Para ser mais escandaloso, vai ser preciso pecar para continuar a viver. Só os mortos não pecam, — mas também não pagam dívidas. No substrato cultural desta crise está a absurda noção de que a dívida é pecado, à qual não é alheio o facto de as palavras “dívida” e “culpa” serem apenas uma na língua alemã — Schuld — e de os países endividados serem tratados como Schuldensündern, ou seja, pecadores da dívida. Esta é uma extraordinária inversão de há uns anos a esta parte. Nas décadas de 1980 e 1990 não só este fundo religioso estava completamente obliterado como a dívida era uma forma de participação na gloriosa aventura do mercado livre. Sem dívida não haveria capitalismo, dizia-se. Os estudantes foram convidados a endividar-se para terminarem os cursos, os adultos para investirem em si, os trabalhadores para sentirem menos o declínio dos seus salários, as famílias para comprar casas, os países para se tornarem mais competitivos, todos para fazerem parte da humanidade contemporânea onde vergonha era não ter cartão de crédito. No mundo pós-2008 redescobriu-se que a dívida é pecado e que os humanos devem sofrer por isso