Bolsas 2.0

A resposta à primeira pergunta é muito simples: a bolsa teve uma taxa de sucesso de cem por cento. Mas — e como fazer para conseguir apoiar mais projetos? No ano passado escrevi que a resposta poderia ser a criação de uma “plataforma inter-bolsas”. Essa é a experiência para levar a cabo no próximo ano. Há um ano e um mês, nesta coluna, expliquei que tínhamos conseguido, entre o meu contributo inicial e a crucial ajuda financeira de três amigos (Ricardo, Zé Diogo, Miguel) atribuir sete bolsas de estudo. Hoje gostaria de responder a duas perguntas que me fazem muitas vezes: como correu a coisa? que vai acontecer agora? Há uns meses recebi uma carta de Itália. Tinha um postal do Museu dos Uffizi e um recorte do jornal L’Unità, fundado por Antonio Gramsci e antigo órgão oficial do Partido Comunista Italiano. No artigo aparecia uma foto onde estava eu, com ar encavacado, três dos quatro gatos fedorentos, e a Diana Ferreira, remetente da carta e estagiária no Museu dos Uffizi com uma das bolsas que nós inventámos. A Diana cumpriu o estágio e está agora a escrever um livro sobre monumentos e estilos artísticos. A Isabel Duarte, bióloga,

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Um discurso de Hitler

Quando se dirige aos homens do Reichstag e lhes pergunta “o que é a Europa, meus deputados”? Aí, lança-se numa longa e rebarbativa passagem que é o Hitler que esperaríamos que ele fosse: um homem obcecado por questões de raça e de sangue, de que fala com tanta verve que é como se os seus fantasmas estivessem ali com ele. Há setenta anos e três dias — a 11 de dezembro de 1941 — Adolf Hitler fez um discurso perante o Reichstag para declarar guerra aos Estados Unidos da América. Um discurso impressionante a vários títulos, permanentemente mudando de estilo e de sentido quase como se fosse da autoria de alguém com divisão de personalidade. É sempre perturbante pensar ou escrever ou falar sobre Hitler, e perturbante também lê-lo, por aquilo que esperamos e por aquilo que não esperamos.

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A madrugada dos irresponsáveis

Os líderes da zona euro, com Merkel e Sarkozy à cabeça, e com a vergonhosa anuência de todos os outros, deram um golpe de morte à União Europeia.    Na noite de 8 para 9 de dezembro passado, em Bruxelas, os 27 chefes de governo da União não resolveram a crise do euro. De madrugada, tinham criado uma crise na União. O que aconteceu talvez ainda não tenha sido digerido completamente. Ou talvez haja demasiada gente a atribuir-se o papel de explicadores de poderosos, justificadores de impasses, douradores de pílulas. Mas, não tenhamos ilusões, este foi o pior momento da Europa no novo século. Os líderes da zona euro, com Merkel e Sarkozy à cabeça, e com a vergonhosa anuência de todos os outros, deram um golpe de morte à União Europeia. O novo tratado em que se lançaram vai ter de ser construído, por razões legais, fora da União. A construção que resultar daqui será puramente intergovernamental, porventura com a Comissão Europeia convocada para fazer de polícia. Esta será uma confederação feita à força mas que nunca terá força para lidar com as debilidades de uma moeda federal.

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A modesta e ambiciosa proposta

Se a União Europeia tivesse a decência de ter objetivos económicos como o crescimento e o emprego, a “Modesta Proposta” tem ainda outra proposta: a de se poder combinar os títulos do BCE com os do BEI para realizar investimentos nos quais hoje os estados deveriam entrar com 50% de dinheiro vivo que simplesmente não têm.  E se houvesse uma solução para a crise do euro que não implicasse os alemães pagarem as dívidas dos outros países, nem qualquer outro tipo de mutualização da dívida, mas também não implicasse perdão da dívida; que não implicasse “monetizar” a dívida nem arriscar inflação; e que não implicasse a mudança dos tratados? E se essa solução nem sequer implicasse a emissão de eurobonds como são vulgarmente entendidos? Nem a transformação do Banco Central Europeu num “emprestador de último recurso”? Ou seja: e se houvesse uma solução que respeitasse todas as condições políticas que até agora têm impossibilitado uma solução? Resposta: essa solução seria rejeitada. Como sei? Por uma razão simples. Essa solução existe.

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Uma pequena tragédia

Em nenhum momento se parou para pensar no que são estes feriados, e o que eles significam. E nisto deu a aberração de estar para acabar o 1º de dezembro, que significa simplesmente a auto-determinação, mas não acabar o 8 de dezembro, que significa a Nossa Senhora da Conceição. Influenciado pelos meus professores da faculdade (não estudei diretamente, nem sozinho, a época em questão) faço quase sempre questão de precisar que entre 1580-1640 o nosso país viveu sob uma “união dinástica” e que, formalmente, não perdeu a sua independência. Seguindo esta raciocínio, o 1º de dezembro de 1640 não teria restaurado a independência nacional, o que não quer dizer que a restauração de uma dinastia nacional não tenha sido crucial para a nossa história até hoje; na verdade, todas as coroas que estão estavam unidas na Península Ibérica acabaram por ser incorporadas no Estado Espanhol, e sem o Dia da Restauração é bem possível que isso tivesse também acontecido a Portugal. Um país independente é, de todas as formas, uma coisa muito bonita — e só não o entende quem não pára um momento para pensar no que é não ter direito de auto-determinação por via do referendo ou ter tido a língua nacional proibida e perseguida, coisas que de uma forma ou outra ocorreram às nacionalidades históricas de Espanha em décadas recentes — e não é de estranhar que seja dado a algumas simplificações inevitáveis na comemoração do seu passado. Oficialmente, o 1º de Dezembro é o dia da Restauração da Independência.

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O infocídio

Um governo com um mínimo de sentido de responsabilidade, mesmo que sem dinheiro, estaria a pensar como preservar este laço, num momento em que (mais do que nunca) é importante que a voz portuguesa não se cale, e que os portugueses ouçam a voz europeia. Se há coisa que se tornou incontestável, é esta: a importância da Europa para o futuro próximo de Portugal. (Há anos, tinha amigos que me diziam “não escrevas tanto sobre a Europa, pá — ninguém quer saber”. Hoje toda a gente quer saber, e esses amigos escrevem sobre a Europa todas as semanas.) E no quadro dessa evolução incontestável, que faz o governo? Decide acabar com as emissões em língua portuguesa na Euronews. Ah, mas diz o leitor. Não há dinheiro. Não podemos certamente dar-nos a esse luxo. E eu pergunto-lhe: quanto custa ter emissões em português na Euronews? Um pouco menos de dois milhões de euros (os fogos de artifício na Madeira custam três milhões).

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A crise do euro é uma crise do euro

Claro que é do contágio! Porque o euro não é suficientemente robusto, e porque se recusaram a criar-lhe os anti-corpos adequados (como os eurobonds) contra as infeções oportunistas, e de oportunistas. No tutano, há só duas posições no debate sobre esta crise. O resto — os swaps e os eurobonds, o FEEF e a troika, o Merkozy e o Gaspar — é ilustração. A discussão era a mesma há quase dois anos, e é a mesma agora. Há quase dois anos, tínhamos de um lado os que diziam: esta é uma crise do euro (a chamada posição “sistémica”). Do outro lado, tínhamos os que respondiam: isto não é uma crise do euro, mas apenas um problema na Grécia (a “dívida soberana”). Aqueles que defendiam a segunda posição levaram um banho de realidade. Onde diziam que “isto” era só um problema da Grécia passaram a dizer: “o euro não está em crise; isto é só um problema de Grécia e da Irlanda”. Logo depois: “o euro não está em crise; isto é só um problema da Grécia, da Irlanda e de Portugal”. Depois: “o euro não está em crise; isto é só um problema da Grécia, da Irlanda, de Portugal e da Itália”. “Ah, e da Espanha, também”. Mas calma, gente!, que o euro, como nós sabemos, não está em crise: isto agora é só um problema da Grécia, da Irlanda, de Portugal, da Itália, da Espanha. E da Bélgica. Da França. Da Áustria. Até da Holanda. Da Finlândia também. E — oh diabo — da Alemanha.

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A verdadeira crise

Em cada três jovens, um está desempregado, outro está precário, e duvido que o terceiro esteja a fazer aquilo para que foi formado. Comparado com isto, os juros da dívida, a banca falida, e o euro a desmanchar-se podem ser a crise imediata. Mas não são a crise verdadeira. Por que está tudo a estourar ao mesmo tempo? Essa era a pergunta do início do ano. Tinha rebentado uma revolução na Tunísia antes do Natal, logo seguida por uma no Egito, no Bahrain, na Líbia, na Síria, e revoltas em Marrocos e na Jordânia, pelo menos. Qual era a explicação? No dia 5 de fevereiro um jornalista da BBC chamado Paul Mason tentou achar uma resposta e escreveu um texto com vinte razões, todas interessantes e discutíveis. A primeira é a crucial: “Na raiz de tudo isto está um novo tipo sociológico: o licenciado sem futuro”. Hmm. Vale a pena explorar esta ideia

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Saudando a greve geral – o apoio dos cientistas sociais

Um conjunto de cientistas sociais – o número já vai em 150, e é de destacar destacar a diversidade disciplinar, de instituições, de origem e de política, a par do reconhecimento de qualidade científica que geralmente granjearam (e, talvez não totalmente irrelevante, todos os vencedores do Prémio Sedas Nunes são signatários) – subscreveram o texto “Em defesa da dignidade, do trabalho e dos estado social, apoiamos a greve geral”, e eu também. Deixo-vos aqui em baixo o documento, bem como a lista dos nomes já incluídos.

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