Era há uns tempos lugar-comum entre os anti-bloquistas dizer que o BE era um partido com imagem de moderno e um programa extremista, que pouca gente lia. Parece-me que é o contrário que se passa: o BE tem uma imagem de extremista e um programa moderno, que vale a pena ler.

Não deverá surpreender ninguém que eu vote no Bloco de Esquerda nas próximas eleições; as razões por que o faço, porém, talvez interessem aos leitores. Tendo em conta que os problemas da esquerda portuguesa foram sempre principalmente de atitude — e permanecem extensivos a todos os partidos em causa — deixem-me arrumar os meus argumentos em dois campos: diagnóstico e programa.

O irresponsável contexto que provocou a crise global em que vivemos é hoje bem conhecido e o seu diagnóstico é hoje partilhado por muita gente, à esquerda e até fora dela. Mas é mais fácil fazê-lo agora do que ter resistido às seduções do neoliberalismo durante os últimos vinte anos, período em que o centro-esquerda soçobrou e de que ainda não recuperou, desde logo porque recusa qualquer reconhecimento e arrependimento dessa deriva.

O exemplo desta diferença faz-se no diagnóstico “micro”. É justo lembrar que o BE sempre criticou, com vigor, o puro despesismo e irresponsabilidade das parcerias público-privadas e, para dar outro exemplo, recusou a selva de isenções na nossa fiscalidade, mesmo quando perdeu votos com isso.

Para quem se preocupa verdadeiramente com a desigualdade como doença crónica portuguesa, era evidente desde o início que seríamos um dos países a sofrer mais com a crise. A desigualdade sai cara. Quanto mais desigual é o país, maiores são os gastos do estado em tempo de crise: a justaposição desse choque assimétrico que temos também cá dentro ao que veio lá de fora fez o resto.

Sobre este passado, o diagnóstico para o futuro também não é famoso nem fácil. Toda a gente sabe que vai ser preciso renegociar esta dívida; o BE di-lo, por sua conta e risco eleitoral. Também nesse diagnóstico está certo e demonstra coragem na antecipação: é melhor renegociar agora, do que depois, encostados a um beco.

Era há uns tempos lugar-comum entre os anti-bloquistas mais ferrenhos dizer que o BE era um partido com imagem de moderno e um programa extremista, que pouca gente lia. Parece-me que é o contrário que se passa: o BE tem uma imagem de extremista e um programa moderno, que vale a pena ler.

Enquanto este país não tributar as mais-valias em bolsa e as transferências e depósitos bancários em paraísos fiscais — medidas que estão no programa do BE e que muitos países já aplicam ou começaram a aplicar — é indecente pedir-se ao trabalhador comum os sacrifícios que agora se pedem. Mas isto é mais do que uma medida de decência: são recursos essenciais para fazer frente à especulação e recuperar a economia.

A reestruturação fiscal que o BE propõe no imobiliário cumpre uma tripla função: recupera recursos, corta pela raiz um matagal de corrupção e racionaliza um dos fatores da bolha de suburbanização e construção abusiva que esteve na génese da crise — a que se deve acrescentar o plano de reabilitação urbana que há anos venho defendendo aqui.

Também na fiscalidade “federal” europeia há propostas importantes, não só nos “eurobonds” mas também na criação mais controversa de uma taxa europeia sobre as transações financeiras — que permitiria reunir 200 mil milhões de euros para um programa de combate à pobreza nos 27 países.

Emagrecer por emagrecer é anorexia. A resposta convencional à crise é anorexia política: limita-se a salvar os credores punindo a gente comum. Responsável será procurar recursos onde estão para relançar o crescimento em justiça social. O Bloco de Esquerda construiu o seu diagnóstico e o seu programa em torno dessa diferença essencial, e ganha o meu voto por isso.

4 thoughts to “Em quem voto e porquê

  • Joana d'Hark

    Apesar de possuir um bom programa eleitoral, não deixa de passar a imagem de um partido actualmente desorganizado, sem grande funcionalidade estrutural e incapaz, no momento, de formar governo.

    Se até aqui foi uma boa solução e alternativa à esquerda mais conservadora, hoje em dia não consegue esconder o incómodo de se ver relegado, por perca directa de votos, para lugares e posições mais residuais do pano da democracia.

    O BE corre o sério risco de ver drasticamente o seu painel de deputados, com uma derrota extrema e expressiva face à direita e ao centro.

    Perde o país com isso.

    Saudações

    Joana

  • Vasconcelos

    Olá,
    Parecem-me bem, as razões que aponta.Acho, no entanto, que ao bloco ainda falta outras frontalidades como:
    -Redução das subvenções do estado à Presidência da República.
    -Reorganização das Forças Armadas.-oficiais,+praças,outro paradígma.
    -Fusão da GNR/PSP.
    -Redução do Nº de Deputados.
    -Menos Estado onde?(fundações/institutos/autarquias.
    -Como produzir+ para importar menos e exportar+
    Armando Vasconcelos Leitão

  • José mestre

    A Ousadia, a coragem, a coerência podem custar votos…
    Mas ainda assim, continuo a pensar que a grande surpesa eleitoral vais ser o BE!
    E não porque vá perder deputados…

  • JgMenos

    Não tenho particular simpatia pelo Bloco, porque sempre me pôs em dúvida sobre dados essenciais:
    1 – Com o Bloco teríamos uma economia capitalista, ou saltávamos de seguida para os amanhãs que cantam com o seu Homem Novo?
    2 – E se opção é capitalista, o capitalismo só é tolerável com as regras fundadoras do seu funcionamento.
    Mas a esquerda troca a ordem pela tolerância, a hierarquia pela igualdade, a disciplina pela impunidade. Usando o discurso que foi criado para destruir o capitalismo, para viver nele, ou é estupidez ou é um capitalismo rosa, que é o capitalismo no seu pior, embora seja o caminho certo para a riqueza de alguns, como se vem provando.

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