Do fanatismo

Anders Behring Breivik tencionava ser o contrário de Bin Laden. Na verdade, o mesmo fanatismo, organizado de maneira diferente. Quando Bin Laden foi morto há uns meses atrás, muitos notaram que ele vivia praticamente como convidado do exército paquistanês. Alguns escreveram-no. Mas ninguém, ou quase, registou o significado por detrás desse facto, a saber: que a imagem do terrorismo com que tínhamos vivido durante uma década não batia certo com a realidade. Essa imagem era a de que a Al Qaeda inaugurava um tipo de terrorismo novo, até então apenas visto nos filmes: o de uma organização não-estatal espalhada pelo mundo que usava o terror para atingir objetivos geopolíticos — o estalar de uma “guerra de civilizações” ao instaurar de um “novo califado”. Acreditámos nisso e, crucialmente, os seguidores da Al Qaeda acreditaram também.

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Trabalho para Férias

Solidariedade europeia sem visão europeia é caridade, e isso já se viu que não funciona. Trabalho para férias Como resolver a crise do euro em poucas semanas: Já nos próximos dias, os ministros reunidos no Conselho reconheceriam que entrámos num novo patamar da crise com as subidas dos juros em Itália e na Espanha. Esses juros aproximam-se do limiar (acima dos cinco por cento, dependendo dos prazos de dívidas) em que entram em espiral. A partir daí, a acreditar nos casos gregos, irlandês e português, os juros fogem correndo; só há subida, descida nem pensar. Mesmo que os casos italiano e espanhol sejam diferentes, ninguém vai esperar para saber. Ambos os países são demasiado grandes para deixar cair, e impossíveis de salvar com os atuais mecanismos. Isto quer dizer que o tempo dos remendos acabou. Vamos supor que a direita tem razão, e que a dívida é o nosso grande problema de longo prazo. Ainda assim, o nosso problema de curto prazo não é a dívida — são os juros da dívida. É a curto prazo que estamos todos mortos.

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As más notícias

Ninguém nega que um primeiro-ministro pode querer verificar o passado de um possível governante, em particular os seus conflitos de interesse. Mas tem de o fazer legalmente. Sabemos que isto está mesmo mal quando o Presidente dos Estados Unidos da América diz que “a boa notícia” é que “não somos a Grécia, nem somos Portugal”. Há estantes e estantes de livros sobre a decadência do Ocidente, uns péssimos, outros bastante bons. Pois bem. Podem desconsiderá-los a toda e poupar espaço na biblioteca com apenas esta frase do chefe da única super-potência global. Menos mal, pensa Obama, que não somos Portugal. Agora as más notícias.

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A Grande Transformação

A crise está a minar a democracia na Europa. O desafio é criar uma democracia europeia que vença a crise. Daqui a meses poderemos sofrer pressões para sair do euro. Nessa altura já a turbulência terá dominado a Espanha e a Itália. (E a Bélgica? Que acontecerá a um estado com uma dívida pública equivalente a cem por cento do PIB, que não tem governo há mais de um ano e cujos partidos namoram com o fim do país?) Abandonar o euro pode ser menos intolerável do que permanecer nele. Mas os tratados não permitem abandoná-lo sem abandonar a União. E uma União Europeia que tenha falhado no euro será uma sombra dos sonhos passados. Que sucederá então?

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O milagre do lixo

Sim, o problema está na incapacidade europeia em resolver uma crise europeia. Mas essa incapacidade não se dá pela falta de boas soluções técnicas. Será que se pode levar um murro no estômago e ver a luz? Pelos Atos dos Apóstolos sabemos que São Paulo, quando ainda se chamava Saulo e perseguia cristãos, foi cegado por uma luz fortíssima que o fez cair do cavalo quando viajava na estrada para Damasco. Depois deste momento, mudou de nome e tornou-se no mais importante apóstolo da fé cristã que antes perseguia. Tudo pode acontecer. Sobretudo em Portugal. O que testemunhámos na última semana com o nosso Presidente da República foi um episódio de conversão digno de São Paulo na estrada de Damasco. Cavaco Silva dizia há poucos meses ainda que Portugal tinha de dar a outra face — “não vale a pena recriminar as agências de rating” foram as palavras usadas — agora, quando o governo é do seu partido e a Moody’s nos classifica como lixo, diz que elas “são uma ameaça”. Antes explicou-nos que “não podemos insultar os mercados, que são quem nos empresta o dinheiro”; agora anseia por expulsar os vendilhões do templo. Mas há aqui diferenças fundamentais.

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O puxempurra

Um “evento de falência” da Grécia poderia lançar uma reação em cadeia de efeitos planetários. Depois dos últimos anos de crise, ninguém está interessado em descobrir quais são. O puxempurra é uma criatura bicéfala; cada metade tenta avançar na direção oposta da outra e o conjunto não sai do lugar. Pode viver assim anos a fio se estiver pastando num prado verdejante. Mas imaginem que os tempos mudaram e que o puxempurra dá por si numa poça de areia movediça: metade puxa, metade empurra, e o conjunto afunda-se. O puxempurra é uma invenção de histórias para crianças (dos livros ingleses de Dr. Dolittle onde o nome original do bicho é pushmi-pullyu; “puxempurra” é da minha responsabilidade) mas encontrei-o num livro sério sobre a União Europeia que deveria ser traduzido para português (The end of the West — The once and future Europe, por David Marquand). Nesse livro o puxempurra é usado para descrever o processo negocial em Bruxelas — a França puxa, a Alemanha empurra; a Espanha empurra dinheiro para os agricultores, o Reino Unido puxa pelo “cheque britânico”; a Comissão puxa pelo método comunitário, o Conselho empurram para o método intergovernamental. Em tempos o puxempurra foi muito gabado pelo resultado dos seus compromissos. Mas agora atolou na areia movediça e arrisca-se a levar-nos todos para o fundo.

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Agora em voz alta, por favor

Toda a gente fala deste corte como se já estivesse adotado, mas nenhum daqueles deputados é obrigado a votar este imposto extraordinário, sem ao menos impôr condições. Para começar claro, eu acho que se tivesse havido na campanha eleitoral um partido X que dissesse “este ano o Estado vai arrecadar todo o vosso subsídio de Natal para resolver os seus problemas de tesouraria e podermos voltar ao crescimento económico” — esse partido teria ganho as eleições. “Imaginem”, pensaria o eleitor, “resolver todos os problemas de uma só penada, sacrificando o subsídio de Natal, mas depois ficar mais tranquilo em relação à possibilidade de desemprego ou falência, se tal coisa fosse possível” — mas tal coisa não é possível. Sabemos todos que metade do subsídio de Natal (ou o equivalente a esse subsídio para quem o não ganha) se destina a reunir meros 800 milhões de euros para tapar um buraco. Reparem:

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Simulacros pintados

Cada passo na zona euro se mede agora em dias. No fim da Idade Média um teólogo chamado Jean Gerson, então famoso, e agora obscuro, insurgiu-se contra a decadência do poder dos bispos no seu tempo. Esses bispos, que ele via como descendentes diretos dos apóstolos, tinham deixado ultrapassar-se por duas realidades distintas, cada uma com a sua fonte de poder: o Papa, por um lado, e por outro lado os reis. Estes desenvolvimentos recentes (em termos teólogicos, ou seja, tinham demorado os mil anos anteriores para acontecer, que até Santo Agostinho estava tudo bem) eram para Jean Gerson deploráveis. Os bispos representavam para ele “a” Igreja, a comunidade entre o rebanho de Cristo e os seus pastores; eles tinham uma legitimidade no tempo, que lhes tinha sido dada por Cristo, e no espaço, por estarem próximos dos fiéis. E em apenas um milénio o Papa, que Gerson considerava apenas um bispo entre outros (Bispo de Roma) tinha-lhes retirado o poder espiritual, monopolizando-o para ele. E os reis em toda a Europa tinham tomado para si o poder político, tomando-o através da força das armas.

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O Mercedes-Deng

Daqui a umas décadas os chineses serão mil milhões, mais produtivos, e os alemães continuarão menos de um décimo dessa população. Há uns anos fazia-se esta sugestão em palestras e debates: “imaginem quando todos os chineses quiserem ter um carro”. As ruas das cidades chinesas eram nessa altura uma paisagem de bicicletas, milhões de bicicletas pedalando para lá e para cá. No dia em que essas bicicletas se transformassem em carros, o que aconteceria? A pergunta e a inquietação que ela trazia eram de longo prazo. A resposta foi de curto prazo. O que acontece, afinal, quando os chineses começam a comprar carros? Cresce a economia alemã; e os alemães começam a preocupar-se menos com a Europa. Parece-lhes evidente que a Alemanha se conseguirá aguentar sozinha no mundo globalizado. Suspeitando que poucos ou nenhuns outros países europeus possam dizer o mesmo, os dirigentes alemães convencem-se de que os restantes europeus precisam mais da Alemanha do que vice-versa. E quanto à mão-cheia de países que se encontram em situação mais desesperada, a resposta da Alemanha — enquanto vai vendendo carros à China — é que se há-de pensar numa solução para nós, os desesperados, mas só se for nos termos deles, os ganhadores. Se essa solução nos desesperar mais ainda, azar.

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