Tenho à minha frente um exemplar do “Novo Almanach de Lembranças Luso Brasileiro” para o ano de 1903. Entre poemas, divertimentos e textos de divulgação — enviados de Belém do Pará, de Portimão ou da Ilha Brava, Cabo Verde — encontro um curioso artigo sobre “O século que findou e o novo século”. Listam-se nele as conquistas do século XIX: a locomotiva, o telegrafo, a fotografia, o fonógrafo — e, com grande ênfase, a abolição da escravatura. Depois vêm as previsões para o século XX, de que se destacam duas. A primeira: “ é de esperar que todos os povos que gozam os benefícios da civilização tenham completamente abolido a pena de morte”. A segunda: “os litígios das nações cultas serão resolvidos somente pela diplomacia, sendo, portanto, banidas das mesmas para sempre as guerras, essas calamidades em que os povos civilizados se assemelham aos mais bárbaros povos…”. Um século depois, não só a pena de morte não foi abolida como as nações cultas se entregaram a duas guerras mundiais, a primeira delas poucos anos depois destas previsões terem sido escritas.

 

Quais são as possibilidades? Essa é a questão fundamental. Prever o futuro deixa-nos na posição passiva de esperar pelo que vai acontecer — na medida em que trata o futuro como apenas uma coisa que nos vai acontecer, mais do que uma coisa em que nós aconteceremos. Especular sobre as possibilidades futuras é diferente e, em certo sentido, mais importante. Não só “prepara a mente para o acaso” (Pasteur) como nos coloca perante a necessidade de agir para que algo aconteça — ou não aconteça.

 

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A bifurcação que temos à frente não é difícil de descrever. A percepção geral é de que lutamos entre nós por uma fatia cada vez mais reduzida do bolo geral. Essa imagem será dominante em fase de recessão, como é compreensível, e aumentará os antagonismos latentes entre sociedade e mercado, estado e sociedade, entre sectores diferentes da sociedade e até entre gerações de uma mesma população. Essa bifurcação é também política. Para decidir como dividir uma fatia pequena há opções mais autoritárias e mais democráticas. O aumento dos antagonismos, e a ocorrência de conflitos sociais, vai colocar a sociedade perante uma escolha: a “eficácia” das soluções mais autoritárias contra a justiça das soluções mais democráticas.

 

Realista ou não, essa ideia virá sobreposta ao receio geral de que depois da prosperidade do pós-guerra o Ocidente se prepara para dar uma pior vida às novas gerações. E em Portugal conhecemos bem do que se trata; com excepção dos anos 90, regressamos à nossa situação de base.

 

Durante a maior parte do século XX tínhamos recursos escassos, mas não tínhamos democracia — e quando tivemos democracia o mercado era a ferramenta dominante de distribuição dos recursos. Estamos pois numa situação relativamente nova. A escassez de recursos é previsível mas as escolhas sobre o que se fazer com eles terão de se dar ao nível democrático.

 

No próximo ano teremos uma recessão e três eleições, nas quais se colocam uma escolha. Por um lado, trazer mais justiça à distribuição dos nossos recursos pela sociedade. Pelo outro, prolongar as nossas injustiças decidindo com eficácia a favor de quem já era beneficiado. A primeira opção é bem mais difícil do que a segunda. A dificuldade não está em prever, mas em fazer.

One thought to “Não é prever, mas fazer.”

  • Paula Spranger

    Muito giro, o ‘almanach’, deve ter alguns tesouros. É tudo bastante cíclico, não é? Provavelmente na passagem de século anterior, haveria previsões igualmente idealistas para o novo século que se aproximava. Mas afinal, a mudança de século, como a passagem do ano, é só mais uma noite que passa, não tem um efeito real, só simbólico. Parece-me. As coisas vão mudando, porque se esgotam, porque surgem outras novas, ou porque meia dúzia de bons oradores consegue realmente levar um povo atrás de si.. Há quem diga que mesmo assim a humanidade evolui, será?

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