É difícil não ceder à tentação de pensar que, enquanto escrevia Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez não estivesse possuído de toda a sabedoria do mundo. Gabriel García Márquez escreveu vários livros excelentes — dos que li, O amor nos tempos de cólera, a novela Crónica de uma morte anunciada — e um livro incomparável, Cem anos de solidão. Sem esse livro, ele seria um grande escritor. Com esse livro, foi o autor de um dos melhores romances do século XX, talvez o melhor de todo o pós-guerra. A tal ponto que a pergunta é se ainda é possível escrever um romance daqueles.Para quem leu esse livro do gelo até às formigas (e quem o fez sabe do que falo) o que nele há de único é uma surpreendente segurança de linguagem desde as primeiras linhas. Como se o romance se encaminhasse para ser aquilo, e não pudesse ser outra coisa: a invenção de um mundo novo, palavra após palavra.