A regra de Juncker

Quando o presidente do Eurogrupo não percebe o que a União anda a fazer, ou percebe bem demais e sabe que isso leva ao desastre, é porque rebentou a bolha. Paul Volcker, antigo presidente do Banco Central americano, disse uma vez que a única coisa útil que os bancos inventaram nos últimos vinte foi a caixa automática. O humilde multibanco, acrescentou Volcker, “dá mesmo muito jeito, evita visitas desnecessárias ao banco e ajuda as pessoas — não consigo pensar em mais nenhuma inovação finaceira de que se possa dizer o mesmo”. Noutra ocasião, Paul Volcker disse que não entendia como funcionavam os derivados financeiros como os “credit default swaps”. Alguém respondeu: se calhar devíamos ter uma “regra de Volcker” — “se o Volcker não entende, não podes vender”.

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Nota

Francisco Louçã publicou ontem, às 23:18, na sua página de facebook, uma nota intitulada “4 são mesmo 4”, na qual comenta artigos que terão aparecido na imprensa (jornais “i” e “Sol”) com a informação errónea de que os quatro fundadores do Bloco de Esquerda fossem Luís Fazenda, Miguel Portas, Francisco Louçã e Daniel Oliveira. Como escreve Louçã, “o Fernando Rosas desaparecia da história”, substituído pelo nome de Daniel Oliveira. Francisco Louçã escreve que o jornalista do primeiro artigo “tinha sido levado ao engano por uma informação de uma conversa com o Rui Tavares”, e notando que a mesma informação errónea terá saído noutro jornal, confessa-se “curioso acerca da coincidência de dois enganos tão estranhos”, concluindo que é “simplesmente uma falsificação a tentativa de retirar o Fernando [Rosas] desta história e de a refazer com novos protagonistas”. O carácter público daquela nota obriga-me a responder também publicamente. Como é evidente, nunca disse a qualquer jornalista, ou a qualquer pessoa, em privado ou em público, que Daniel Oliveira fosse um dos quatro fundadores do Bloco de Esquerda, e jamais omitiria o nome de Fernando Rosas para o substituir fosse por quem fosse. Conheço muito bem a história da fundação do Bloco de Esquerda e já conhecia na época vários dos seus protagonistas. Nunca mentiria nem levaria alguém “ao engano” sobre ela, porque simplesmente é coisa que nunca faço. Ponto final, parágrafo. Adicionalmente, lamento a aparente leviandade com que Francisco Louçã extrapola em público sobre a sua curiosidade “acerca da coincidência de dois enganos tão estranhos”, ligando-a um deputado eleito em listas do seu partido, sem ter feito o mais fácil que seria telefonar a esse deputado para procurar satisfazer essa curiosidade. Mas Francisco Louçã vai mais longe, utilizando num contexto em que citou o meu nome termos e expressões como “falsificação” e “tentativa de refazer a história” que para um historiador como eu têm implicações tão graves que não podem simplesmente passar em claro. Eu não sou, caro Francisco Louçã, dos que refazem a história. E, politicamente, eu não sou daqueles que apagam um camarada da fotografia para lá pôr outro. Orgulho-me de ter sido aluno de Fernando Rosas e tenho por ele enorme respeito pessoal e profissional. Com ele e com outros aprendi a ser historiador e irrepreensível em matéria de facto histórico. Ninguém — nem sequer o líder do partido pelo qual fui eleito — põe em causa, em vão, a boa-fé e honestidade por que me pauto nestas questões. Sou também, nestas matérias, absolutamente impermeável às conveniências políticas de momento. Na véspera de uma Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, teria sido fácil a Francisco Louçã esperar para perguntar, aos muitos amigos e camaradas que tenho entre os que estiveram hoje à sua volta, se eu seria capaz de enveredar por “falsificações” ou “tentativas de refazer a história”. A minha segurança é tal que sei que todos lhe diriam que tal é impossível. No quadro dos difíceis debates que se avizinham para a esquerda portuguesa, é de lamentar que a nota de Francisco Louçã, e a resposta que me vejo forçado a dar-lhe, possam servir de manobra de diversão. Mas a política, e tudo na vida, faz-se respeitando a dignidade das pessoas, agindo com boa-fé e não lançando sobre elas suspeitas em filigrana. O mínimo que espero de Francisco Louçã é que esclareça a confusão que levianamente criou, peça desculpas pelo facto, e retracte o seu texto. Rui Tavares. Bruxelas, sábado 18 de Junho de 2011.

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Bloco: duas ou três coisas que sei sobre ele

Porém o Bloco teve o seu pior resultado, as razões, contudo, não estão nas condições externas, mas num desencontro entre eleitorado e partido sobre aquilo que ele poderia ser. 1. O problema do Bloco nas sondagens não começou com o apoio a Manuel Alegre, nem com a moção de censura, nem com a falta à reunião da troika, nem com os possíveis ziguezagues entre uma coisa e outra. Pedro Magalhães, politólogo e especialista em sondagens, publicou no seu blogue um gráfico no qual as intenções de voto no BE caem quando a campanha de Manuel Alegre começa a correr mal. Mas antes dessa descida o BE tinha também subido com Manuel Alegre, voltando a ser o terceiro maior partido em intenções de voto. O efeito, antes e depois, parece uma pequena montanha num vale não muito profundo. Cujo declive tinha começado no segundo de 2009. Foi aí que parou a imparável tendência de crescimento do BE. Com efeito, o BE passou grande parte de 2009 numa cordilheira,

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Muitos, todos, cada um

A visão que a esquerda tem de si mesma e a que a direita tem de si mesma não se justapõem, elas discordam até nas suas discordâncias. Um blogue de direita, o 31 da Armada, leu a minha última crónica, na qual escrevi que “mais do que uma doutrina ou uma ideologia, a esquerda é a aliança daqueles que não são ricos nem poderosos” e acusa-me de enveredar por uma “caricatura de contornos novecentistas” num texto assinado por João Vacas e ilustrado por uma caricatura de contornos oitocentistas. Vamos começar por uma coisa simples e encontrável em qualquer enciclopédia. A palavra “novecentista” refere-se ao século XX, isto é, aos anos após 1900. A palavra que se refere ao século XIX, cujos anos começam por 1800, é “oitocentista” — e dá-me a forte impressão de que era essa que o nosso bloguer conservador quereria ter usado para me chamar. Agora vamos complicar um bocadinho.

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Uma constatação

Ninguém é de esquerda só por dizer que é de esquerda, olha para o que eles fazem e não para o que eles dizem. É, apesar de tudo, injusto dizer que a esquerda portuguesa não consiga estar de acordo. Para dar um exemplo, perguntemos por que não consegue a esquerda portuguesa convergir e a resposta vem pronta: a culpa é do outro partido. O Partido Socialista dirá, como quem constata uma evidência, que PCP e Bloco estão arrinconados numa confortável posição de protesto e que evitam, ao mínimo pretexto, implicar-se numa governação do país que seja pragmática. Bloco e PCP dirão que o PS deriva para o centro quando está no governo, quando não aplica medidas que parecem ter saído direitinhas do manual da direita. Apontam para o legado de Sócrates e perguntam se alguém no seu perfeito juízo poderia esperar que fossem eles a salvá-lo.

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Período de reflexão

Teremos governo de direita, com um programa que fará o cavaquismo parecer um oásis social, e para durar oito anos. Não tenho ilusões. Ontem acabou de se confirmar uma viragem histórica em Portugal, e eu estou do lado perdedor. O país chegou a estas eleições exangue e entregue às mãos impiedosas da troika. Simbolicamente, bateu já no fundo, ou pensa que bateu — a julgar pelo exemplo da Grécia e da Irlanda, este fundo não tem fundo. Socialmente, aproximam-se tempos duríssimos; politicamente, a descrença vai ser amplificada pelos sucessivos falhanços em chegar às metas do memorando; culturalmente, no sentido mais profundo, Portugal vai esvair-se. Esvair-se em crença num futuro desenvolvido, europeu e próspero. E esvair-se em gente que ainda tenha sonhos. Desculpem, quem está do lado perdedor deveria começar por falar dos vencedores.

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Um ressurgimento

Um projeto político precisa de idealismo para marcar a diferença em relação ao que existe. E pragmatismo porque terá de construir uma maioria, e essa maioria só se faz com os que são diferentes de nós. Costuma dizer-se que toda a política é local — ou seja, que uma eleição se ganha ou perde pelo mais paroquial preconceito. Mesmo que fosse verdade, deveríamos fazer política para que se torne mentira. Considerem a seguinte história. Há uns anos, a província italiana da Puglia preparava-se para eleger um governador. Região conservadora, pobre, há anos nas mãos dos clientelismo e da versão local da mafia, a Sacra Corona Unita. A esquerda, como sempre, dividida. Os caciques já tinham as suas escolhas em mente e os aparelhos partidários em campo. Mas houve uma ideia simples que se intrometeu.

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Fora do tempo e do espaço

Há ainda formas de, no jornalismo, descrever, resumir, interpretar. Creio que a isso até se chama, salvo erro, fazer jornalismo. Liguei o aparelho na RTP1. Segunda parte do Manchester-Barcelona, uma boa surpresa, tinha-me esquecido do jogo. Esperei pelo Telejornal. O país a uma semana de uma eleição, num momento crítico, etc. — vocês sabem a história. A primeira notícia do Telejornal foi sobre o jogo de futebol que eu tinha acabado de ver. Era uma final europeia, tudo bem, mas a notícia era redundante: o jogo tinha acabado 30 segundos antes, que diabo, naquele mesmo canal. Não me lembro de quais eram as notícias seguintes. As chuvadas, um acidente, essas coisas. Sobre a campanha havia primeiro uma peça sobre o lado íntimo, ou lá o que era, de Pedro Passos Coelho: o candidato explicava que nunca foi gordo, que não gostava de se sentar na relva porque lhe doía o rabo, etc. Tive pena dele; é preciso paciência para fazer aquele papel e ouvir aquelas perguntas, sempre com o mesmo sorriso na cara. Depois veio uma peça sobre Julio Iglesias

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Duas catástrofes

Preferes uma catástrofe económica e social? Ou antes uma catástrofe política? Não sei que mal fizémos à deusa da democracia, mas ela está a sujeitar-nos a uma duríssima prova. Diz ela: Portugal, escolhe entre duas catástrofes. Preferes uma catástrofe económica e social? Ou antes uma catástrofe política? A catástrofe económica e social é Pedro Passos Coelho, que é um líder do PSD muito mais banal do que parece. O que sabe de política aprendeu como líder de uma juventude partidária; em vez de ter maturado, a sua temporária ausência da política fê-lo regressar como personagem plastificada. A imagem de extremista ideológico que a esquerda compôs dele pode até, de certa forma arrevesada, creditá-lo de uma consistência de pensamento que eu — salvo melhor intuição — não lhe encontro. Temo-lhe a ligeireza mais do que o extremismo. A privatização das águas, a extinção do ministério da Cultura, tudo parece emergir no seu discurso com a mesma falta de questionamento. Certas pessoas parecem não ter dúvidas por dogmatismo. Outras não têm dúvidas por inconsciência — e Passos Coelho é uma delas. Uma pessoa assim é perigosa, sobretudo quando rodeada por uma clique de taticistas disposta a bajular o líder para alcançar os seus próprios objetivos. Pedro Passos Coelho está rodeado destes bajuladores por todo o lado, e eles parecem mais movidos pelo lucro do que pela glória. Com um país em crise, vai ser difícil distinguir entre a privatização e a pilhagem. A catástrofe política é José Sócrates.

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Em quem voto e porquê

Era há uns tempos lugar-comum entre os anti-bloquistas dizer que o BE era um partido com imagem de moderno e um programa extremista, que pouca gente lia. Parece-me que é o contrário que se passa: o BE tem uma imagem de extremista e um programa moderno, que vale a pena ler. Não deverá surpreender ninguém que eu vote no Bloco de Esquerda nas próximas eleições; as razões por que o faço, porém, talvez interessem aos leitores. Tendo em conta que os problemas da esquerda portuguesa foram sempre principalmente de atitude — e permanecem extensivos a todos os partidos em causa — deixem-me arrumar os meus argumentos em dois campos: diagnóstico e programa. O irresponsável contexto que provocou a crise global em que vivemos é hoje bem conhecido e o seu diagnóstico é hoje partilhado por muita gente, à esquerda e até fora dela. Mas é mais fácil fazê-lo agora do que ter resistido às seduções do neoliberalismo durante os últimos vinte anos, período em que o centro-esquerda soçobrou e de que ainda não recuperou, desde logo porque recusa qualquer reconhecimento e arrependimento dessa deriva. O exemplo desta diferença faz-se no diagnóstico “micro”. É justo lembrar que o BE sempre criticou, com vigor, o puro despesismo e irresponsabilidade das parcerias público-privadas e, para dar outro exemplo, recusou a selva de isenções na nossa fiscalidade, mesmo quando perdeu votos com isso

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