Um governo com um mínimo de sentido de responsabilidade, mesmo que sem dinheiro, estaria a pensar como preservar este laço, num momento em que (mais do que nunca) é importante que a voz portuguesa não se cale, e que os portugueses ouçam a voz europeia.

Se há coisa que se tornou incontestável, é esta: a importância da Europa para o futuro próximo de Portugal.

(Há anos, tinha amigos que me diziam “não escrevas tanto sobre a Europa, pá — ninguém quer saber”. Hoje toda a gente quer saber, e esses amigos escrevem sobre a Europa todas as semanas.)

E no quadro dessa evolução incontestável, que faz o governo? Decide acabar com as emissões em língua portuguesa na Euronews.

Ah, mas diz o leitor. Não há dinheiro. Não podemos certamente dar-nos a esse luxo.

E eu pergunto-lhe: quanto custa ter emissões em português na Euronews? Um pouco menos de dois milhões de euros (os fogos de artifício na Madeira custam três milhões). Em troca desse dinheiro as emissões em língua portuguesa chegam a um universo potencial de cem milhões de casas. Tão importante quanto isso, um canal informativo internacional chega a casa dos portugueses, incluindo os que não falam uma língua estrangeira.

Só no Brasil, onde este canal (que é um consórcio público de televisões públicas) começou a ser emitido há um par de anos, as emissões em português europeu atingem cerca de cem mil assinantes. Um governo com um mínimo de visão estratégica, mesmo que sem dinheiro, estaria a pensar como procurar parceiros no Brasil (a TVcultura ou a TVfutura, por exemplo) para pensar como reforçar, e não diminuir, a componente em língua portuguesa da Euronews.

Mas um governo com um mínimo de sentido de responsabilidade, mesmo que sem dinheiro, estaria a pensar como preservar este laço, num momento em que (mais do que nunca) é importante que a voz portuguesa não se cale, e que os portugueses ouçam a voz europeia.

Tem por isso toda a razão Ribeiro e Castro, deputado do CDS, quando escreveu sobre este tema (no Público de segunda-feira) dizendo “não pode ser”. Espero que o seu artigo sirva para despertar algumas consciências na maioria.

Mas acho que podemos insistir um pouco mais e perguntarmo-nos “como pode ser”? Como pode ser isto? A Comissão Europeia paga neste momento as emissões da Euronews em árabe, porque certamente pensa que elas têm sentido estratégico para a União Europeia. A comissária Viviane Reding já disse várias vezes que a Comissão Europeia está disposta a apoiar financeiramente o leque de idiomas da Euronews.

Como pode ser então que o ministro Miguel Relvas não tenha perguntado à Comissão se não pode partilhar esta conta com o estado português? Um milhão para cada um, seria demais?

Como pode ser que Miguel Relvas, ou Passos Coelho, ou Paulo Portas não tenham dito à Comissão que a língua portuguesa, a caminho de ser falada por trezentos milhões de pessoas, deve também ser uma aposta estratégica da União?

Como pode ser que ninguém se tenha ao menos lembrado de apontar à Comissão o exemplo do Brasil, primeiro dos BRIC, e com ele convencê-los a ajudarem-nos a manter as emissões na língua desse país?

Talvez, no fundo, o governo não esteja interessado em diminuir a conta. Talvez as declarações de João Duque, quando disse que a informação pública deveria ser reduzida ao mínimo e a informação para o estrangeiro filtrada segundo as conveniências do governo, não tenham sido um acaso. Talvez, muito simplesmente, Miguel Relvas não tenha qualquer interesse em manter informação internacional que ele não controle. Nem que seja de graça.

4 thoughts to “O infocídio

  • Ana

    Exactamente!!
    E o que dizer de um MNE que despede, quase sem aviso, 49 professores contratados em Setembro para dar aulas de português a crianças e jovens luso-descendentes em França, na Suiça, etc, alegando em Novembro que é preciso fazer… economias? Que não haveria, em 2012, dinheiro para lhes pagar?… Que contas são estas? São as do desprezo pelas comunidades emigrantes, tão só. E, claro, a outra “conta” é a de acabar com o ensino português no estrangeiro com professores de carne e osso e substitui-los por um ensino eficaz e abrangente: o ensino…à distância!
    Neste momento, larguíssimas centenas de crianças ficarão sem aulas de português até ao final do ano lectivo. Elas não…contam!

  • Augusto Küttner de Magalhães

    A Europa como a “temos” hoje tem futuro’ A Europa sem pessoas à sua frente capazes tem Futuro????

    Será fazendo mais do mesmo, com mais dos mesmos??????

    talvez. But….Yes…Non. Oui…mais….oo verra??? mais, oui. Nein……

  • Augusto Küttner de Magalhães

    Mais diferentes, m,enos arrogancia, menos televisao…ou não!!!???

  • Maria Estácio

    Mt bem.
    É incrível todo este desgoverno, n só nacional(helas) como estúpido e de vista curta (diria mesmo sem ela),carente de um sentido (e sentimento)’cultural’ e político (pour cause) ‘mais profundos’.

    Como tb gostei de ‘Uma pequena tragédia’.
    Curiosamente,mesmo partilhando ‘da visão’ do texto e, agora q penso nisso, há 2 feriados q têm ‘uma ligação’ com ‘a espiritualidade’ dos povos,independentemente das crenças e das práticas, como património da humanidade. A saber:

    1- O 15 de Agosto (Assumpção de N. Senhora aos céus,com a mesma ‘dignidade divina’ (último dogma da igreja católica,em 1950 -fez o ano passado 60 anos,mas de nada ouvi falar):
    Pela 1ª vez é reconhecida a parte feminina de Deus (embora n tanto assumida historicamente,ao tempo e ainda hoje,helas,na maior parte das mentes e continentes). O que,nas sociedades ‘ocidentais'(-alizadas),com um nível de maior conforto,conhecimento e democraticidade,é contemporâneo do mesmo reconhecimento, valorização, partilha e assumpção (lenta,mas efectiva) desse ‘feminino'(a aferir),em nós e nas práticas sociais.
    É,na história do espírito,uma aquisição,amplitude e integração de sérias consequências (quem dera). Para todos.
    É um olhar,ser e movimento da humanidade inteira.
    Yung valorisou-o mt e foi por isso mt criticado pelos protestantes (ainda + patriarcais do q os católicos),de q fazia parte.

    2- O dia de todos os mortos:
    Embora n dada a essas práticas e sentimento (sou pária em mt coisa –o q n quer dizer q seja bom),temos de atentar à espiritualidade (feita de mt coisa:sentimentos,pessoas,acontecimentos,rituais e lugares significativos) mais ou menos arreigada -por ventura cheia de senso- de relação com antepassados e próximos,idos, num ‘culto’ q,afinal,é uma das marcas originais do nosso sapiens.
    É importante e,como os outros feriados,tb revisita e integra ‘a história’ pessoal e universal,de sentimento de pertença e de comunidade?

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