[A ver se aproveito a ocasião para blogar aqui mais do que apenas as crónicas do Público]

Recebi hoje várias respostas à crónica sobre Manuela Ferreira Leite, que estará aqui publicada mais tarde. Um dos comentários a este post meu é até bastante magoado — o que não julguem que me agrada. Simplesmente, pergunto-me se deveremos submeter a presidente do PSD a uma fasquia menos exigente do que aquela que usamos para outros líderes partidários. Não estou a ver que se perdoasse a Sócrates, Portas, Jerónimo ou Louçã o tipo de gaffes e atrapalhações que têm ocorrido a Manuela Ferreira Leite. E espero que os seus apoiantes não comecem a usar a tática “da incubadora” que tão maus resultados tem dado com todas as lideranças do partido.

Interessante é a forma como o 31 da Armada, logo repescado por diversos blogues de direita, encontrou para reenquandrar o meu comentário ao atual PSD:

Rui Tavares afirma que Manuela Ferreira Leite acabou com “o partido do risco, da internacionalização e da concorrência”. Notável. A exaltação dos méritos passados dos adversários com intenção de aumentar o contraste com as misérias actuais não é uma inovação retórica desta dupla de euro-candidatos. Mas apetece perguntar por onde é que andavam estes retro-adeptos quando o PSD era o partido fantástico que descrevem.

Vamos lá ver: acho que qualquer observador honesto terá de reconhecer que em tempos o PSD foi isso mesmo, o partido que defendia o risco e a competição. Tal como terá de reconhecer que houve — e em certa medida ainda há — uma esquerda isolacionista e terceiro-mundista. E daí? Isso significa apenas que o PSD desse tempo, auto-confiante e encorajador, era um adversário temível. Sei do que falo: andámos os anos 80 e metade dos 90 a perder eleições para eles. Isso não quer dizer que um tipo de esquerda tivesse de ser PSD, mas antes que tinha de se esforçar para superar o isolacionismo que ainda havia à esquerda, defendendo que Portugal não tinha nada a temer por se aproximar do resto da Europa ocidental.

Por outro lado, não me deixa feliz ver Manuela Ferreira Leite usar o tipo de argumentos a que eu chamo “a vingança da União Nacional sobre a Ala Liberal”. Claro que isso faz do PSD um adversário mais débil. Mas eu preferiria ver o PSD não regredir para uma posição em que já temos medo de um comboio para Madrid. É mau para todos, e principalmente para os simpatizantes do PSD, que no fundo conhecem bem aquilo de que eu estou a falar.

ADITAMENTO [em resposta a um leitor]: Respondi ao seu comentário e a outras críticas à minha crónica de hoje no meu blogue. Reenvio-lhe essa resposta através deste mail. Queira crer que a atitude de um cronista que escreve uma crónica como a de hoje é ambivalente. Se existe algum prazer inegável na prosa satírica, também me compadece escrever sobre alguém contra quem não tenho qualquer ânimo negativo. A pergunta que me faço sempre é: se fosse outro líder partidário a dizer isto seria poupado? Os líderes de esquerda são poupados quando dizem disparates? A minha crítica é justa? A resposta a estas perguntas é que, evidentemente, acho que a minha crítica é justa, embora implacável — ou não a teria publicado.

Não nos esqueçamos que os líderes políticos o são por sua própria escolha e ambicionam governar o país. O cronista, quando começa a sentir pena deles, deve perguntar se esse sentimento não o impede de cumprir a obrigação de estimular e alertar o debate público. É minha opinião que se começamos a poupar muito os políticos ficamos mal servidos: por exemplo, por alguém que pode chegar a primeiro-ministro sendo receoso ao ponto de ter medo do TGV (o que é bem diferente dos outros argumentos sobre a oportunidade e os custos da obra, como tive ocasião de notar).

2 thoughts to “Nem todo o pretérito é imperfeito

  • anónimo

    parece impossível como um tipo com a pretensão deste RT se dá ao trabalho de comentar a F Leite e responder aos mongos do 31…

  • Paulo

    Bem, isto é tudo uma questão partidária, parece que cada um puxa a “brasa à sua sardinha” com pouca preocupação relativamente à imparcialidade.
    Para criticar, falar e opinar, não chega defender pelos interesses de cada um, estão a escrever para o público em geral, estão a criticar um governo ou um partido em particular, logo temos que ser neutros e convictos.
    Eu sou novo e gosto de política, mas sinceramente, para quem não viveu a política de “antigamente” começa a ser muito complicado acompanhar as intenções politicas de hoje em dia.
    O que é de esquerda tem um comportamento que eu identificava como de direita, e o que é de direita anda pouco criativo e com poucas soluções.
    A solução é sempre a critica. Primeiro a oposição critica, isso é que é importante, depois logo pensa em soluções (que nem sempre trazem algo de novo).
    Eu fui “ensinado” que primeiro pensamos em soluções, depois é que criticamos. E só criticamos quando temos soluções, se não mais vale estar calado.
    Eu sinceramente gostaria de entrar no mundo político, mas considero um meio onde a “entrada” é cada vez mais complicada e cada vez há menos coerência partidária.
    Caro Rui Tavares; felizmente nem sempre concordo consigo (o que para mim é bom sinal) mas reconheço o seu empenho e dedicação. Peço desculpa pelo “desabafo”.
    Um abraço e continuação de bom trabalho.

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