Daqui a treze anos, a nossa democracia fará 48 anos e ultrapassará em duração a ditadura. O país terá finalmente vivido mais tempo em liberdade do que em opressão.

Acha Rui Rio que não é em ano eleitoral que se consegue fazer um combate sério à corrupção. Pois, claro. Nos anos não-eleitorais, como todos sabemos, o combate à corrupção tem sido seríssimo. Também todos sabemos que um antigo vice de Rui Rio, Paulo Morais, saiu da Câmara do Porto denunciando a corrupção na administração local como “um cancro” e declarando que “Rui Rio já não tira o sono aos interesses instalados”. Quem sabe? Talvez Rui Rio ache que o combate sério à corrupção passa por deixar os interesses instalados tão tranquilos que os possamos apanhar enquanto estão a dormir.

Mas qual é, afinal, o problema dos anos eleitorais? Aqui há uns tempos, Manuela Ferreira Leite achava que eles impediam os partidos de tomar medidas. Rui Rio, por sua vez, acha que eles levam os partidos a tomar medidas a mais. Dê lá por onde der, as eleições são um problema para esta gente.

Isto revela uma entranhada incultura política e humanística, além de ser muito triste. O PSD é um partido fundador da nossa democracia. Teve, e tem, muitas figuras que foram essenciais nela. Mas ao mesmo tempo, não há maneira de o PSD fazer uma análise de consciência sobre os seus instintos democépticos. Aquilo que Rui Rio denuncia — que as eleições criam uma competição entre partidos para ver quem mais combate a corrupção — é precisamente aquilo que esperamos da democracia. Fora de anos eleitorais, é muito provável que os “interesses instalados” conseguissem fazer adormecer o combate à corrupção.

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Talvez nunca na nossa história tenham coincidido uma crise profunda e uma democracia consolidada. Nos anos 30 houve uma crise no mundo e uma ditadura em Portugal. Nos anos 70 a crise do petróleo apanhou-nos em processo revolucionário. Pela primeira vez, temos uma crise paradigmática e a oportunidade para um debate cívico sobre como queremos sair dela.

Acresce a isto uma maioria sociológica de esquerda que, nas sondagens, se aproxima dos dois terços. A esquerda — com todos os defeitos que também tem — é por ideal transformadora, e o país quer transformar-se. Conseguiremos?

Temos treze anos para responder a esta pergunta. No sábado comemorou-se o 35º aniversário do 25 de Abril. Daqui a treze anos, a nossa democracia fará 48 anos e ultrapassará em duração a ditadura. O país terá finalmente vivido mais tempo em liberdade do que em opressão. Temos todos a obrigação de demonstrar que com a liberdade se consegue chegar mais longe.

A prova inicial está, creio eu, mais do que feita. Os portugueses não desejariam voltar a viver com censura, eleições forjadas, polícia política ou presos de opinião. Mas a liberdade não acaba na liberdade. É preciso reconhecer que o nosso país é muitas vezes injusto, atrasado e pobre — e que isso é um fracasso colectivo nosso. Durante os próximos treze anos, se não perdermos tempo, havemos de demonstrar que a liberdade também fará de nós muito mais justos, prósperos e avançados.

Para transformar o país precisamos de três is. O primeiro é o do idealismo: uma motivação que não seja mesquinha nem interesseira mas ampla e generosa. O segundo é o da igualdade: que todos os cidadãos tenham acesso às ferramentas necessárias para conseguir um futuro melhor para o país e para si mesmos. O terceiro é o da inteligência: que o acesso ao conhecimento seja entendido como um meio, e talvez sobretudo como o fim, de uma existência com mérito. Será difícil e demorado e trabalhoso: mas que o dia 25 de Abril de 2022 nos encontre com orgulho no que tivermos conseguido.

One thought to “Os próximos treze anos”

  • Luís

    “Daqui a treze anos, a nossa democracia fará 48 anos e ultrapassará em duração a ditadura. O país terá finalmente vivido mais tempo em liberdade do que em opressão”

    Sim, sim. Se não contarmos com os 900 anos anteriores. Foram todos de opressão? Ó Rui! que visão maniqueísta…

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