Arquivo mensal para Abril, 2014

Do gelo às formigas

Lethe: The River of Forgetfulness – Tim Pospisil /2012

É difícil não ceder à tentação de pensar que, enquanto escrevia Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez não estivesse possuído de toda a sabedoria do mundo.

Gabriel García Márquez escreveu vários livros excelentes — dos que li, O amor nos tempos de cólera, a novela Crónica de uma morte anunciada — e um livro incomparável, Cem anos de solidão. Sem esse livro, ele seria um grande escritor. Com esse livro, foi o autor de um dos melhores romances do século XX, talvez o melhor de todo o pós-guerra. A tal ponto que a pergunta é se ainda é possível escrever um romance daqueles.

Para quem leu esse livro do gelo até às formigas (e quem o fez sabe do que falo) o que nele há de único é uma surpreendente segurança de linguagem desde as primeiras linhas. Como se o romance se encaminhasse para ser aquilo, e não pudesse ser outra coisa: a invenção de um mundo novo, palavra após palavra. Continuar a ler ‘Do gelo às formigas’

Impulso jornalístico

Quando um jornalista pede desculpa por fazer jornalismo, está tudo dito.

Deu-se ontem, na entrevista de José Gomes Ferreira a Pedro Passos Coelho, um momento de verdade suprema. Durante toda a tarde, em antecipação de uma conversa entre um enamorado pela austeridade e um apaixonado pela austeridade, tinham chovido propostas de perguntas de um a outro: “porque não foi mais longe?”, era a mais fácil de prever. E claro que apareceu.

A realidade, porém, não só ultrapassou a imaginação como a atropelou e fugiu. No único momento em que José Gomes Ferreira se lembrou de insistir numa pergunta, Pedro Passos Coelho franziu o sobrolho e levou o jornalista a escusar-se: “desculpe, foi um impulso jornalístico”.

Quando um jornalista pede desculpa por fazer jornalismo, está tudo dito. Um dia este governo conseguirá que os juízes peçam desculpa por fazer justiça, os pensionistas por estarem vivos e os desempregados por ainda não terem emigrado.

De resto, foram vários os “impulsos jornalísticos” que foram suprimidos durante a entrevista. Da dívida e da sua reestruturação, nada se disse. As europeias foram mencionadas, como de costume, como uma mera paragem do autocarro político. Ideias para o futuro de Portugal na União Europeia, zero; para qualquer futuro que não passe pela austeridade, menos do que zero. Continuar a ler ‘Impulso jornalístico’

As 59 palavras que mudaram Portugal

Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!

Salgueiro Maia, em Santarém, há quarenta anos.

Os partidos

Agora que a democracia se começa a aproximar em anos da ditadura, a relutância dos nossos partidosem credibilizarem-se pela abertura é a nossa pior inimiga política.

Há uns meses ouvi a historiadora Luísa Tiago de Oliveira resumir as teses do Congresso da Oposição Democrática de 1973, em Aveiro. O pormenor que mais chamou a minha atenção foi este: nas conclusões daquele encontro, a um ano do fim da ditadura, a existência de partidos políticos foi apenas mencionada uma vez, num parágrafo que também incluía cineclubes e sociedades recreativas.

Mal nos damos conta, mas naqueles primeiros dias de abril de 1973 só havia verdadeiramente um partido assumido como tal no país, e estava ilegalizado: o Partido Comunista Português, fundado em 1921, ainda durante a Iª República. A União Nacional (que em 1970 mudara o seu nome para “Acção Nacional Popular”), fazia na prática o papel de partido único, mas descrevia-se como associação cívica. E só duas semanas depois do Congresso de Aveiro foi fundado o Partido Socialista, no exílio. Osrestantes partidos e seus sucessores que temos até hoje nasceram, quase todos, nos meses e anos logo após o 25 de abril de 1974. Continuar a ler ‘Os partidos’

Nós não somos este escaravelho

Nós, os portugueses, não somos e não podemos ser o escaravelho de Ortobalagan. Não podemos ter perdido a capacidade de imaginar um outro país que não no fundo da gruta. 

A cientista portuguesa Ana Sofia Reboleira descobriu, numa gruta de dois mil metros de profundidade situada na Abecássia, ali nas montanhas do Cáucaso junto ao Mar Negro, uma nova espécie de escaravelho que não tem asas nem olhos viáveis. Segundo informa o Diário de Notícias, trata-se de “um escaravelho carabídeo”, e foi pela sua “adaptação à vida sem luz e às condições inóspitas” naquela que é a gruta mais profunda do mundo, que perdeu as suas asas e os seus olhos deixaram de servir para ver. A Dra. Reboleira, que batizou o seu achado de Duvalius abyssinius, considera “provável que ele habite outras cavidades do vale glaciar de Ortobalagan”.

Um dia um cientista português vai ganhar o Prémio Nobel. Já aconteceu uma vez com Egas Moniz e a lobotomia, o que nos deu a todos a duvidosa honra de sermos todos lobotomizados de nascença. Como é evidente, desejo uma carreira preenchida de sucessos à nossa brava cientista no Cáucaso, incluindo uma mão-cheia de prémios. O meu medo é que depois digam que nós portugueses somos como o escaravelho que ela descobriu, quase uma versão zoológica da Caverna de Platão, Continuar a ler ‘Nós não somos este escaravelho’

Barroso em negação

Aquilo de que a UE precisa é de um Mecanismo Europeu de Estabilidade inteiramente comunitarizado, com escrutínio do Parlamento Europeu, e sujeito às obrigações dos tratados de coesão, solidariedade e pleno emprego. 

Barroso reagiu mal ao Manifesto dos 74 pela simples razão de que lhe estraga a narrativa. Não sabem? Para Barroso, como para o seu partido europeu, o PPE, a crise já acabou. Eles, com Merkel e a troika, salvaram o Euro e a Europa. É inoportuno que logo em Portugal, nas vésperas da saída da troika, apareça gente da esquerda à direita dizendo que o país não pode continuar neste rumo.

É que dizer que Portugal não pode continuar neste rumo significa também que a União não pode continuar neste rumo. Que os problemas estruturais não podem ser varridos para debaixo do tapete até às eleições europeias. Que é necessário dar a todos os países da União uma oportunidade de crescimento e encontrar a necessária complementaridade entre as várias componentes da economia europeia. Que sob os problemas da dívida soberana se esconde uma necessidade absoluta de requalificar as economias de países como Portugal. E que nada disto foi feito. Continuar a ler ‘Barroso em negação’

Tempos históricos

A luta entre turcos tem consequências para nós todos.

A Turquia é o país onde as conspirações imaginárias têm tanto poder quanto as reais. A partir de certa altura, já ninguém sabe quais são umas e quais são as outras.

Ainda me lembro quando me falaram pela primeira vez dos gülenistas. Parecia uma coisa de um romance de aventuras. Uma sociedade secreta comandada por um teólogo que vivia em recolhimento no estado da Pensilvânia, nos EUA, mas que dominava milhares de escolas, colégios e centros de explicações — e através deles posicionava os seus acólitos em todos os lugares de poder, tanto no “estado real”, como no “estado profundo”.

Esta do “estado profundo” era outra digna das melhores séries de ação e suspense. Todos os turcos garantem que existe um estado paralelo, oculto, para lá da superfície do que é dado ver ao cidadão comum. A discordância começa em saber quão profundo é, que setores afeta (o exército, o judiciário, a polícia?) e quem o domina.

E há mais. Ergenekon, por exemplo: terá sido uma conspiração dos militares para derrubar o governo, ou uma invenção do governo para manietar os militares? E há mais, muitas mais conspirações ainda: religiosas e laicas, esquerdistas e direitistas, étnicas e nacionalistas.

Ainda assim, há que admitir que poucas eram tão difíceis de aceitar como a história dos gülenistas. A sério? Continuar a ler ‘Tempos históricos’