Eusébio, o Pantera Negra (Benfica x Manchester United / Taça dos Clubes Campeões Europeus em 01.06.1966)

A minha teoria é que cada um joga como a personalidade que tem, ou seja, que olhar para a forma de jogar futebol é a melhor maneira de entender com quem estamos a lidar.

Nas escadas rolantes do aeroporto tenho à minha volta dezenas de miúdos e miúdas vestidos com o equipamento vermelho do Benfica (e Olivais). Vão aos Açores jogar à bola num torneio infantil. Os pequenos sentem-se, e provavelmente são, os jogadores com mais pinta do mundo.

E eu, que não estava à espera da alegria disto, fico logo de sorriso na boca e começo a tratá-los como se fossem grandes estrelas de futebol. Boa sorte! Vou torcer por vocês.

Uns segundos antes vi um dos treinadores destes miúdos dar um sonoro abraço ao funcionário do raio x por onde passam as nossas malas, os nossos computadores, os nossos sapatos. Ainda apanhei uma parte da conversa deles: “então pá?”, “então, fui dispensado lá do hospital, depois ainda fiquei no desemprego e agora vim para aqui”. O outro treinador espera pelos miúdos junto às escadas rolantes e provavelmente conta-lhes as cabeças. A grande maioria são rapazes, mas também há várias raparigas. 

Não há muito mais a dizer acerca disto: não há muitas coisas mais maravilhosas do que ser miúdo e jogar à bola. Espero que os pais ansiosos e as escolinhas de jogadores não tenham estragado isto: o jogo jogado ao molho por quem não sabe nem acredita na regra do off-side, o jogo com miúdos que jogam à fuça e outros que jogam à mama, com guarda-redes chorões e com donos-da-bola, com lançamentos de linha marcados com o pé, com balizas feitas por mochilas e regras que mudam a todo o momento.

E não há saudades como as saudades desses jogos. A minha teoria é que cada um joga como a personalidade que tem, ou seja, que olhar para a forma de jogar futebol é a melhor maneira de entender com quem estamos a lidar, desde o avançado que rouba a bola ao companheiro de equipa para ser ele a marcar (a falhar) o golo até ao tipo que joga na defesa a dar ordens aos outros.

Daqui a umas horas vou fazer o ritual da meia-noite para ver o Portugal-EUA. Se ganharmos, já regressa a euforia e lá regressam os nervos para o jogo seguinte. Se perdermos, fica o desânimo e a desvontade de voltar a interessar-me por futebol.

Mas vai ser desinteresse de pouca dura. Se alguém souber, agradeço que me digam como correu o mini-torneio açoriano ao Benfica e Olivais. Deve estar ali (de certeza) o próximo Ronaldo.

[Já tinha esta parte escrita quando recebi a triste notícia da morte do Miguel Gaspar, grande jornalista e homem bom, diretor-adjunto do Público, e durante uns tempos meu companheiro nesta última página. Um dia ligou-me a dizer que iríamos intercalar crónicas e, desde então, correspondendo à gentileza com que ele sempre tratava as pessoas, mandei-lhe a crónica antecipadamente. Hoje deixo ficar o texto assim porque, como escrevia João Cabral de Melo Neto, a vida é a resposta à morte. E essa resposta está sendo dada todos os dias, por todos nós, e em particular pela bizarra profissão que é o jornalismo, e que tem esta dureza de ter de ser cumprida mesmo quando os amigos e colegas partem. A vida respondendo à morte. Caro Miguel, aqui está a crónica para amanhã.]

 (Crónica publicada no jornal Público em 23 de Junho de 2014)

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