Viver com o pecado

Para ser mais escandaloso, vai ser preciso pecar para continuar a viver. Só os mortos não pecam, — mas também não pagam dívidas. No substrato cultural desta crise está a absurda noção de que a dívida é pecado, à qual não é alheio o facto de as palavras “dívida” e “culpa” serem apenas uma na língua alemã — Schuld — e de os países endividados serem tratados como Schuldensündern, ou seja, pecadores da dívida. Esta é uma extraordinária inversão de há uns anos a esta parte. Nas décadas de 1980 e 1990 não só este fundo religioso estava completamente obliterado como a dívida era uma forma de participação na gloriosa aventura do mercado livre. Sem dívida não haveria capitalismo, dizia-se. Os estudantes foram convidados a endividar-se para terminarem os cursos, os adultos para investirem em si, os trabalhadores para sentirem menos o declínio dos seus salários, as famílias para comprar casas, os países para se tornarem mais competitivos, todos para fazerem parte da humanidade contemporânea onde vergonha era não ter cartão de crédito. No mundo pós-2008 redescobriu-se que a dívida é pecado e que os humanos devem sofrer por isso

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Um murro na mesa

A incompetência na gestão desta crise tem sido multiplicada pelo excesso de confiança no mito da competência alemã. Como é sabido, a crise do euro já deitou abaixo muito governos, e um dos efeitos secundários é que agora começa a haver ex-ministros dispostos a por a boca no trombone. Este domingo ouvi um ex-membro do governo irlandês contar em público, e nem mais nem menos do que na cidade de Berlim, como foi que soube do resgate do seu país. Tudo começou com um telefonema provindo da alta hierarquia da Bloomberg, serviço financeiro norte-americano: “olha, o teu governo vai pedir um resgate à Europa”, “acho que não vai, não”, “pois eu estou que certo que sim”, “ninguém no nosso governo acha isso”, “não foi o teu governo que me disse — foi o governo alemão”. A Irlanda, como se lembram, pediu o seu resgate, mais forçada que outra coisa. Outra história que seria bom ver esclarecida é a de como foi decidido o famoso “corte-de-cabelo” grego.

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A Lei do Relvas

E assim lá vão já dois jornalistas — Pedro Rosa Mendes e Maria José Oliveira — ejetados pela carga de ombro do ministro Miguel Relvas, que entretanto passa sem um arranhão.   Então é assim. A gente sabe que o mundo do futebol não é coisa muito frequentável. A gente sente que o dinheiro há muito tomou conta dos clubes e dos campeonatos. A gente desconfia de que em certos campeonatos a arbitragem pode ser comprada e os resultados combinados — e há casos documentados de tudo isso. A gente vê o campeonato da Europa e há aquela bola que entrou no Inglaterra-Ucrânia, mas que não foi golo, e aquele pénalti por marcar no Dinamarca-Alemanha. Sabemos isso tudo. Mas caramba. Apesar de tudo, durante aqueles noventa minutos, há espaço para alguma surpresa.

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A verdadeira doença

A doença europeia chama-se agora desemprego. E é agravada pela austeridade.  Nos anos de 2008 e 2009 os líderes europeus demonstravam bastante confiança na solidez do seu sistema financeiro e, de caminho, no futuro da moeda única também. Em público dedicavam-se a admoestações aos americanos pela forma como estes tinham gerido mal a sua banca. Em privado, gabavam-se de que uma tal desregulação da banca seria completamente impossível na Europa. A imprensa especializada era menos entusiasta: já na altura se sabia que os bancos europeus, em particular franceses e alemães, se tinham alambazado em ativos tóxicos de origem americana, e que agora teriam de regurgitar tudo aquilo. (No meio desse cenário preocupante, apenas um bom exemplo se destacava — o da banca espanhola, que tinha regras muito mais exigentes de financiamento, gestão e garantias do que era habitual na banca europeia. Vamos reservar este dado para a segunda metade da crónica.

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Nada de pânico

Quando a democracia fala, os políticos devem ouvir.  A União Europeia viveu ontem o último episódio da sua relação de fobia com a democracia. Já vem de trás, é verdade, desde o tempo em que os irlandeses ou dinamarqueses eram obrigados a repetir os seus referendos até eles darem o resultado “certo”. Há uns meses, Merkel e Sarkozy entraram em hiperventilação só porque o governo de George Papandreou na Grécia tentou marcar um referendo que, naquela altura, não dava jeito. Mais ou menos pela mesma altura, manobraram para substituir os governos da Itália e da Grécia — mas sem eleições por favor. Tinham demasiado medo. O que se viveu neste mês entre duas eleições gregas, porém, ultrapassou tudo. Editoriais, entrevistas, pressões, chantagens — a cada dia que passava, o febrão ia ficando mais alto. A hipótese de um partido anti-austeridade, o SyRizA, ganhar as eleições, infundiu verdadeiro pânico nas lideranças europeias. Christine Lagarde, primeiro, e Angela Merkel, depois, deixaram a mensagem clara de que um voto no SyRizA seria um voto pela calamidade económica. No dia das eleições, a Europa apertou o cinto de segurança como se o mundo fosse acabar. Sabem o que seria bom ter na Europa? Um político, homem ou mulher,

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Retroiluminação

Agora que, vinte anos depois, a crise do euro se aproxima de uma nova “batalha do franco”, veremos como a história acaba. Banqueiros centrais em pânico, o contágio a alastrar de país em país, orgulhosos governos vergados pelos especuladores — e toda a gente dependente da Alemanha. Em Paris encontram-se o presidente francês, François Mitterrand, e o primeiro-ministro britânico, John Major. É setembro de 1992. Ambos os homens se sentem humilhados. A libra esterlina tinha saído depenada de uma curta passagem pelo sistema monetário europeu. Bastaram alguns comentários do banqueiro central alemão para lançar o pânico nos mercados e fazer perder mais de três mil milhões de libras ao governo de Sua Majestade, numa simples quarta-feira. Do outro lado do Atlântico, um único especulador em Nova Iorque ganhou mais de mil milhões nesse dia (o nome: George Soros). A moeda francesa foi atacada logo a seguir, naquilo a que se chamou “a Batalha do Franco”. Mitterrand teve de sujeitar-se a pedir dinheiro emprestado aos alemães. Do outro lado dos Alpes

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E no fim ganham os bancos

Na verdade não há diferença, nem novidade nenhuma, desde o início desta crise. A lição é sempre a mesma. As pessoas têm de sofrer. Os bancos não. Quando a certa altura se percebeu que a sociedade não via razões para que as pessoas do mesmo sexo não pudessem casar, os adversários desta ideia jogaram uma última cartada: “deem-lhes os direitos todos, façam exatamente o mesmo que fariam com casais de sexos diferentes, só não lhe chamem é casamento”. “Só não lhe chamem casamento” tornou-se assim o foco de toda a atividade de um movimento que tinha perdido tudo o resto. Enquanto vejo o jogo de futebol entre a Espanha e a Itália (ou seja, o último e o próximo país da eurozona a precisarem de um resgate) penso que uma coisa semelhante está a acontecer ao ordoliberalismo que domina a Europa. A Espanha pediu ontem um resgate, e um resgate de cem mil milhões de euros lhe foi concedido, com uma grande condição: só não lhe chamem resgate

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Um problema democrático

Os atropelos à democracia por parte do governo regional, do PSD/Madeira e do seu presidente, Alberto João Jardim, são um mau sintoma e também uma causa profunda dos nossos problemas.  A democracia, mesmo para quem acredita nela, não resolve os problemas todos. O que a democracia faz é criar uma maneira que permite resolver problemas. Não é uma solução para tudo, mas uma forma de encontrar soluções em conjunto. Provavelmente eu deveria ter escrito “formas”, no plural. Como é evidente, a democracia funciona em diferentes escalas. Na verdade, cada uma das escalas reforça as outras. Se a democracia não funciona à escala europeia a consequência direta é, como tenho escrito aqui várias vezes, o autoritarismo inerente ao diretório — ou mesmo só à chanceler do país mais poderoso — vergar sob o seu peso as nossas democracias nacionais. Os resultados estão à vista: constituições espezinhadas, governos tecnocráticos, referendos indesejáveis anulados e outros referendos repetidos até darem o resultado pretendido, etc. Ora, o mesmo se passa da escala nacional para baixo. Se a democracia na nossa república funcionasse bem (nos seus vários poderes: executivo, judicial e legislativo) certamente que isso reforçaria, e não prejudicaria, a democracia nas nossas regiões autónomas ou nas nossas autarquias. Se a democracia funcionasse bem na escala local ou regional

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A náusea

A diferença entre o “estado profundo” turco e o “estado superficial” português está, pois, apenas em saber quanto alastrou a doença. É que, como nas árvores, ela pode atacar a democracia tanto pelas folhas como pelas raízes. Na Turquia a sociedade toda — a civil, a militar, e os curdos — vive obcecada com a existência de uma coisa a que chamam de “o estado profundo”. O “estado profundo” consiste nas fundas raízes que os serviços secretos, polícias e exército, mancomunados com elementos dos negócios e da política, sem esquecer, é claro, um sistema judicial moroso e manipulável, lançam até até aos alicerces de toda a vida nacional. Em Portugal talvez não haja “estado profundo”. Mas vamos sabendo que existe o “estado superficial”.

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Os desingénuos

A zona Euro, ou a União, que praticamente não têm dívidas, podem e devem fazer o papel que antes era dos estados, ou dar condições aos estados para que o voltem a fazer. A austeridade falhou na Grécia. A austeridade falhou na Irlanda. A austeridade falhou em Portugal. A austeridade falhou na Europa — de acordo com os critérios dos próprios defensores da austeridade. As contas públicas não ficaram mais equilibradas, a confiança não voltou aos mercados, a economia não retomou. Em face deste quadro, muitos dos austeritários fazem-se de ingénuos: “se alguém soubesse como é possível estimular o crescimento e o emprego, já teria sido feito”, dizem agora, como se estimular o crescimento e o emprego fosse um mistério económico impossível de atingir através de políticas concretas. Mas não é

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