Arquivo mensal para January, 2009

O sociopata inofensivo [entrevista a Andrew Bird]

Longo: 25 mil carateres.

1721 North Damen Avenue

A seguinte conversa teve lugar num café do norte de Chicago — o Caffe de Luca da North Damen Avenue, a pouca distância do cachorrinho da foto — a 7 de Novembro de 2008. Andrew Bird tinha já terminado o seu álbum mais recente, “Noble Beast”, e terminaria nesse dia as misturas do álbum extra instrumental “Useless Creatures”. Ainda sob a influência da vitória de Obama e da sua celebração na cidade, começámos pelas relações entre o tempo histórico, o tempo musical, e as suas influências na música de Andrew Bird. Esta é a transcrição quase total do que foi dito.

Andrew Bird [AB]: “Sempre estive interessado em história. Gosto de épicos multigeracionais. Gosto de visualizar o tempo, como se estivesse dentro de um cilindro graduado, sabe? Tenho uma forma particular de… Nunca tinha pensado como isso se relaciona com a música. Mas sabe como a música por vezes tem um efeito de abrandar o tempo , tornar o tempo mais lento? Quando eu faço aqueles loops em camada que se repetem, às vezes conseguem abrandar o tempo. É uma coisa puramente musical, de tempo musical. Nas letras, a História aparece de outra maneira, porque eu tenho uma maneira de escrever que usa muitas palavras e expressões arcaicas para inseri-las nas minhas canções e criar uma espécie de coisa nova. Pegar em coisas que já deixaram de usadas, palavras que já não são novas, e torná-las no núcleo da canção. Por exemplo, Scythian Empires [do álbum Armchair Apocrypha] é uma canção muito complicada para mim, eu visualizo todo o tipo de coisas nessa canção que não estão na verdade dentro da canção. Vejo, por exemplo, uma espécie de agente de imobiliário nas estepes da Rússia, “offering views of scythian empires”, sabe, aquelas vastas extensões das estepes russas [faz o gesto de um vendedor estendendo os braços para as “vistas imaginárias das estepes russas”]. É como tentar trazer coisas do presente… é uma canção que começa muito pessimista e que depois se abre progressivamente e olha para três mil anos atrás, regressivamente, é um tipo de história irresponsável, mas mesmo assim…
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O meu génio vivo preferido


Andrew Bird – From the Basement from QandnotU on Vimeo.

[Interrompo este silêncio para publicar “Entrevista com o Homem-pássaro”, a minha longa defesa e proclamação de Andrew Bird que saiu no Ípsilon da semana passada. Quando digo que é longo, é longo: cerca de vinte mil carateres mais próprios para leitura impressa. Aqui acima, porém, está o vídeo que é descrito nos primeiros parágrafos: não sai na impressão mas é muito recomendável que o ponham a rodar na tela. Parte do meu objetivo no texto é convencer o leitor predisposto a que o veja com vagar. Daqui a pouco publicarei a transcrição integral da entrevista com Andrew Bird e depois seguirei com a minha programação habitual de estar caladinho durante mais umas semanas.]

***

Toda a gente pode fazer isto: pesquise num computador “Andrew Bird” + “From the Basement”, que é nome de um programa de música britânico que grava actuações de músicos em alta definição numa cave. O clip pretendido dura quase nove minutos. Sugiro que reserve dez minutos do seu dia. Reserve vinte, porque pode querer ver duas vezes.

Encontrará a imagem de um homem ainda jovem dedilhando um ritmo despreocupado no violino. O músico está vestido classicamente com colete e gravata, mas sem casaco. Também não calça sapatos; apenas um par de meias coloridas , pormenor em que reparamos pela primeira vez quando usa os pés para comandar uma fileira de pedais à sua frente. Esta é a única informação mais técnica a prestar: cada um desses pedais serve para gravar os últimos compassos de cada trecho que foi tocado e repeti-los enquanto Andrew Bird improvisa por cima deles. Com a sobreposição sucessiva de ritmos e melodias vai aparecendo um tear de ritmos entrecruzados. O primeiro é um quaternário quase infantil, mas Andrew Bird toca-o concentradamente para não falhar a entrada do segundo violino. Aí está. Um ritmo quase igual ao primeiro, mas em conjunto ambos elevam a música para uma trama mais aérea e esvoaçante. Agora, um terceiro: tocando com o polegar nas cordas mais graves, ele faz o papel do baixo, emprestando a tudo o balanço. A música tem agora a progressão de uma caminhada.
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Sinais de vida

1. Muitas pessoas muito simpáticas me escreveram após a suspensão da minha coluna no Público. Gostaria de lhes dar resposta individual. Caso seja impossível, aqui fica o meu agradecimento e a garantia de que receber mensagens assim dá uma motivação extra. Obrigado e apareçam sempre.

2. Estarei em Coimbra hoje, segunda-feira, para participar numa sessão d’Os Livros Ardem Mal (com António Apolinário Lourenço, Catarina Maia, Luís Quintais, Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Bebiano e Salomé Coelho). É no Café-Teatro do Teatro Académico de Gil Vicente, pelas 18h00, e estou bastante contente por ter sido convidado.

3. Sim, estudei na Luísa de Gusmão (a propósito, escrevi sobre isso aqui e até aqui).

Direito à água

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Saber mais aqui.

Em que vos posso ser útil?

 

Vocês irão para 2009; eu irei para 1768.

 

Um dia, no intervalo de uma aula com o historiador italiano Giovanni Levi, ouvi-o expor a sua “Lei da Inteligência dos Historiadores”: quanto menos documentos disponíveis tem, mais inteligente se torna o historiador. Os contemporaneístas têm nos arquivos milhões de fontes e acabam por ficar embotados por elas. Já os arqueólogos são verdadeiros génios: observando meia-dúzia de ossos e artefactos são peremptórios em afirmar “sociedade matriarcal, estrutura em clã, deuses ctónicos”. Embora esta fosse uma brincadeira destinada a divertir alguns colegas e irritar outros, o que Giovanni Levi pretendia dizer era isto: que os documentos têm sempre mais do que um nível de interpretação. O bom historiador nunca os declara esgotados.

 

Sou um historiador que, quando não escreve crónicas para jornais, anda pelas bandas do século XVIII menos do que gostaria (mas já lá vamos). Continuar a ler ‘Em que vos posso ser útil?’

Não é prever, mas fazer.

 

 

Tenho à minha frente um exemplar do “Novo Almanach de Lembranças Luso Brasileiro” para o ano de 1903. Entre poemas, divertimentos e textos de divulgação — enviados de Belém do Pará, de Portimão ou da Ilha Brava, Cabo Verde — encontro um curioso artigo sobre “O século que findou e o novo século”. Listam-se nele as conquistas do século XIX: a locomotiva, o telegrafo, a fotografia, o fonógrafo — e, com grande ênfase, a abolição da escravatura. Depois vêm as previsões para o século XX, de que se destacam duas. A primeira: “ é de esperar que todos os povos que gozam os benefícios da civilização tenham completamente abolido a pena de morte”. A segunda: “os litígios das nações cultas serão resolvidos somente pela diplomacia, sendo, portanto, banidas das mesmas para sempre as guerras, essas calamidades em que os povos civilizados se assemelham aos mais bárbaros povos…”. Um século depois, não só a pena de morte não foi abolida como as nações cultas se entregaram a duas guerras mundiais, a primeira delas poucos anos depois destas previsões terem sido escritas.

 

Quais são as possibilidades? Essa é a questão fundamental. Continuar a ler ‘Não é prever, mas fazer.’