Arquivo mensal para March, 2018

Início e fim do século americano [texto integral]

|Do arquivo Público 08.01.2018| O século americano começou há exatamente cem anos em 1918, neste dia 8 de janeiro, quando o presidente Woodrow Wilson discursou perante o Congresso dos EUA propondo um entendimento para a paz na Europa baseado em quatorze pontos.

Os Quatorze Pontos de Wilson, como ficaram conhecidos, foram uma coisa notável. Em quatorze parágrafos tão curtos que muitos caberiam hoje num tweet, pela primeira vez as condições de uma paz na Europa foram impostas de fora do continente por um poder que antes se julgava de segunda ordem. Talvez mais importante, Wilson propunha uma revolução na forma de entender a diplomacia e as relações entre potências. Os Quatorze Pontos fundaram as bases do sistema internacional e do mundo em que ainda vivemos. No mundo de Wilson, os tratados deveriam ser negociados publicamente; a navegação nos mares deveria ser irrestrita; à maneira liberal, o direito de comerciar não deveria ser tolhido; em aliança com o nacionalismo ascendente, o direito à auto-determinação deveria ser reconhecido. A Alemanha, julgando que estava a aceitar os pressupostos de um armistício, aceitou parar com a guerra. Os aliados europeus de Wilson, em Paris e Londres, aproveitaram para proclamar a derrota alemã, e depois impô-la no Tratado de Versalhes.

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Onde se compara Trump com Calígula, e Calígula perde [texto integral]

|Do arquivo Público 05.01.2018| Agora que se aproximam a trote dois mil anos sobre a sua galopante carreira política, certamente que muitos leitores reservam de quando em vez um pensamento em memória de Incitatus, o cavalo preferido do Imperador Calígula. Reza a lenda que, cansado (o imperador, não o cavalo) da classe política de Roma, Calígula decidiu elevar o seu cavalo Incitatus à dignidade de Cônsul, o que obrigaria os senadores a prestarem-lhe homenagem (ao cavalo, e claro que também ao imperador).

Pelo menos assim o contou Suetónio nas suas Vidas dos Doze Césares. Ora, ninguém sabe bem se Calígula chegou mesmo a fazer do cavalo Incitatus cônsul, ou se falava disso apenas para insultar os senadores. Mas a história de Incitatus atravessou séculos como quem nos diz “estes romanos são loucos”.

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Estaremos preparados para uma não-crise? [texto integral]

|Do arquivo Público 03.01.2018| Um dos indícios mais fortes de uma depressão económica é ocorrer uma quebra na produção industrial. E uma das formas mais fáceis de o prever é seguir o Índice dos Gestores de Compras, que nos informa sobre as encomendas e aquisições feitas a cada mês pelas empresas. No início da crise, de 2007 a 2009, este índice caiu para quase metade dos níveis anteriores na zona euro. Pouco tempo depois, estávamos na mais profunda recessão desde 1930.

E em 2018? Saíram ontem os números deste índice. São a primeira boa notícia do ano para a zona euro. São mesmo os melhores números, não só desde 2007, mas desde 1997 — ou seja, desde antes da introdução do euro e desde que estas estatísticas começaram a ser compiladas. Melhor ainda, estes números não ocultam uma qualquer divergência entre as economias da zona euro, como já aconteceu no passado, mas refletem antes um crescimento conjunto das economias de todos os países do euro. A Alemanha, a Áustria e a Irlanda estão com crescimento recorde — mas a Grécia também terá provavelmente o seu melhor ano desde há muito tempo.

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Pode um progressista defender Putin?

“Quando alguém que se reivindica de ideias progressistas defende Putin é porque em geral o faz ao arrepio dessas mesmas ideias. Defende Putin como forma de atacar a hipocrisia das ações de outros líderes políticos, em particular ocidentais, hipocrisia essa que certamente existe e em quantidades apreciáveis. Ou defende Putin porque ele irrita as pessoas “certas”. Ou defende Putin porque pensa que ele serve de contrapeso ao “imperialismo”. São, todas elas, péssimas razões.” – No Público de hoje.