Uma história de gosto duvidoso

Paulo Portas é como o gajo que está em sério risco de ficar sozinho mas anuncia com bravata que só lhe faltam duas pessoas para uma ménage à trois. Contam os jornais que Paulo Portas, dono e senhor de um partido com cerca de onze por cento, se ofereceu para formar governo com os dois partidos “grandes” do sistema. Permitam-me uma glosa. Há anos vi um tipo atravessar a rua. Era numa cidade estrangeira, eu estava sentado numa esplanada de esquina, e aquele tipo chamou-me a atenção porque trazia uma daquelas t-shirts com uma frase escrita e eu — leitor compulsivo que sou — nunca consigo deixar de prestar atenção, apesar da minha miopia me obrigar a semicerrar os olhos muitos metros antes de conseguir ler o que lá vem escrito. Enquanto isso fui observando o tipo.

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Deve ser do calor

A última edição do Expresso revelou que José Sócrates tentou formar um governo de coligação com o CDS/PP, chegando mesmo a oferecer a Paulo Portas o lugar de Ministro dos Negócios Estrangeiros. A ter acontecido, isto foi ao mesmo tempo que Sócrates recuperava o seu arsenal retórico contra o conservadorismo, e depois contra o neoliberalismo. Pouco depois começou a governar numa coligação tácita com o PSD de Pedro Passos Coelho, isto sem deixar — em simultâneo — de o atacar, e o outro a ele. Desde então José Sócrates e Pedro Passos Coelho têm desempenhado uma espécie de versão política de uma roda de capoeira: um finge que ataca, o outro finge que se esquiva. Os seus partidos juntam-se num círculo em torno deles e batem palmas disciplinadamente. Sócrates pode declarar-se progressista e querer governar com Paulo Portas, antineoliberal e negociar com Passos Coelho, keynesiano e não dar nenhuma abébia à esquerda. Já nada disto quer dizer nada. A missão de José Sócrates é chegar ao dia de amanhã vivo e primeiro-ministro. O convite de hoje destina-se a resolver a contradição de ontem; o beco-sem-saída de amanhã ver-se-á depois como fazer. É angustiante e fascinante e até um tanto aterrador. É como a pessoa que paga as dívidas do cartão de crédito anterior com o novo cartão de crédito e começar a pensar pagar essas dívidas com o cartão seguinte. Uma parte considerável de vocês, segundo as estatísticas, saberá do que estou a falar. Deve ser do calor; mas

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O homem contra o polvo

Sem quase ter visto o futebol, acabei por ver o Mundial um pouco à maneira deles. Desse ponto de vista, foi um bom Mundial. Vi este Mundial entre aeroportos e hotéis, jogos entrecortados e resultados sabidos por SMS. Na verdade, não vi este Mundial. Mas vi uma coisa que nunca tinha visto: o mundo a ver o Mundial. Por vezes, nem vi: ouvi. Numa tarde abafada em Bruxelas, ouvi gritos e aplausos sucessivos que vinham de uma praça ao lado do Parlamento, certamente a abarrotar de gente. “Deve estar a ser um jogo emocionante”, pensei. Era o Eslováquia-Itália. Confirmei pela Internet que esse jogo pareceu perdido para Itália, recuperado, renascido, perdido de novo. O Portugal-Coreia de Norte vi-o até aos 4-0, num intervalo para almoço. Alguém interrompeu uma reunião com o partido de oposição de Singapura para me dizer que o resultado tinha chegado aos sete. No dia seguinte, um trotskista dinamarquês cruzou-se comigo no corredor e disse-me: “Estou chocado convosco! Como puderam fazer isto aos camaradas norte-coreanos?” (para registo: era ironia; os trotskistas não gostam do regime de Kim Jong-il). Vi o Portugal-Brasil num carro do aeroporto (metade) e num hotel em Atenas (a segunda metade). Vi o Portugal-Espanha (só a segunda parte) num quarto de hotel em Washington, só, enquanto escrevia uma crónica sobre outro assunto. Ver o Mundial a ser visto nos EUA foi talvez o mais interessante.

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A fatia dourada

Quanto menor é o país maiores podem ser as ilusões. Um combate entre Portugal e Espanha por causa do Brasil — vá lá, entre uma empresa espanhola e uma empresa portuguesa por causa de uma empresa brasileira — anda à volta de uma expressão inglesa: a golden share, ação de uma empresa que vale mais do que o seu capital, porque detém o poder da guilhotina, do sim ou do não. Traduzida à letra, a golden share poderia ser a fatia dourada — se não me engano, o nome de uma iguaria. A utilização da golden share não tem muito que saber. Os defensores da infalibilidade do mercado costumam muito falar de “transparência”, mesmo em situações em que a complexidade artificial de um produto se destina a iludir, enganar, ocultar. Já a golden share do estado na PT é extraordinariamente simples: toda a gente sabia que existia e que detinha um poder de veto. Toda a gente que comprou ações da PT estava implicitamente informada da possibilidade de ela ser usada. Foi isso que aconteceu e — independentemente de outras considerações — ninguém se pode queixar de não ter contado com este cenário. Assunto encerrado.

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Uma derrota anunciada

Um bom zombie nunca morre à primeira. Em 2001, após o 11 de Setembro, a Administração Bush começou a pilhar em segredo os dados das transferências bancárias europeias. Fizeram-no através dos servidores do consórcio bancário SWIFT, que estavam em solo americano. E fizeram-no sem a mínima intenção de avisar os seus maiores amigos e aliados do que estava a acontecer. E teriam continuado a fazê-lo se não tivessem sido descobertos pela imprensa em 2006. Depois do escândalo, a SWIFT – Society for Worldwide Interbank Financial Transfers – acabou por mudar todos os seus servidores para solo europeu. Só que aí os EUA negociaram com o Conselho da União Europeia um acordo segundo o qual nós continuaríamos a ser pilhados, mas com o consentimento dos nossos governos e da Comissão Europeia. Que o deram, evidentemente, e às escondidas, 24 horas antes de entrar em vigor o Tratado de Lisboa. Só que aí matámos o zombie pela primeira vez.

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Atualizado: regulamento das bolsas já disponível

Caros amigos e leitores: O regulamento para as bolsas já está disponível e dá uma ideia bastante concreta de como se candidatar. Podem descarregá-lo aqui (ou em formato pdf aqui). O formulário é um pouco mais complicado tecnicamente (em particular porque prevê a possibilidade de se enviar todos os documentos digitalizados através de upload) e estará disponível no início da próxima semana. Mas entretanto, os interessados já podem ir verificando os requisitos necessários que se encontram listados aqui. Toda a informação sobre as bolsas irá sempre sendo atualizada em http://ruitavares.net/bolsas. Estas primeiras 48 horas foram um pouco atribuladas por uma boa razão. Eu estava numa delegação parlamentar a Washington — sobre um caso, PNR ou Passenger Name’s Records, de que ainda haverei de falar aqui — e remotamente as coisas ficam um pouco mais difíceis de acertar. Não teria sido possível fazer nada disto sem as ajudas da Cláudia Oliveira, João Macdonald, Gei Fernandes, Tiago Ivo Cruz e José Nuno Pereira — algumas das pessoas que trabalham comigo e com a delegação europeia do BE, em Bruxelas e Lisboa. São eles, aliás, que passam a ajudar na gestão deste blogue (em particular na aprovação dos comentários) uma vez que eu já há algum tempo que não consigo fazê-lo sozinho. A Vera Tavares tem dado desde o início uma ajuda preciosa na arte gráfica deste sítio. Um bom fim de semana a todos e, para quem não for candidatar-se, por favor ajudem a passar a palavra para ver se conseguimos projetos em qualidade, quantidade e variedade suficiente.

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Formulário e regulamento para as bolsas

Caros leitores, lamentamos, mas por questões técnicas não conseguimos inserir o formulário e o regulamento de candidatura às bolsas como prometido. Estes estarão disponíveis amanhã (02 de Julho) a seguir ao meio-dia. Pedimos desculpa pelo transtorno e agradecemos a compreensão de todos.

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A revolta da biblioteca

A Biblioteca Nacional vai encerrar-se durante quase um ano, deixando pendurados os investigadores — os quais, depois de ter deixado pendurado o cidadão comum seriam a sua exclusiva preocupação. Sabem o que deveria haver? Um campeonato do mundo para o país do mundo desenvolvido que trata pior a sua Biblioteca Nacional. Estou a ver Portugal ganhar isso de caras. A história da Biblioteca Nacional começa por aquilo que ela não é. Portugal deve ter das bibliotecas nacionais menos democráticas do mundo. Uma pessoa distraída poderia imaginar que a Biblioteca Nacional fosse um lugar aberto e disponível para qualquer cidadão. Não, não, não. Mariquices dessas são para a Biblioteca do Congresso dos EUA, onde qualquer um pode entrar, ou para o velho edifício da Biblioteca Britânica, onde os anónimos se podem sentar nas cadeiras de Darwin ou Marx e mexer nos livros à vontade. Por contraste, se o cidadão tentar inscrever-se como leitor da Biblioteca Nacional portuguesa, o primeiro obstáculo que terá de superar é um interrogatório bastante chato no qual tem de provar que precisa mesmo de consultar os fundos da Biblioteca Nacional. Onde noutros países basta querer, em Portugal é preciso ser autorizado. Isto passa-se porque a Biblioteca Nacional não tem capacidade para receber o público especializado e o público geral ao mesmo tempo. E houve um momento em que decidiu dedicar-se apenas aos investigadores (ou melhor, a uma relação abusiva e neurótica com os investigadores, mas já lá iremos) e em que, fiel à sua maneira de ser, não avisou a sociedade civil. Isso deixou o país na estúpida crença de que tem uma biblioteca pública — quando, de facto, não tem.

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regulamento e formulário

Tal como prometido amanhã a seguir ao meio-dia estarão disponíveis o regulamento e respectivo formulário de candidatura às bolsas. Esperem só mais um pouco.

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Crise!

A palavra crise perdeu metade do seu sentido. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado. Atenas. — A palavra é grega; a sensação também. Para os gregos antigos, crise era um termo médico. Significado: crise era o momento na evolução de uma doença em que o doente poderia ficar muito pior, ou muito melhor. Para os médicos modernos da crise, que são os tecnocratas em Bruxelas, os governos de Sócrates a Papandreou, e os comentadores um pouco por todo o lado, a palavra crise perdeu metade do seu sentido. Agora quer apenas dizer o momento em que as coisas estão mal e vão ficar consistentemente pior. Crise deixou de ser um momento; passou a ser um estado. Visto de Portugal e da minha geração,

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