Que o novo contrato ia falhar ficou claro quando os estudantes começaram a ser empurrados para os empréstimos bancários. Foi o próprio estado, via Caixa Geral de Depósitos, o pioneiro na introdução das gerações mais jovens ao endividamento (lembrem-se disto quando vos disserem que o povo foi imprevidente no recurso ao crédito).

Atenção: segue-se a temível frase “no meu tempo”.

No meu tempo de Universidade, havia um contrato mais ou menos claro entre os estudantes, as famílias e o estado. Esse contrato partia do pressuposto de que o ensino era “gratuito”, ou seja, que não eram os alunos que pagavam directamente os salários aos professores, mas os seus pais através dos impostos. O corolário era simples: se estudares, entrarás no ensino superior, de preferência público, de preferência perto de onde moras. O estado pagará aos professores com os impostos dos teus pais, e os teus pais pagarão directamente as outras despesas com livros, alimentação e alojamento. Não era um contrato perfeito, mas era simples — e foi o que permitiu o acesso ao conhecimento por parte de uma geração de gente sem dinheiro na família.

Nos anos 90 apareceu uma nova proposta de contrato. A ideia era a inversa: o ensino superior não deveria ser inteiramente gratuito. Os estudantes deveriam pagar propinas elevadas para aumentar a qualidade do ensino. Os estudantes mais ricos deveriam pagar propinas elevadas para financiar os estudos dos estudantes mais pobres. Em última análise, os estudantes deveriam pagar mais para aprenderem a valorizar o ensino. Foi com perplexidade que vimos muita gente de centro-esquerda — de António Barreto a Prado Coelho, de Vital Moreira a Miguel Sousa Tavares — defender estas ideias. Estávamos sós.

Para nós, o novo contrato não era claro nem honesto. Como vemos, não era formulado sempre nos mesmos termos. Havia razões para suspeitar de algo que não os diziam: no fundo, os estudantes iriam financiar os salários dos professores e as despesas de funcionamento correntes — nem aumento de qualidade, nem bolsas dos alunos mais pobres, e a valorização era uma anedota exemplar, quando o próprio estado parecia querer desresponsabilizar-se da Universidade.

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Que o novo contrato ia falhar ficou claro quando os estudantes começaram a ser empurrados para os empréstimos bancários. Foi o próprio estado, via Caixa Geral de Depósitos, o pioneiro na introdução das gerações mais jovens ao endividamento (lembrem-se disto quando vos disserem que o povo foi imprevidente no recurso ao crédito). A ideia de que “se funciona na empresa deve ser bom” tornou-se dominante na Universidade.

Durante o curso, as universidades esfomeadas de recursos são impiedosas na cobrança. Depois do curso, há que pagar o empréstimo, quer se tenha trabalho ou apenas “recibos verdes”. E como o curso não basta, o grande garrote é agora o do mestrado, onde se pode ter de pagar entre até 5000 euros por ano. Aqui, o contrato já se rompeu e o acesso ao conhecimento voltou a ser socialmente condicionado: quem tem pais com dinheiro pode, quem não tem endivida-se (mais) ou espera.

Entretanto, o estado faltou com a sua parte da promessa. O aumento da qualidade é discutível quando deveria ser claro. O apoio social é melhor nem qualificar: perante uma recessão, com o desemprego a subir, aumentou 0,1%.

O resultado, explica-o o DN num artigo: “Crise provoca aumento de desistências no Superior” — no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa as desistências poderão chegar aos 50%. Nós precisaríamos destes futuros engenheiros para podermos dar a volta por cima, mas ei-los que vão trabalhar para o call center. Quando tudo isto der para o torto, ficaremos muito surpreendidos: como foi possível?

[do Público]