Contra o consenso irrazoável

Foi por isso que há quatro anos escrevi com tanto entusiasmo e respeito sobre Obama e a sua vitória nas eleições americanas. Bastaria que ele fizesse estilhaçar o cristal da “guerra de civilizações” para que tivesse valido a pena. Obama fez isso e mais. Esta parte próspera de mundo, a que chamamos gulosamente de “o Ocidente”, mas que é apenas o Atlântico Norte, onde residem 15% da população e 60% da riqueza mundial, gastou a primeira década deste século numa obsessão com a “guerra de civilizações”, e está a caminho de gastar a segunda década do século com uma obsessão pela austeridade. A “guerra de civilizações” levou a duas guerras, milhões de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma chocante insensibilidade perante a tortura e o sequestro — e ao desperdício de talvez dois biliões de dólares que, se empregues noutras coisas, teriam mudado o mundo para muito melhor. A obsessão da austeridade vai pelo mesmo caminho:

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Relatório aprovado

Foi aprovado esta semana pela Comissão de Assuntos Externos do Parlamento Europeu, o meu relatório sobre a revisão da política estratégica de direitos humanos da União Europeia. Este relatório visa a criação de mecanismos e procedimentos que apoiem, amplifiquem e fortaleçam o respeito pelos direitos humanos e pela democracia nos Estados-Membros da UE e nas instituições europeias assim como nas suas relações com os países terceiros. O relatório foi aprovado com 59 votos a favor, 4 abstenções e nenhum voto contra. Podem consultar o projeto de relatório no link abaixo, até à sua aprovação em sessão plenária do Parlamento Europeu no final deste mês. http://www.europarl.europa.eu/meetdocs/2009_2014/documents/afet/pr/899/899023/899023pt.pdf

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A reafundação

Se há coisa em que todos os partidos colaboraram nos últimos anos foi na domesticação do parlamento. Os deputados podem ser mais ou menos bem preparados tecnicamente, mas eles servem de correia de transmissão das direções partidárias. Dizer que a maioria está neste momento em dissonância cognitiva é pouco: é uma trissonância, uma cacofonia cognitiva. Vem um ministro — precisamente Miguel Relvas, PhD — e diz que “faltam vinte meses para acabar o programa de ajustamento”. Mas logo chega o primeiro-ministro e diz que é preciso refundar o programa da troika. A razão é simples: Pedro Passos Coelho não quer viver sem a troika, que lhe dá a cobertura de que ele precisa para o seu projeto de proclamar um dia a República Minimal Portuguesa. Paulo Portas tenta mudar de assunto, ou fingir que não é nada com ele — afinal, que quer ele, preservar alguma coisa do estado ou desmantelá-lo? é um conservador ou um neoliberal? um institucionalista ou um revolucionário? — , mas é corresponsável de tudo o que acontecer ao país enquanto este governo estiver no poder. Essa é a parte da trissonância cognitiva. Agora passamos à cacofonia.

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Burriculum vitæ

Não; não pode ser. Miguel Relvas não pode perder o doutor. Deveria até, como na academia alemã, ser chamado de Herr Professor Doktor Doktor — abreviado para Univ. Prof. Ddr. h. c. Relvas. A notícia de que as equivalências com que a Universidade Lusófona lhe concedeu uma licenciatura foram mais generosas do que as que concedeu a qualquer outro aluno não nos deve espantar; o que é verdadeiramente significativo é que Miguel Relvas tenha tido equivalências a cadeiras que nem sequer existiam. Isto deve fazer-nos parar para pensar. Que homem é este que está assim tão à frente do conhecimento do seu tempo? Na tentativa de responder a esta pergunta, ofereço nas próximas linhas uns humildes “Prolegómenos ditirâmbicos a um preâmbulo introdutório à possibilidade de uma relvística futura”. O proémio, como nos ensinou Kant, deve ser: “É Relvas possível?” Vejamos a resposta.

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Falhas sísmicas

Uma das notícias mais perturbadoras de um tempo de notícias perturbadoras foi a condenação de seis cientistas italianos, e um funcionário público, a seis anos de prisão por “homicídio multiplo”. O crime dos cientistas foi, supostamente, terem falhado em avisar as populações para os riscos de um possível sismo na região italiana de L’Aquila que, em abril de 2009, matou cerca de 300 pessoas. Lembro-me de ter lido na época uma excelente reportagem da revista italiana L’Europeo que fazia o historial dos sismos italianos na nossa geração. O ciclo era sempre o mesmo:

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Contra o OE2013

Hoje foi o primeiro dia de discussão na Assembleia da República do Orçamento de Estado para 2013. Aproveito para deixar aqui a petição que o Congresso Democrático das Alternativas dirigiu aos deputados na AR e ao Presidente da República, em que pede o chumbo deste orçamento irrealista e cruel. Esta iniciativa contará com todo o meu apoio. Se quiserem assinar a petição, por favor cliquem no link abaixo: http://www.congressoalternativas.org/p/peticao-oe-2013.html

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O fim não é o fim

Manuel António Pina escrevia bem e sabia muitas coisas e era bom amigo, todos o dizem, mas o que impressiona é que era sábio de uma maneira que às vezes parece que já não há muito no nosso tempo. Leio que um filósofo, adaptando o argumento de Copérnico sobre a posição da nossa espécie no universo, chegou a um cálculo sobre o que já vivemos e sobre aquilo que nos resta viver. Garantem-me que o princípio está tecnicamente correto. A conclusão é a de que vivemos um pouco mais de cem mil anos e que nos resta viver um pouco menos de cem mil anos. Como no título do primeiro livro de poesia de Manuel António Pina: “Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde”.

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Prémio Sakharov 2012

Nasrin Sotoudeh é uma advogada iraniana conhecida pela defesa dos prisioneiros políticos no seu país – até ela própria ter se tornado numa prisioneira política. Jafar Panahi é um cineasta iraniano, premiado em Cannes, que foi condenado a prisão domiciliária e proibido de filmar.  A ambos o Parlamento Europeu decidiu atribuir o Prémio Sakharov numa escolha  que reconhece e valoriza a luta de toda a sociedade civil iraniana. Enquanto um dos coordenadores do parlamento para este prémio, apoiei e participei ativamente neste processo de escolha. O  Prémio Sakharov 2012 foi concedido por unanimidade e pela primeira vez foi atribuído a personalidades do Irão.

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Plano de Ação Global Zero

Esta semana apoiei no Parlamento Europeu o Plano de Ação Global Zero para a eliminação das armas nucleares em todo o mundo até 2030. Trata-se da Declaração Escrita 026/2012, que será aprovada como resolução se tiver metade das assinaturas dos deputados europeus. Esta é uma importante campanha cuja proposta incentiva os Estados-Membros a tomarem medidas que façam avançar o Plano de Ação Global Zero. Propõe por exemplo aos governos da Rússia e dos Estados Unidos a redução do seu arsenal para 1000 armas nucleares cada um, e a remoção das suas armas nucleares táticas do continente europeu. O Plano de Ação Global Zero encoraja também os países que são membros oficiais e não oficiais do “clube nuclear” a realizarem negociações multilaterais sobre a gradual destruição de todas as armas nucleares existentes no mundo. Os cidadãos europeus podem também assinar a declaração online em http://unitedforzero.org/ e incentivar os eurodeputados a assinarem esta declaração, aprovando desta maneira uma resolução do Parlamento Europeu a este respeito.

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E depois do adeus?

O nosso grande problema é o problema político. É na política que está a nossa grande falta de alternativas. Este governo vive numa realidade inviável, na qual propõe caminhos inviáveis, que darão resultados inviáveis. Em tempos pedia-se alternativas a esta austeridade que reforça as desigualdades. A questão agora já é outra: de que é isto alternativa? Isto não serve para nada. Nada justifica insistir-se num caminho errado em que ninguém no país acredita. Este governo, na verdade, acabou em setembro, quando ficou exposta a sua pelo empobrecimento competitivo. Falhada a via da TSU para baixar os salários, o governo optou pelo assalto fiscal para pagar o défice. Entre uma coisa e outra, “tudo se desmancha e o centro não aguenta”, como diz um poema — não aguenta o centro ideológico do governo, nem o seu centro político, nem o Centro Democrático e Social. O governo acabou, pois, e a única questão é como removê-lo. E aí Portugal regressa ao seu grande problema.

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