A demoglobalização

A mesma Europa que manda cortar nos salários e pensões prepara-se agora para implorar aos bancos que aceitem o nosso dinheiro, ilimitado e sem condições. Lembram-se daquele slogan dos anos 90, “as pessoas primeiro”? Em 2011, encontrou um novo sentido: as pessoas lixam-se primeiro. Escrevendo ontem neste jornal, o economista Paulo Trigo Pereira perguntava “onde estão as gorduras” do estado que este governo apregoava ir cortar, e dá um início de resposta: “afinal, «gorduras» eram só salários e pensões”. Outro economista, João Rodrigues, confirma que “com este Orçamento, todos saberão o que são as «gorduras» do Estado: salários, pensões e bens sociais, da saúde à educação, amputados; a vida de tantas famílias injustamente fragilizada”. A amargura é justificada: na hora de cortar, os governos escolhem as pessoas primeiro.

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Processo de Ruína em Curso

Como todas as revoluções, este PREC tem os seus crentes, os seus clientes e os seus dementes. Quando os planos começam a falhar é muito difícil, e quase inútil, conseguir distinguir uns dos outros. Nos anos 70, — em comparação, a única outra grande crise entre a Grande Depressão e a crise atual —, o choque petrolífero apanhou Portugal em pleno processo revolucionário. Saído de uma ditadura, acabando uma guerra colonial, discutindo a sua inserção geopolítica entre dois super-poderes, a Europa ou o Terceiro Mundo, o país atingiu o ponto de ebulição durante seis meses em 1975 — que foi também o ponto alto da crise internacional. Desde então há uma direita portuguesa que culpa aquela meia-dúzia de meses transcorridos há mais de 30 anos pela maioria dos problemas atuais de Portugal. A propósito disso pensei há tempos escrever uma crónica com o título: “Última Hora! O PREC já acabou”. Só que, entretanto, começou um novo PREC.

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Sem onde nem como

Onde há poder, não há em geral legitimação democrática. Onde há legitimação democrática, há em geral pouco poder, ou um poder amputado. Quando os árabes se indignaram, bastou-lhes sair à rua. Uma ditadura está em todo o lado e, em consequência, qualquer ajuntamento em qualquer lugar põe em causa a ditadura. Não é preciso procurar o centro de um poder omnipresente. Quando os americanos se indignaram, não foram para a frente da Casa Branca. De que serviria manifestarem-se em frente a um Barack Obama sem poder? Também não foram para o Capitólio, manifestar-se perante deputados e senadores, — no fundo, o verdadeiro poder não estava ali. Para os americanos, o verdadeiro poder tem um lugar: Wall Street, sede do capitalismo financeiro americano. Ali estavam as empresas que desencadearam a crise e puseram obstáculos à restauração de uma economia sã. E ali estavam, ainda por cima, os autênticos donos de muitos deputados e senadores. Porquê esperar então? A contestação dirige-se para onde o poder está. A pergunta que eu tenho para vocês é: para onde devem ir os europeus?

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Pensando na 46

Em resultado, Alberto João Jardim suscita também uma espécie de loucura, mas com pouco método. 1. Alberto João Jardim ganhou ontem a sua 45ª eleição consecutiva na Região Autónoma da Madeira. Como dizer qualquer coisa que não tenha sido repetida já 45 mil vezes? Podemos começar, julgo eu, por um eleitor imaginário, que existirá certamente, e que tenha votado contra Alberto João Jardim estas 45 vezes. Essa pessoa foi sempre derrotada; se teve oportunidade disso, quis explicar ao resto do país como era o poder de Jardim na sua terra; viu as instituições da República omitirem o seu dever e permitir aquele estado de exceção.

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Livros para Timor-Leste — um teste

Conforme prometido há dois meses, eis uma lista de vinte escolas de aldeia (de “suco”) no Distrito de Baucau que precisam de duas coisas simples: um dicionário (de preferência ilustrado) e uma gramática de língua portuguesa. Aquelas que têm um asterisco ao lado do nome já estão atribuídas, as outras estão livres. Por favor enviem um mail para livrosparatimor — arroba — gmail.com se quiserem ficar com uma escola à vossa responsabilidade. Como habitual em Timor, esta experiência vai ter uma parte de aventura (não há carteiro para levar estes livros às montanhas e às zonas rurais, onde vivem a maior parte dos timorenses, e onde chegam menos livros) e vamos tentar testar as melhores soluções de entrega até servir estas vinte escolas. Também em Portugal vai ser preciso explicar nos correios que vamos usar uma tarifa especial, quase desconhecida, e muito incompreendida, para enviar livros para Timor-Leste. As instruções chegarão pela volta do correio. Se tudo correr bem, voltamos a tentar com mais vinte escolas. E depois mais vinte. 1.    EPP 07 Buibau* 2.    EPP 09 Belavista* 3.    EPP 02 Teulale* 4.    EPP 03 Gariuai* 5.    EPc Samalari* 6.    EPC Sao Domingos Savio* 7.    EPC Uailili 8.    EPP Daytula 9.    EPC  Uatowa’a 10. EPP 11 Vila Nova Baucau 11. EPP Dare-Gata 12. EPP Ague 13. EPP 04 Buruma 14. EPP 08 Caibada Makasae 15. EPP Uaimanuboe 16. EPP Leqeracabuu 17. EPP Macalaku 18. EPP Yatua 19. EPP Kaisidu 20. EPC Baoli  

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Empurrar uma corda pela ponta

Ao injetar dinheiro nos bancos que estes não passaram para a economia real, os estados estavam a tentar empurrar uma corda comprida para dentro de um buraco. Um trabalho tão fútil quanto esgotante. 1. Uma pessoa normal, em geral, fica insolvente quando não tem dinheiro para pagar as suas dívidas e demais obrigações. Um banco fica insolvente quando não tem pessoas a quem emprestar o seu dinheiro. As duas coisas podem ocorrer em ciclo: as pessoas insolventes não pagam as suas dívidas aos bancos; e os bancos deixam de ter clientes dignos de crédito, entrando em insolvência. Se o negócio do banco está em encontrar gente a quem possa emprestar dinheiro isso significa que as pessoas são o ativo do banco. Pessoas insolventes tornam insolventes os bancos. No início desta crise, os estados tentaram resolver a crise

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Uma jeremíada

As pessoas reais não precisam que gostem delas; querem é ser respeitadas. Em Portugal, os políticos que gostam mais de dinheiro do que de poder tornam-se administradores. O tempo em que eram ministros ou deputados foi uma espécie de recruta a que não desejam regressar. É nas empresas, públicas, privadas, ou híbridas, que estão os salários de dezenas de milhares de euros por mês, os bónus de milhões, os pagamentos chorudos para assistir a umas raras reuniões — abrigados da crítica pública e auferindo dos salários de gestores mais altos da União Europeia, em termos absolutos. Os políticos que gostam mais de poder do que de dinheiro ficam na corridinha de obstáculos a que às vezes se chama — só o nome assusta — a carreira partidária. Esta depende da submissão ao chefe e, tanto quanto possível, de guardar as suas ideias para si. A regra é: comenta tudo, não te comprometas em nada. Diz o mínimo, nunca escrevas, e andarás pelo seguro. Chegado ao topo dessa carreira o político que gosta de poder exercerá o poder nos limites partidários, o que se resume a isto: manter um nicho de mercado. Pode ser no mercado da governação ou n, o mercado da contestação, desde que fale para o seu nicho, que lhe devolverá o eco da sua voz. E depois há os políticos que sonsamente dizem que “gostam de pessoas”.

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Três histórias para a Europa

 Como qualquer historiador, tenho limites para a imaginação. Como qualquer cidadão, tenho preferências para o futuro. Dizem que o tema dos historiadores é o passado. Errado. O tema dos historiadores é a mudança (“l’histoire, science du changement dans le temps”, escreveu Marc Bloch). Essa mudança estende-se nos dois sentidos da linha do tempo, e toda ela interessa ao historiador. O grande problema do futuro, do ponto de vista do historiador, é apenas que não está documentado. A grande vantagem do futuro, do ponto de vista do cidadão comum, é que ainda não aconteceu. Teoricamente, isto significa que temos ainda espaço para que a agência humana — aquilo que nós fizermos entretanto — possa modificar o futuro. Daqui de onde estamos partem múltiplas linhas de história para o futuro, que ao historiador parecem semelhantes às múltiplas linhas que vêm do passado com as histórias que dele se podem contar. Cartas na mesa, então. Escrevo este texto com temperamento de historiador e com vontade de cidadão. Como qualquer historiador, tenho limites para a imaginação. Como qualquer cidadão, tenho preferências para o futuro.

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A cabeça a meia-haste

Constituição da República Portuguesa, artigo 7, número 3, onde se lê: “Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão.” O nosso primeiro-ministro e ministro dos negócios estrangeiros parecem, porém, ter uma opinião diametralmente oposta.  A torrente constante de notícias sobre a crise poderia ter o efeito de nos despertar. Em vez disso, atordoa-nos. Entre o medo do que aí vem e a pena de si mesmo, Portugal só tem dois temas: os seus problemas ou tema nenhum. Os nossos governantes dão o exemplo. Se o mundo nos interpela, respondem que Portugal não tem opinião mas — se tiver mesmo que ter uma opinião — terá a opinião que tiver a Alemanha na Europa. Ou os EUA no mundo. De repente vem um povo bem mais lixado pela História do que nós e pergunta-nos: sim ou não? Esse povo vive resumido a dois cantos do país que acreditam ser o seu e ainda assim colonizados, ocupados, ou refugiados pelo mundo. A pergunta que esse povo nos faz é:

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