Arquivo mensal para Novembro, 2008

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Dos comentários

Sabe que gosto muito de si Rui e é por isso o título “a cruel verdade” me suscita a pergunta: porque não retoma o tema, que o trazia tão entusiasmado na própria noite das eleições americanas a propósito do referendo na Califórnia, do casamento gay? Faço votos de que seja porque percebeu que se trata de tema irrelevante e mesmo ridículo, mas não deixaria de ser interessante vê-lo falar sobre uma desilusão neste contexto em que, lamento dizê-lo, está tão ilusionado sobre as vurtualidades da sua “grelha de análise da realidade”.

Bem, eu nunca fiz previsões sobre o referendo na Califórnia e se tivesse feito era para o casamento gay perder. Para ser sincero, acho que perdeu por pouco. As pessoas esquecem-se que só se fala deste tema há menos de uma década, depois de milénios em que um homem casar com outro homem (principalmente isto) era a própria imagem do mundo ao contrário. O que disse na noite eleitoral na SIC-N quando fui o primeiro a declarar que Obama ia ganhar as eleições, ponto final, foi que faltava saber a dimensão da vitória no senado (pelo menos 57 senadores em 100) e os resultados na Califórnia, que não eram importantes do ponto de vista eleitoral mas como barómetro cultural nada irrelevante nem ridículo. Mantenho.

Já agora, aproveito para dizer que sou contra o referendo neste caso. Estou à vontade, porque fui sempre a favor do referendo do aborto, apesar de isso ter dificultado a mudança no sentido em que eu pretendia (e muitos dos meus amigos de esquerda serem contra).

A diferença está nisto. No caso do feto, há uma decisão a tomar sobre o estatuto de um terceiro, ou de um potencial terceiro, cuja configuração é ambígua por parte da sociedade. É parte da mãe? É um ser autónomo? Se sim, merece a protecção jurídica da sua existência? Creio que faz sentido entender o que a maioria das pessoas pensam sobre isto, e que isso se entende indirectamente através do referendo.

Quanto ao casamento gay, não há tal ambiguidade. Trata-se de duas pessoas adultas e livres. A única razão para lhes negar o direito de casarem com quem amam é considerar que se tratam de cidadãos de segunda. Foi isso que ocorreu em tempos. Hoje vivemos nos resquícios desse tempo, mas sem qualquer sustentação legal, política ou científica que justifique tal posição. Pelo contrário, é aberrante a todos a ideia de que um gay seja um cidadão de segunda. Não sei então como poderemos ter as maiorias a decidir o que podem ou não fazer cidadãos na plena posse dos seus direitos que não prejudicam a liberdade de outrem. Não vou referendar o meu casamento, não vejo por que os meus concidadãos gay terão de passar por isso.

A cruel verdade

Para ficar apenas em território nacional, a cruel verdade é esta: ficaria muito mal informado sobre o que se estava a passar nos EUA quem lesse em exclusivo Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Alberto Gonçalves, João Miranda ou ouvisse (por exemplo) Nuno Rogeiro. Por outro lado, ficaria bem informado quem lesse o João Rodrigues, o Carlos Santos, o Pedro Magalhães, o Pedro Sales, o João Galamba ou a Palmira Silva (há outros, claro, só não ponho o João Pinto e Castro porque ele apostou um jantar comigo no resultado das eleições e perdeu).

Não precisam de acreditar em mim. Façam a experiência: em alguns casos ficarão a saber de factos e tendências que só semanas ou meses depois encontrarão na imprensa de referência estrangeira. Por outro lado, que apenas um destes nomes tenha pouso regular na imprensa nacional diz-nos muito sobre as razões da famosa crise dos jornais.

Deve-e-haver

No Financial Times de hoje: “Obama can be a Roosevelt and not a Carter“.

No New York Times, artigo do Prémio Nobel da Economia Paul Krugman: “Franklin Delano Obama?“.

Na New Yorker: “As Roosevelt did with the New Deal, Obama has represented different versions of moral leadership to different groups of voters“.

Vale a pena ler qualquer dos três artigos (ainda vou a meio no da New Yorker). Poderia ainda acrescentar este, da secção de negócios do NYT: “75 Years Later, a Nation Hopes for Another F.D.R.“.

A questão é mais de confirmação do que de seguidismo. A minha crónica sobre este assunto (“Roosevelt contra Roosevelt“) é de Agosto, antes do colapso financeiro. Nela descrevia-me como “obamaníaco” precisamente para dar ao leitor espaço de recuo, como quem diz: não podem contar com a minha imparcialidade, mas podem contar com a leitura mais atenta que eu consiga fazer. Acho que foi uma boa promessa. Desde o início, apoiei os candidatos anti-guerra (mais Edwards do que Obama, até) mas desejando que um desistisse para que o outro vencesse as primárias. Achei que Hillary não ganharia as primárias (nem as gerais, mas não temos maneira de confirmar isso), nem mesmo após o escândalo Wright. No meio do Verão, quando McCain ultrapassou Obama em algumas sondagens, disse que a nomeação de Sarah Palin destruiria o que restava da campanha republicana (foi a verdade; Sarah Palin puxou McCain para baixo nas sondagens junto de independentes; todos os jornais de referência, incluindo conservadores, que apoiaram Obama citaram a escolha de Palin como momento decisivo). E, antes da falência da Lehman Brothers e do Pacote Paulson, disse que o susto ia fazer os americanos lembrarem-se da Grande Depressão e procurar por um Roosevelt (não um Kennedy nem um Martin Luther King, que eram as comparações correntes que se faziam em relação a Obama).

Na minha crónica de hoje (que estará aqui mais tarde) pergunto como podem os obamacépticos querer comentar as ilusões dos outros quando não fizeram o seu trabalho de casa, nem antes nem depois das eleições. Quem os lesse não saberia nada sobre a crise financeira, julgaria que ela não teria hipótese de contaminar a economia real, consideraria que Sarah Palin foi uma boa escolha por John McCain (não foi; nem sequer em termos oportunistas). Quem subestimou Obama até agora, com a importância que ele já teve e tem, deseja que continuemos a subestimar Obama depois das eleições. Pode ser que até venham a ter razão. Mas que provas de confiança nos podem dar, quando nem sequer sabem fazer o seu deve-e-haver dos últimos meses?

Parem as máquinas

Morreu Miriam Makeba, após um concerto.

Pedro Magalhães um – Alberto Gonçalves menos que zero

Aqui:

Segundo Alberto Gonçalves, “Obama concentrou na quase totalidade o voto preto, avalanche que nem a tradicional predilecção das minorias pelo partido democrático justifica. Com a eleição de Obama, insusceptível de repetição noutra democracia, o racismo dos brancos americanos tornou-se, pelo menos oficialmente, uma memória triste. O racismo dos pretos americanos é, se calhar, uma questão actual. A que não convém aludir.

Suponho que isto quer dizer que o facto de John Kerry ter captado “apenas” 88% do voto dos negros que participaram na eleição em 2004 e Obama ter captado 95% do mesmo voto em 2008 deverá ser visto como expressão do “racismo dos pretos americanos”. Nem imagino como Alberto Gonçalves interpretará o facto de, em 2008, 62% do voto asiático ter ido para Obama, contra 56% do mesmo voto para Kerry em 2004. Ou o facto de 67% do voto hispânico ter ido para Obama, contra apenas 53% do mesmo voto ter ido para Kerry em 2004. Só pode ser, claro, o anti-branquismo dos castanhos e dos amarelos. Realmente, sobre questões de “raça” e voto, não tem sido fácil dar uma para a caixa.

Adenda — Ainda há isto: “Barack Obama performed 9 points better than John Kerry among urban whites“. É o terrível racismo anti-branco dos brancos urbanos…

Ganhar o centro, não ao centro

Saída de Grant Park, Chicago, na noite da eleição 2008

Saída de Grant Park, Chicago, na noite da eleição 2008

Como numa balança, há momentos em que a política bascula. São o resultado de processos longos mas não só. A sociedade americana vem mudando demográfica e culturalmente. O racismo já não tem tanta importância e este foi um processo longo. Mas há também uma nova geração menos religiosa, mais educada e mais tecnológica. A sua entrada na política foi rápida e decisiva.

Não foi só a demografia americana que mudou. Foi antes o eleitorado que foi mudado – por um discurso novo.

Nos próximos dias esperam-se as opiniões de quem apoiou Bush para lá do razoável, achou que McCain era um candidato inovador, que Palin foi uma escolha brilhante (e que a Guerra do Iraque ia durar pouco, e que a bolha financeira não ia alastrar para a economia real, e, e — a lista poderia continuar). Como se vê, não têm acertado muito. Mas tentarão mais uma vez convencer-nos de que a opinião convencional é a opinião “responsável”, que Obama ganhou ao centro, que pouca coisa vai mudar, e de que o que sucedeu não obriga a repensar o panorama político.

De passagem, farão a concessão de que foi um dia histórico, principalmente por causa da cor de pele de Obama. Infelizmente, trata-se de gente que não reconheceria um dia histórico nem que este lhe caísse em cima da cabeça. O mundo da opinião convencional é como uma bolha, onde se dá a mesma credibilidade a um discurso absurdo e a um discurso articulado, à mentira como à verdade. Pode ser “centrista” mas não é realista, porque a realidade não é 50/50. E este dia foi histórico por muito mais razões do que pela cor de pele de Obama. Dou dois exemplos.

Os republicanos têm uma base homogénea mas que se tornou minoritária. Vão passar por uma travessia no deserto até conseguirem crescer para lá da sua bolha branca e conservadora. A coligação de minorias dos democratas (minorias étnicas e raciais, gays e operários, gente sem seguro de saúde e empresários de Sillicon Valley) tornou-se a maioria.

Como? Através de uma coisa que vemos raramente em política. Barack Obama convenceu essas várias minorias, através de um novo discurso político que teve em conta os imperativos morais do progressismo americano clássico, que estavam todas juntas no mesmo barco. A raiz do seu talento político está aí.

Segundo ponto: é preciso distinguir “ganhar o centro” de “ganhar ao centro”. Sem ganhar o centro não se ganham eleições. Mas a estratégia para conquistar o centro não tem de ser jogar ao centro. É antes, convencê-lo de que as ideias do “nosso” lado fazem mais sentido do que as do outro. Reagan conseguiu fazê-lo e, no seu tempo, o centro aliou-se à direita. Ontem o centro aliou-se à esquerda e deixou a direita isolada. Os efeitos dessa mudança vão sentir-se durante muito tempo.

Fotos da festa: quando yes we can se transformou em yes we did

Mais aqui.

A bolha convencional

Nos próximos dias esperam-se as opiniões de quem já tinha visto isto tudo há muito tempo, apesar de terem apoiado Bush para lá do razoável, de terem prognosticado que Mitt Romney ia vencer, que Hillary Clinton tinha o partido na mão, que John McCain era um candidato fabuloso, que Sarah Palin foi uma escolha brilhante (e que a Guerra do Iraque ia durar pouco, e que a bolha financeira não ia alastrar para a economia real, e, e — a lista poderia continuar). Como têm acertado muitas vezes nos últimos anos, tentarão convencer-nos de que a opinião convencional é a opinião “responsável”, que Obama ganhou ao centro, que pouca coisa vai mudar, e de que o que sucedeu não obriga a nenhum repensar do panorama político.

De passagem, farão a concessão de que foi um dia histórico, principalmente por causa da cor de pele de Obama. Infelizmente, trata-se de gente que não reconheceriam um dia histórico nem que este lhes caísse em cima da cabeça. O mundo da opinião convencional é como uma bolha, feita de triangulações e bissectrizes e medianas, como se fosse preciso dar a mesma credibilidade a um discurso absurdo como a um discurso articulado, ao irrealismo como ao realismo, à mentira como à verdade. Foi (por exemplo) neste mundo, nesta bolha do pensamento convencional, que Sarah Palin foi levada a sério.

Mas a realidade não é 50/50. E este dia foi histórico por muito mais razões do que pela cor de pele de Obama. Dou dois exemplos.

Esta eleição marca o momento em que o eleitorado americano basculou. Os republicanos têm uma base homogénea, que se tornou minoritária, e vão passar por uma enorme travessia no deserto para arranjar maneira de crescer a partir daí, uma vez que alienaram tudo o que tinham à volta da sua própria bolha branca e conservadora. A coligação de minorias dos democratas (minorias étnicas e raciais, pobres e universitários, gays e operários, gente sem seguro de saúde e empresários de Sillicon Valley) tornou-se uma maioria.

Como se tornou uma maioria? Através de uma coisa que vemos raramente em política. Barack Obama conseguiu convencer essas várias minorias, através de um novo discurso político que tivesse em conta os imperativos morais do progressismo americano clássico, que estavam todos juntos no mesmo barco. A raiz do seu talento político está aí.

Segundo ponto: é preciso distinguir “ganhar o centro” de “ganhar ao centro”. Sem ganhar o centro não se ganham eleições. Mas a estratégia não tem de ser forçosamente jogando ao centro.

(sem mais bateria no computador, voltarei a este ponto mais tarde).

Os miúdos do bairro

 

Eis o memorial a que me refiro na crónica de hoje, no Público, relembrando os jovens assassinados por guerras de gangues, balas perdidas e uso generalizado de armas de fogo nas wild-wild hundreds do South SIde de Chicago.

A imprensa anda atrás dos blogs

A imprensa, a televisão e a rádio tradicionais não reconheceriam um dia histórico nem que ele lhes caísse em cima. Depois admiram-se por estarem em crise.