Jamais se poderá abolir a ganância. Podemos no máximo taxá-la com um imposto fortemente progressivo.

Não tenho qualquer razão para defender os executivos, mas não — a culpa da crise não está na “ganância dos executivos”. Os executivos não são mais gananciosos do que qualquer outra pessoa em circunstâncias semelhantes. As suas empresas agem no interior de um sistema legal. Quem fez as leis ou — mais exactamente — quem revogou as leis que nos protegiam? Políticos. Quem elegeu os políticos? Nós. Quem convenceu a maioria dos eleitores de que regular o mercado era indesejável? Os mesmos que agora querem pôr as culpas na “ganância dos executivos”. Por sinal, os mesmos que durante anos proclamaram (por outras palavras) que a “ganância dos executivos” iria resultar na prosperidade de todos.

Já ouviram algum deles dizer “andei nos últimos anos a defender ideias que agora se revelaram desastrosas”? Bem me parecia. Falar da “ganância” é fácil e inconsequente, porque jamais se poderá abolir a ganância. Podemos no máximo taxá-la com um imposto fortemente progressivo. Isso é que era falar.

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Em Portugal tivemos o nosso mini-escândalo do BCP. Há uma eternidade foi noticiado que os seus administradores andavam a — parafraseio o Wall Street Journal — forrar os bolsos com o dinheiro dos accionistas. A nossa opinião publicada não achou que fosse um sintoma preocupante. Mas era. Se a administração do BCP era opaca aos seus próprios accionistas, que mais poderia ela fazer? Um monte de coisas, entre as quais (suspeita-se) comprar as suas próprias acções com recurso a empresas fictícias sedeadas em paraísos fiscais.

Isto pode ser crime, mas também pode ser que nunca se venha a saber, porque os paraísos fiscais acrescentam mais uma camada de opacidade. E eu não quero que me digam que é um escândalo e que é muito chato. Quero que me digam se são a favor de abolir os paraísos fiscais, e se agora acham que tinham razão aqueles que à escala global nos últimos anos defenderam a abolição dos paraísos fiscais.

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Os vencimentos dos executivos podem ser um sintoma, mas também são uma causa de muitos dos problemas que agora vivemos. Não vale a pena lamentar que os gestores tenham corrido riscos elevados pelos lucros de curto prazo quando permitimos que os seus incentivos fossem todos para fazer isso mesmo. Há muito tempo que se defende uma solução fácil: indexar os incentivos aos resultados de médio e longo prazo, para desmotivar a prática de embarcar em estratégias suicidas e deixar a batata quente ao sucessor.

A convencionalíssima opinião publicada em Portugal, contudo, não quis ir por aí. Deu-nos antes a convencional opinião de que isto eram matérias do “foro interno” das empresas — em que nem o estado nem a sociedade poderiam meter o bedelho. É nossa sina ter de ficar a defender o dogma da moda quando já ninguém acredita nele. Quando o Presidente da República falou nos vencimentos dos executivos foi atacado pelos seus próprios apoiantes como — tenho aqui os recortes em casa — “populista”, “demagogo” e “de esquerda”.

E agora, sem dar o mínimo sinal de que entendem finalmente o problema, muitos dos mesmos vêm repreender a esquerda por ter falado no casamento “gay” quando há uma crise financeira à escala global. Desculpem lá, mas onde estiveram vocês enquanto a crise nascia?

[do Público]

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