Arquivo mensal para October, 2008

Chicago – primeiras fotos

Uma selecção de fotos do primeiro dia aqui. A galeria será actualizada.

Na minha página do flickr irei também acrescentando fotos.

E quando puder irei postando algumas aqui.

Chicago – primeiras notas

O South Side de Chicago é a zona pobre — e negra — da cidade. Foi para aqui que Barack Obama veio trabalhar em meados dos anos oitenta como um misto de animador cultural e assistente social. Era um bicho estranho: ao contrário da maioria dos habitantes destes bairros, Obama não é descendente de escravos, foi criado pelos seus avôs brancos, era um intelectual que passados três anos saiu para fazer o seu doutoramento em Harvard. Aos olhos dos seus compatriotas, contudo, ele era “mais um negro” — e é o próprio a contar nos seus livros que veio para aqui entender o que isso queria dizer.

Mas para compreender a carreira política de Barack Obama temos de vir para outro bairro — Hyde Park — para onde ele se mudou quando regressou a Chicago, e onde ainda vive hoje. Embora tecnicamente parte do South Side, é um bairro onde vive a classe média negra da cidade e alguma classe média branca. É o bairro onde moram muitos dos seus ex-colegas da Universidade de Chicago. E é o bairro onde ele começou a encontrar aliados para uma carreira política, — não só gente que votasse nele, mas que financiasse as campanhas sem as quais a política americana não existe.

O atractivo eleitoral de Obama era este: o candidato em quem os negros confiavam e de que os brancos não desconfiavam — ou será ao contrário? O candidato que tinha trabalhado no bairro pobre e na universidade. O Partido Democrático adorou esta história de dupla personalidade.

Para os republicanos isto é sinal de duplicidade. Para eles, Obama é como a história de Dr. Jekyll ou Mr. Hide. Em nenhum dos casos é de confiança: afinal trata-se de um Mr. South Side, populista e casado com uma negra radical — ou de um Dr. Hyde Park, intelectual de esquerda e elitista?

Na ponta final

[Encalhado no aeroporto de Newark.]

O que se faz quando se está desesperado? Diz-se que o adversário quer ensinar educação sexual a criancinhas. E mesmo desesperado? Diz-se que ele gosta de acamaradar com terroristas. E mesmo mesmo muito desesperado? Diz-se que ele é socialista.

Esta eleição americana vai ao menos contribuir para tirar toda a força aos maiores tabus do léxico político americano.

Entretanto, uma senadora republicana, Elizabeth Dole, acusa a sua adversária de ser ateia. A adversária defende-se dizendo que é presbiteriana. Podia ao menos dizer que é muçulmana.

Saber explicar não chega

 

Em cada crise há sempre uma boa dose de experimentação, que nem sempre é honestamente assumida pelos políticos

 

Se o meu optimismo dá assim tanto azar, talvez eu seja a última esperança de McCain ganhar as eleições. Alguma direita deve ter achado que, pelo menos, não custa tentar. Vai daí, fui convidado no outro dia para um debate com Jaime Nogueira Pinto e Bernardo Pires de Lima (são duas pessoas diferentes, é claro, e não uma pessoa de direita com seis nomes) que de forma astuciosamente simpática tentaram levar-me a dizer as coisas mais entusiastas sobre Obama. Perguntaram-me uma vez sobre “a paixão da esquerda europeia por Obama”. Perguntaram-me uma segunda vez. Antes que me perguntassem uma terceira vez, percebi: a direita europeia está com ciúmes. Continuar a ler ‘Saber explicar não chega’

O pé-frio

 

Barack Obama: como candidato, a guerra do Iraque o fez nascer, a crise económica o consolidou. E não, não foi por ele ser negro.

 

Final do campeonato europeu de futebol, 2000. A poucos segundos de acabar o jogo, a Itália vence a França por 1-0. Com pressa para sair de casa e desejando felicitar o meu casal luso-italiano favorito, faço imediatamente uma chamada telefónica. Quando atenderam do outro lado ouço uma série de palavrões em italiano. A França acabara de empatar o jogo. No prolongamento em sistema de morte súbita, a França marcou mais um golo e sagrou-se campeã europeia.

 

O ocorrido consolidou a minha fama de optimista que dá azar, aquilo a que os brasileiros chamam “pé-frio”. A Valeria Pansini, uma doutorada em História da Ciência, acredita até hoje que a Itália perdeu a taça por minha culpa.

 

Neste contexto surpersticioso, tenho amigos que se arrepiaram sempre que eu aqui apostei na vitória de Barack Obama Continuar a ler ‘O pé-frio’

É pr’amanhã [act: pra hoje]

Jugular

Tenho no Jugular, um blogue novo cheio de gente esperta, um monte de amigos que fiz no 5dias. O Jugular já é uma das minhas leituras diárias mas ainda não tinha tido tempo para lhes desejar as boas vindas. Espero que a Fernanda, o João Galamba, o João Pinto e Castro, a Ana Matos Pires e a Maria João Pires — assim como as aquisições novas, o Miguel Vale de Almeida, a Maria João Guardão — se divirtam a fazer este novo blogue (e espero que haja uns jantares em breve para eu poder ir!). Um abraço a todos e boa sorte.

A bolha da China

Nos últimos anos transferimos grande parte da capacidade produtiva mundial para um regime que parece estável mas que é sobretudo opaco. 

 

Novidades velhas: a bolha americana, a crise chega à Europa. Mas quem quiser mesmo viver ansioso deve começar já a preocupar-se com a bolha da China.

 

Um economista de direita, Tyler Cowen, descreveu há tempos dois cenários para o futuro desta crise. O optimista: dois anos de recessão. O pessimista: dez anos de depressão global. Na verdade, deveríamos chamar-lhes o “cenário mau” e o “cenário muito mau”. E mesmo o cenário muito mau poderia transformar-se em cenário péssimo — Continuar a ler ‘A bolha da China’

Ideias em tempo de crise

A esquerda e o centro-esquerda estão mais próximos agora do que alguma vez estiveram nas últimas décadas.

Já estou habituado a nunca ter lido nada do prémio Nobel da literatura quando ele é anunciado. Invulgar é ter lido neste Verão o último livro do nobel da Economia.

The conscience of a liberal, de Paul Krugman (em português uma tradução seria “Uma consciência de esquerda”) é um ensaio sobre história política e as suas consequências económicas e sociais. A certa altura do seu livro, Krugman convida-nos a levar a sério algumas das políticas que F.D. Roosevelt seguiu para fazer face à Grande Depressão: “enormes aumentos de impostos sobre os ricos, apoio a uma vasta expansão do poder dos sindicatos e um período de controlo dos salários para diminuir as diferenças entre extremos”, entre outras. Não duvido que para um leitor de direita esta seja uma visão do inferno. Para Krugman, aquelas medidas “igualitárias” foram as grandes responsáveis por uma sociedade preparada para crescer e dar conforto a milhões de pessoas nos anos 50 e 60.

O reverso da história é também conhecido. Continuar a ler ‘Ideias em tempo de crise’

É preciso ter lata

Jamais se poderá abolir a ganância. Podemos no máximo taxá-la com um imposto fortemente progressivo.

Não tenho qualquer razão para defender os executivos, mas não — a culpa da crise não está na “ganância dos executivos”. Os executivos não são mais gananciosos do que qualquer outra pessoa em circunstâncias semelhantes. As suas empresas agem no interior de um sistema legal. Quem fez as leis ou — mais exactamente — quem revogou as leis que nos protegiam? Políticos. Quem elegeu os políticos? Nós. Quem convenceu a maioria dos eleitores de que regular o mercado era indesejável? Os mesmos que agora querem pôr as culpas na “ganância dos executivos”. Por sinal, os mesmos que durante anos proclamaram (por outras palavras) que a “ganância dos executivos” iria resultar na prosperidade de todos.

Já ouviram algum deles dizer “andei nos últimos anos a defender ideias que agora se revelaram desastrosas”? Bem me parecia. Continuar a ler ‘É preciso ter lata’