Não adianta alegar que sempre houve mentira e desonestidade em política. A novidade não está na mentira, está no preço que deixou de se pagar quando ela é descoberta. Onde antes carreiras eram destruídas, basta agora um encolher de ombros e esperar que chegue outro assunto. 

Fui recentemente a um debate em que um dos oradores disse logo na sua primeira frase uma mentira. Não uma mentira qualquer, mas uma que os presentes poderiam desmentir saindo à rua — estava em causa a falsificação de um slogan partidário que está em cartazes pelo país todo. Foi-lhe chamada a atenção, e o orador alegou que se tinha confundido. Errar é humano, e deu-se-lhe o benefício da dúvida.

Entretanto já outro orador tinha engrenado numa série de argumentos que misturavam meias-verdades, falsidades e factos pura e simplesmente inventados, segundo os quais, por exemplo, teria havido uma votação unânime em Bruxelas na qual “até o Syriza” teria confirmado que as contas do Governo português “são irrealistas”. Parte do que foi dito “anda por aí” e a outra parte poderia ser justificada pela crença de que a vida é uma campanha eleitoral permanente e que as campanhas eleitorais têm regras maleáveis.

Os outros presentes no debate não tinham muito como reagir.

A moderadora tentou retificar aqui ou ali, mas as ocorrências eram demasiado frequentes para se poder gastar o tempo necessário com as réplicas e clarificações. O público não se sente à vontade para corrigir as “figuras da autoridade” no palco (no caso, políticos e representantes eleitos). E os restantes oradores têm de optar entre repor a verdade ou apresentar as suas ideias no tempo que lhes é dado (fui pela primeira opção, mas não é algo que se possa, na prática geral, fazer).

É por isso que quando vejo a exposição de uma flagrante desonestidade como o plágio na convenção republicana da madrugada de ontem (a sra. Trump roubou frases inteiras a um discurso da sra. Obama de há oito anos), a minha reação é mais de depressão do que satisfação pela justiça feita. Na época em que estamos, quase nunca é feita justiça a quem é desonesto no debate público.

A mentira funciona, pelo menos no curto prazo. A campanha no referendo britânico foi ganha pelos” brexiteers” com um número falso (“Damos 350 milhões de libras por semana à UE…”) que antecedia uma promessa que nunca tiveram intenção de cumprir (“… Vamos antes financiar o Sistema Nacional de Saúde”). Depois da vitória estar no papo, que lhes interessou a desonra?

Não adianta alegar que sempre houve mentira e desonestidade em política. A novidade não está na mentira, está no preço que deixou de se pagar quando ela é descoberta. Onde antes carreiras eram destruídas, basta agora um encolher de ombros e esperar que chegue outro assunto. Esta cultura, iniciada ou pelo menos legitimada pela grande mentira que foi a Guerra do Iraque, foi inevitavelmente aproveitada por aqueles a que se chama “populistas”. Se os políticos “sérios” usufruem, por que não eles também?

A verdade deprimente é que, num ambiente em que se espera que as pessoas sejam honestas, a mentira dá uma vantagem competitiva a quem está disposto a correr um risco cada vez menor. Essa vantagem é rapidamente imitada por outros, deixando a honestidade isolada. Das duas uma: ou o público volta a dar à mentira um preço proibitivo, ou será preciso esperar que o sistema entre em colapso até que a honestidade volte a ser valorizada. A escolha, na verdade, é nossa.

(Crónica publicada no jornal Público em 20 de julho de 2016)