalhos de campo”. Durante os seis ou sete meses que passavam fora, as bolsas continuavam a ser depositadas nas suas contas bancárias. Quando regressavam, os meus colegas podiam encontrar já à sua espera uma carta das finanças que os alertava para a necessidade de pagar imposto por aquele montante, agora já considerável, que tinham acumulado. Só que — em geral — as bolsas de estudo não são tributáveis. Bastava então que o interessado se dirigisse às finanças para mostrar os recibos correspondentes. Uma vez justificado o montante não havia impostos a pagar e o assunto estava encerrado.

Era chato? Sim, mas não mais do que as obrigações fiscais correntes. Atentatório da privacidade?

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O barulho do contrato que se rompe

Que o novo contrato ia falhar ficou claro quando os estudantes começaram a ser empurrados para os empréstimos bancários. Foi o próprio estado, via Caixa Geral de Depósitos, o pioneiro na introdução das gerações mais jovens ao endividamento (lembrem-se disto quando vos disserem que o povo foi imprevidente no recurso ao crédito).

Atenção: segue-se a temível frase “no meu tempo”.

No meu tempo de Universidade, havia um contrato mais ou menos claro entre os estudantes, as famílias e o estado. Esse contrato partia do pressuposto de que o ensino era “gratuito”, ou seja, que não eram os alunos que pagavam directamente os salários aos professores, mas os seus pais através dos impostos. O corolário era simples: se estudares, entrarás no ensino superior, de preferência público, de preferência perto de onde moras. O estado pagará aos professores com os impostos dos teus pais, e os teus pais pagarão directamente as outras despesas com livros, alimentação e alojamento. Não era um contrato perfeito, mas era simples — e foi o que permitiu o acesso ao conhecimento por parte de uma geração de gente sem dinheiro na família.

Nos anos 90 apareceu uma nova proposta de contrato. Continuar a ler ‘O barulho do contrato que se rompe’

Uma nova simplicidade

há dois tipos de simplicidade. A simplicidade estúpida: o fascismo, a ditadura, a agressividade e a guerra. E a simplicidade inteligente: a democracia, a participação, o pluralismo e a cooperação pacífica.

Ali por 1998 li um exuberante artigo anunciando a “Nova Economia”. A vulgarização da internet, ainda no início, iria mudar tudo: veríamos nascer novas formas de trabalho e de distribuição numa rede potencialmente infinita à escala global. Cada um dos nós dessa rede, defendia o autor, mudaria os pressupostos da velha economia. Não havia nenhuma razão para crer que os habituais ciclos de expansão e retracção se mantivessem neste novo mundo com novas regras. Estávamos à beira de uma economia de crescimento interminável; provavelmente, já tínhamos até entrado numa era sem recessões.

Tudo bem: seria fácil escarnecer da ingenuidade hiperbólica deste artigo. Continuar a ler ‘Uma nova simplicidade’

O filho da antropóloga

O olhar de Obama é, primeiro instintivamente e depois cultivadamente, o olhar antropológico.

Na mensagem que enviou aos iranianos pelo Nowruz — o ano novo persa — Barack Obama quis assinalar o que havia de comum entre os Irão e os EUA dizendo algo como isto: “vocês celebram esta festa da mesma maneira que nós fazemos com os nossos feriados, recebendo a família e os amigos, trocando presentes e histórias, e olhando para o futuro com um sentido de renovação”.

Parece estupidamente simples, mesmo ingénuo. Continuar a ler ‘O filho da antropóloga’

Memórias sem hábitos

Aqui temos principalmente uma memória colectiva fortíssima de uma catástrofe antiga que se poderá repetir, ou não, durante as nossas vidas. Essa memória não se apagou, nem apaga, mas não se converte em hábitos.

Quando publiquei o “Pequeno Livro do Grande Terramoto”, recebi uma mensagem de uma portuguesa emigrada numa cidade japonesa, onde estudava a língua e literatura daquele país. Contava-me ela que, tal como os seus vizinhos japoneses, se habituara a ter sempre uma mala feita com os objectos essenciais e roupa escolhida de prontidão para o caso de haver um sismo durante a noite. Quando saía pela manhã tinha um especial cuidado em fechar a canalização do gás, para evitar explosões no caso de haver um sismo quando estava fora de casa. Ao fazê-lo, salvava vidas.

Perguntava-me ela por que razão, sendo Lisboa a cidade de 1755, os portugueses não tinham o mesmo tipo de cuidados. Continuar a ler ‘Memórias sem hábitos’

Pragmatismo público

É a conclusão possível para a teoria segundo a qual todos os humanos são “agentes racionais no mercado”, pelos vistos com a excepção dos habitantes deste cantinho à beira-mar: os portugueses andam enganados.

Notícias velhas: o eleitorado português virou à esquerda. Para quem estava desatento: o eleitorado está mais à esquerda do que os políticos.

Uma sondagem recente da Visão diz que os portugueses dão preferência, por largas margens, aos serviços públicos nas seguintes áreas: câmaras municipais, segurança social, hospitais e centros de saúdes, escolas e universidades, recursos naturais. Em todas estes itens a maioria é de quase dois terços. Nos transportes públicos é de pouco mais de metade. E nos bancos, única área em que os resultados são mais renhidos, 43,8% contra 39,7% preferem os bancos públicos aos privados.

Estes dados deixaram a direita desanimada e deprimida, repetindo aqui e ali ainda o queixume habitual. Continuar a ler ‘Pragmatismo público’

Tavares & Tavares

O erro de percurso do político preocupa-me menos do que o pecado contra a liberdade de expressão. Vindo do primeiro-ministro, este pecado acaba por infectar toda a cadeia de comando e degradar a qualidade da democracia que temos.

Há coisa de um mês, o colunista do DN João Miguel Tavares escreveu uma crónica sobre a estratégia que José Sócrates utilizou para se referir ao Caso Freeport no Congresso do Partido Socialista. O título da crónica era “José Sócrates — o Cristo da Política Portuguesa” e a sua frase de abertura, que tem sido muito citada, era a seguinte: “Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina”. Sabe-se hoje que José Sócrates processou João Miguel Tavares por causa desta crónica. Há também informações de processos judiciais contra jornalistas do Público, mas vou ater-me aqui apenas a este caso.

Em breves palavras terei de começar por dizer o que desejo para o caso Freeport. Continuar a ler ‘Tavares & Tavares’