‘Pequenos milagres democráticos’

O meu pai nasceu em 1929, já em ditadura. Cresceu numa aldeia do Ribatejo, ditadura. Veio a Guerra Civil de Espanha, havia refugiados do país vizinho pelos campos, “comiam até o musgo das paredes, com a fome que tinham” dizia-me ele de vez em quando. Depois a IIª Guerra Mundial, o racionamento, e as irmãs dele — minhas tias — adoeceram gravemente — “entuberculisaram”, como se diz na Arrifana. O pai do meu pai morreu, e era ainda ditadura. O meu pai namorou e desfez-se o namoro, casou e teve filhos e enviuvou, e casou de novo com a primeira namorada e teve mais filhos e, em todo este tempo, era sempre, sempre, sempre a mesma ditadura. (Talvez eu já tenha contado aqui esta história; honestamente não estou certo se o fiz ou não. Para mim é como uma oração familiar.) Só quando o meu pai tinha já cinco filhos e quarenta e cinco anos que viu a democracia pela primeira vez. Poucos depois do 25 de abril viu em Lisboa, numa manifestação, um velhinho que chorava copiosamente num dos passeios da Almirante Reis, enquanto via a multidão subir a avenida. “Achei que já não chegava a ver este dia”, disse-lhe o homem. Um ano depois o meu pai, e espero que aquele homem também, votaram pela primeira vez numas eleições livres e justas.

Read more
Esclarecedor para quem observar

As campanhas presidenciais portuguesas são sempre estranhas. Não se votando para um executivo, ou seja, para decisões, programas, medidas, a coisa toma um de dois caminhos: ou se fala do entendimento dos poderes presidenciais em termos vagos; ou se fala da história pessoal dos candidatos. Ou seja: ou é metafísica ou é não-gosto-deste-gajo. Isto, curiosamente, faz sentido. Para presidente escolhemos quem saiba duas coisas: interpretar e representar. Escolhemos uma interpretação da separação dos poderes e da república, ou seja, uma interpretação da constituição. E escolhemos uma pessoa que nos represente a todos, e faz sentido avaliar o seu caráter e a sua história, coisas altamente subjetivas. Foi a campanha esclarecedora? Sempre — para quem observar; para quem se informar. Para mim foi esclarecedor rever Cavaco. Para mim, Cavaco é um mau interprete da democracia e da República com as suas desvalorizações da palavra e da diferença. E acho-o um símbolo da hipocrisia nacional, da sisudez travestida, do autoritarismo que eu não gostaria que nos representassem. Mas que se calhar representam, e eu democraticamente aceitarei. Mas até lá é isto: não gosto da metafísica de Cavaco, se é que a tem. E não sou fã do homem. Direitos de um eleitor como qualquer outro. Publicado no Jornal Público no dia 20 de Janeiro de 2011

Read more
O candidato Cavaco tem de nascer outra vez

Dizer que Cavaco é menos sério do que ele pensa parecer é falhar o alvo por baixo. Cavaco é, como revelado pelas últimas semanas, ainda menos sério do que aquilo que eu pensava que ele era — e Cavaco nunca me enganou. Os casos do BPN e da casa na Urbanização da Coelha já são suficientemente graves. Em qualquer país do mundo estes casos seriam escrutinados até ao fim. O BPN, em particular, arrisca-se a custar ao país aquilo que cada cidadãos tem de sacrificar através de dolorosos cortes nos salários e aumentos de impostos. Não me parece que se possa dispensar de explicações qualquer pessoa que tenha tido com este banco, sem pestanejar, lucros que estão para lá dos mais deliciosos sonhos dos clientes de Madoff.

Read more
‘Wikileaks 1 – NATO 0’

A “sabedoria convencional” — noção tão útil quanto saborosa concebida pelo economista John Kenneth Galbraith — necessita daquele adjetivo por esta razão: é principalmente convencional e não sabedoria. Se fosse sabedoria diríamos dela apenas que é sábia. Ao qualificá-la de convencional explicamos que ela parece sabedoria pelo seu aspecto formal, admitido e, em certa medida insincero ou até mesmo fajuto: pseudo-sabedoria.

Read more
O que interessa e não interessa em Estrasburgo

Estamos em semana de sessão plenária em Estrasburgo e comecei com uma intervenção pedindo a exclusão do debate referente a Cesare Battisti agendado para quinta-feira. Estes debates de quinta-feira são chamados de “debates de urgência” e tratam de assuntos prementes de violação de Direitos Humanos. São debates cruciais que antecedem votações importantíssimas do Parlamento Europeu, que daqui emite declarações em nome de todos os cidadãos sobre diversos tipos de abusos e catástrofes humanas. O problema é que o caso Battisti não é um caso de Direitos Humanos e rouba tempo que podia ser usado em assuntos verdadeiramente urgentes. Battisti é um italiano acusado pelos tribunais do seu país de actos terroristas nos anos 70, quando fazia parte dos Proletari Armati per il Comunismo. A acusação refere-se a vários assassinatos. (E deixem-me deixar bem claro que eu repudio qualquer tipo de violência política, da esquerda ou da direita.) Os outros problemas com o debate de quinta-feira sobre Battisti são maiores ainda porque ele está neste momento preso no Brasil, sem qualquer possibilidade de fuga; porque o Brasil está em férias judiciais; porque fazer uma resolução do PE sobre ele seria um insulto à recém-eleita Dilma Rousseff; porque este é um assunto bi-lateral entre o Brasil e a Itália e até o Conselho Europeu recusou uma proposta semelhante de Berlusconi. E, volto a dizer, é uma enorme perda de tempo, quando temos coisas muito mais importantes para tratar. Fiz hoje a intervenção, mas o Parlamento rejeitou em votação excluir o caso dos debates. Aqui fica o que eu disse: “Alguns colegas tomaram a iniciativa de colocar uma resolução urgente sobre a recusa do Brasil de extraditar Cesare Battisti para a Itália na agenda de debates desta semana. Eu entendo as suas intenções, mas este não é um caso de Direitos Humanos, não é um caso urgente e não é sequer uma violação da regra da jurisprudência. A sua oportunidade é também inapropriada, vinda num momento em que o Brasil enfrenta a pior catástrofe natural de sua história. Battisti está preso à espera de uma decisão do Supremo Tribunal Federal e não há razão para acreditar que não haverá uma decisão judicial independente. E devo dizer que me solidarizo com as famílias das vítimas deste caso e que não tenho nenhuma simpatia por violência política, venha da esquerda ou da direita, e que abomino o terrorismo. O que devíamos estar a debater é a situação no Líbano, no sul do Sudão, o caso do prisioneiro de consciência indonésio Buchtar Tabuni ou o homem palestino assassinado em sua cama. Será que este Parlamento vai oferecer à Presidente Dilma Rousseff, na primeira vez após sua eleição, e por nenhuma boa razão formal, um tipo de debate que normalmente se reserva para pessoas como Robert Mugabe?”

Read more
Alegre

Os cartazes de Manuel Alegre nas ruas, há cinco anos, tinham apenas as palavras “Livre, justo, fraterno” — a descrição idealizada do país, tal como aparece desejada no preâmbulo da Constituição — redigido pelo próprio Manuel Alegre. Esta escolha era puro Manuel Alegre. Pelo gosto de palavras que eram belas, mas não apenas isso; concretas e mobilizadores. E sobretudo por que nenhum marqueteiro, nenhum diretor de campanha, o aconselharia jamais a fazer um cartaz assim, tão desformatado dos códigos publicitários. Manuel Alegre acreditava na palavra livre, na palavra justo, e na palavra fraterno — não um acreditar de fé, mas um acreditar de conhecer aquelas palavras por dentro e saber o que elas podem fazer. Teimosamente, insistiu. Teve vinte por cento.

Read more
Cavaco

A principal — talvez única — proclamação política de Cavaco Silva para esta campanha foi considerar que Portugal deveria abster-se de comentários sobre a situação política na Europa e a crise do Euro. Segundo ele, tais comentários seriam entendidos como “insultos” pelos investidores internacionais e deixar-nos-iam à mercê da retaliações destes — com juros mais altos sobre a nossa dívida. Silêncio contra segurança — eis o que nos propõe Cavaco.

Read more
O original pecado de Helena Matos

Helena Matos tem um historial de, em citações e interpretações de textos de outros, nunca conseguir ser fidedigna. Mesmo assim, como é que mesmo ela consegue ler a seguinte passagem de uma entrevista minha e nela descortinar “cumplicidade” com alguns dos piores facínoras da esquerda. A passagem, nesta entrevista à Pública, é esta: «A família é a esquerda, o que quer dizer que quem é de esquerda é meu primo de uma maneira ou de outra. Isto foi muito mal entendido quando disse que é a mesma família do Sócrates. Eu sou de esquerda e ele é de centro-esquerda. Não tenho de gostar dos meus primos todos, há primos que fazem coisas muito erradas, há primos que defendem a Coreia do Norte. Não pago dívidas pelas dívidas dos meus primos, os erros dos meus primos são erros dos meus primos. Mas são pessoas que se reclamam da esquerda. Não posso dizer que só é da esquerda quem é como eu sou. As espécies: sociais-democratas, republicanos clássicos, mutualistas, libertários de esquerda, marxistas, não marxistas. E podem coexistir muitos bichos.»

Read more
Um saco de mágoa

Se houver abuso de algum destes dados, não pensem que a lei americana nos protege, uma vez que o Privacy Act só protege cidadãos americanos e residentes nos EUA. Já não me lembro de há quanto tempo não escrevo uma crónica minimamente otimista. E, acreditem, isso não é melhor para mim do que para vocês. Mas se o otimismo se funda em saber que a sociedade tem recursos suficientes para superar os seus problemas, afunda-se quando vemos que passámos os últimos tempos a agravá-los. Três casos. 1. Dizer “isto é o regresso da censura” é, muitas vezes, uma hipérbole. Porém, o governo húngaro pretende implementar uma lei que é — e eu, por causa das coisas, quase nunca uso a expressão — o regresso da censura. Segundo esta lei a imprensa está sujeita a multas que vão até 700 mil euros — que terão de ser pagas antes de recurso aos tribunais, o suficiente para levar à falência a maioria dos títulos — por “falta de objetividade” ou “falta de equilíbrio” nos seus artigos. E quem decide o que é falta de equilíbrio? Uma comissão, nomeada por nove anos, cujos membros pertencem ao partido do governo. Em certos casos, esta comissão pode proibir programas ou ver artigos antes de publicação. É claro que um país com uma tal lei de imprensa não seria nunca admitido na União. Mas agora que está cá dentro, pode até presidir a ela, como é o caso da Hungria desde 1 de janeiro deste ano. 2. O ministro Rui Pereira negociou com os EUA um acordo para lhes ceder informações constantes dos nossos Bilhetes de Identidade, incluindo dados biométricos

Read more
Um ínfimo Portugal?

Aquilo que dei por mim a pensar é que se “um imenso Portugal” é o outro nome para o Brasil, qual é então o outro nome de Portugal? Uma nação já de si tão inventada que sabe as suas falas de cor? Diz Evaldo Cabral de Mello que só os portugueses são mais piegas do que os brasileiros. A prova, assinala, encontra-se à vista em qualquer aeroporto: para cada brasileiro que viaja, há outros cinco que se despedem, chorando. Quem tiver visto a despedida de Lula da Silva e a tomada de posse de Dilma Rousseff sabe que é assim: Lula chorou, Dilma chorou, e o povo na esplanada dos ministérios chorou também. Eu não vi, mas sei que foi assim. Evaldo Cabral de Mello é um dos maiores historiadores de língua portuguesa, não só em profundidade como em abrangência. A erudição, nos seus livros, é uma filigrana resistente; por detrás está uma alma ágil de ensaísta. Brasileiro de Pernambuco, é o representante e herdeiro de uma geração de ouro de intelectuais a que está ligado até familiarmente — Gylberto Freire e Manuel Bandeira eram seus primos, e João Cabral de Mello Neto seu irmão. Em Portugal recebeu um prémio pelo livro A Fronda dos Mazombos, de 1995, mas nem por isso é muito conhecido. No Brasil a presença deste velho diplomata, que não andou pelos departamentos universitários, é também discreta. O livro de Evaldo Cabral de Mello para que eu gostaria de chamar a atenção hoje é uma coleção de trinta e seis artigos e ensaios sobre história e historiografia publicado em 2002. A editora é a 34, de São Paulo, mas creio que se encontra nas livrarias portuguesas. Francamente, se pelo menos um de vós decidir comprar e ler esse livro, a primeira crónica do ano está ganha. O título é Um Imenso Portugal,

Read more
Skip to content