Não adianta alegar que sempre houve mentira e desonestidade em política. A novidade não está na mentira, está no preço que deixou de se pagar quando ela é descoberta. Onde antes carreiras eram destruídas, basta agora um encolher de ombros e esperar que chegue outro assunto. Fui recentemente a um debate em que um dos oradores disse logo na sua primeira frase uma mentira. Não uma mentira qualquer, mas uma que os presentes poderiam desmentir saindo à rua — estava em causa a falsificação de um slogan partidário que está em cartazes pelo país todo. Foi-lhe chamada a atenção, e o orador alegou que se tinha confundido. Errar é humano, e deu-se-lhe o benefício da dúvida. Entretanto já outro orador tinha engrenado numa série de argumentos que misturavam meias-verdades, falsidades e factos pura e simplesmente inventados, segundo os quais, por exemplo, teria havido uma votação unânime em Bruxelas na qual “até o Syriza” teria confirmado que as contas do Governo português “são irrealistas”. Parte do que foi dito “anda por aí” e a outra parte poderia ser justificada pela crença de que a vida é uma campanha eleitoral permanente e que as campanhas eleitorais têm regras maleáveis. Os outros presentes no debate não tinham muito como reagir.