Arquivo mensal para July, 2014

Uma manhã produtiva

Assassinato de Sarajevo – 28 de Junho de 1914.

Parafraseando Churchill, aquela manhã em Sarajevo produziu mais história do que nós somos capazes de consumir.

Na semana passada, não no século passado nem no milénio passado, o mundo moderno assistiu a uma coisa estranha: um homem que decidiu declarar-se Califa, ou seja, descendente de Maomé, líder espiritual e político de todos os muçulmanos. Uma coisa tão estranha quanto um de nós decidir pôr uma coroa de louros na cabeça e declarar-se César.

Vamos recuar cem anos até um conflito que temos revisitado aqui muito, a Iª Guerra Mundial. Em 1914, por esta altura, havia ainda um califa e três césares. Os três césares eram o imperador da Rússia — cujo título não era Czar por acaso, mas precisamente por vir do romano Cæsar —, o imperador da Áustria e o rei da Prússia e imperador da Alemanha, ambos com o título de Kaiser pela mesma razão. O Califa era Mehmed V, Sua Majestade Imperial e Sultão do Império Otomano.


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Dizer para ver

Sophia de Mello Breyner Andresen não foi só uma das maiores escritoras da língua portuguesa contemporânea. Foi ela quem mais perto esteve de um ideal clássico da poesia: o da realização material das palavras.

Quando tinha quinze anos, passei um Verão trabalhando como guia turístico no Panteão Nacional quatro dias por semana (ao quinto, ia para São Vicente de Fora), num grupo de adolescentes em “ocupação de tempos livres”. Com as gorjetas comprávamos discos de vinil na Feira da Ladra. Com o salário, comprei uma bicicleta. Ao fim da tarde acontecia-me subir a colina da Graça, pela travessa das Mónicas, junto à Vila Sousa, até ao miradouro. Não sabia que ali morava Sophia de Mello Breyner. Continuar a ler ‘Dizer para ver’

Ainda mexe

 É necessário que nos unamos da próxima vez para ter uma candidatura ganhadora à presidência da Comissão Europeia.

Há cem anos e um dia, um título do jornal Vancouver Sun declarava convictamente: “Morte de arquiduque austríaco afasta perigo de conflito europeu”. Um mês depois estalava a primeira guerra mundial, precisamente pela causa que o jornal tinha defendido que a anularia.

É fácil sorrir por conta deste falhanço jornalístico. Mas cem anos (e um dia) depois, ainda é por nossa conta e risco que ignoramos as dinâmicas europeias. Vejamos. Durante anos, jornais e televisões proclamaram que a crise da zona euro estava ultrapassada. A cada cimeira do Conselho Europeia, disseram-nos que a União tinha dado um grande salto em frente e que não havia agora problema. Da mesma forma, muitos observadores, desta feita principalmente nos governos, continuam a desvalorizar o efeito que teve a frase de Mario Draghi (“faremos tudo o que for necessário para salvar o euro e, acreditem, será suficiente”) na superação da fase aguda da crise da moeda comum.

Mas há mais. Durante cinco anos o Parlamento Europeu defendeu que a escolha do presidente do executivo europeu se desse indiretamente através das eleições europeias. Quando essa proposta feita, porém, ela foi continuamente desvalorizada por todos aqueles que supostamente estavam “por dentro” dos temas europeus. Continuar a ler ‘Ainda mexe’

A bola

Eusébio, o Pantera Negra (Benfica x Manchester United / Taça dos Clubes Campeões Europeus em 01.06.1966)

A minha teoria é que cada um joga como a personalidade que tem, ou seja, que olhar para a forma de jogar futebol é a melhor maneira de entender com quem estamos a lidar.

Nas escadas rolantes do aeroporto tenho à minha volta dezenas de miúdos e miúdas vestidos com o equipamento vermelho do Benfica (e Olivais). Vão aos Açores jogar à bola num torneio infantil. Os pequenos sentem-se, e provavelmente são, os jogadores com mais pinta do mundo. Continuar a ler ‘A bola’