Manifesto: SOMOS SOLIDÁRIOS COM O POVO DA GRÉCIA

Todos os dias nos chegam imagens e notícias da Grécia e do povo grego em luta contra o cortejo de sacrifícios que lhe tem sido imposto. É clara, naquele país, a crescente fractura entre os cidadãos e o poder político, em torno da invocada necessidade de cada vez maiores sacrifícios para que a dívida seja paga e o défice orçamental reduzido. Acentuam-se a tensão e a violência, tornando ainda mais difícil o diálogo indispensável à procura de soluções mais justas e partilhadas para a situação existente. Avolumam-se o isolamento e a discriminação da Grécia, fortemente acentuados pelo discurso dominante dos principais dirigentes europeus e da comunicação social. A preocupação doméstica em sublinhar que “não somos a Grécia” é, no mínimo, chocante no seio da União Europeia, onde mais se esperaria compreensão e solidariedade e, sobretudo, desajustada quando se sabe que a crise não é só grega mas europeia. Face à agudização das tensões políticas e sociais na Grécia, os signatários apelam à solidariedade com o povo grego e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas. Lisboa, 15 de Fevereiro de 2012 (assinaturas:) Mário Soares Mário Ruivo Alfredo Caldeira Ana Gomes Ana Lúcia Amaral Anselmo Borges António de Almeida Santos António Reis Boaventura Sousa Santos Diana Andringa Eduardo Lourenço Isabel Allegro Isabel Moreira D. Januário Torgal Ferreira José Barata Moura José Castro Caldas José Manuel Pureza José Manuel Tengarrinha José Mattoso José Medeiros Ferreira José Reis José Soeiro Manuel Carvalho da Silva Maria de Jesus Barroso Soares Maria Eduarda Gonçalves Paula Gil Pedro Delgado Alves Rui Tavares Sandra Monteiro Simonetta Luz Afonso Vasco Lourenço Vítor Ramalho

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Sobre o vazio

Porque segredava Gaspar ao ministro alemão Schäuble? Porque precisou depois de negar a evidência do que disse, ao passo que o ministro alemão a negava de outra forma? Porque ficámos com a sensação de que naquela conversa-de-pé-de-orelha se discutiam coisas com mais importância e substância do que nas reuniões formais dos parlamentos e das cimeiras? Resposta: porque a política na União Europeia assenta num vazio. Três vazios, aliás: de linguagem, de representação e de eficácia. O governo da União Europeia não se chama governo, mas Comissão. A União Europeia tem leis, que têm força de lei, se aplicam como lei, e até têm precedência sobre as leis nacionais; todavia, não se chamam leis, mas sim diretivas e regulamentos. Essas leis são feitas num processo de “co-decisão” entre duas câmaras, mas há um problema:

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Crédulos e incrédulos

A linguagem vazia dos governantes, quando sentem necessidade de parecer que estão ao controle dos acontecimentos, acabou criando uma sociedade dividida entre crédulos de um lado e incrédulos do outro. Nessa sociedade as reações são sempre as mesmas independentemente dos factos. Seja como for, o crédulo acredita em tudo o que lhe dizem, o incrédulo não acredita em nada. O crédulo acreditou que Saddam tinha armas de destruição em massa e deixou que se fizesse uma guerra no Iraque por causa disso; o incrédulo não acreditou nos massacres do Ruanda, da Jugoslávia (ou quaisquer outros) e ficaria de braços cruzados à espera que Khadafi chacinasse a cidade de Benghazi. Ambos podem ser, portanto, perigosos à sua maneira.

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A voz das consoantes sem voz

Salvé, Vasco Graça Moura, insigne auctor que desafiaste o dictame do governo e reintroduziste a escripta antiga no teu Feudo Cultural de Belém! Povo português, imitai o exemplo deste Aristides Sousa Mendes das consoantes mudas, como lhe chamou o escriptor e traductor Jorge Palinhos. Salvai as sanctas letrinhas ameaçadas pela sanha accordatária. Mas ficai alerta, portugueses! As consoantes mudas são muitas mais do que julgais! O “c” de actual e o “p” de óptimo são apenas os últimos sobreviventes de um extermínio secular que lhes moveram os medonhos modernizadores da escripta. Há que salvar agora estas pobres victimas, até à septima geração.

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ACTA: o que é e como chumbá-lo no Parlamento Europeu

É preciso votar contra o Acordo Comercial Anti-Contrafacção e impedir o fim da privacidade online. Deixo aqui um PDF que desmonta o acordo e que mostra como ainda vamos todos a tempo de fazer com que não ele passe em sessão plenária no Parlamento Europeu: ANTI-ACTA. E um vídeo que resume bem o problema:

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Desengonçado

As derivas verdadeiramente graves começam sempre por coisas pequeninas, daquelas que se pergunta: “mas que importância tem isso”? E assim com esta questão dos feriados. Que importância tem isso? Pergunta-se. Afinal, é só o 1º de dezembro e o cinco de outubro. Afinal, o 1º de dezembro significa apenas a auto-determinação e o cinco de outubro significa apenas a república. São apenas ideias. E depois paramos para pensar que ideias são essas. Como pode um governo ignorar a auto-determinação sem a qual não seria governo e nem haveria país para governar? E como poderá algum presidente da república promulgar a supressão do dia da república sem a qual ele não existiria? Quem não respeita essas coisas pequeninas que são as ideias — as ideias que nos unem, as ideias que lhes dão existência, mesmo que eles não saibam — não é certo que respeite o resto.

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A liberdade de expressão em tempos de austeridade

Pedro Rosa Mendes vem a Bruxelas amanhã, numa sessão que organizei também com a presença da International Alliance of Journalists falar sobre os possíveis impactos da crise no pluralismo e na qualidade da democracia. A partir do seu caso recente, tentaremos perceber se esta é ainda uma questão teórica ou se já se tornou uma questão de sobrevivência. Pretendemos transmitir em direto este evento. Amanhã, ao meio-dia de Lisboa e uma da tarde de Bruxelas, a partir deste blogue.

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20?2

Por isso perguntamos: que trará 2012 para nós? E essa pergunta está errada: 2012 não nos traz nada, nós é que trouxemos até 2012 as coisas de que ele há-de ser feito. No início do último livro de Haruki Murakami, 1Q84, há uma personagem com pressa para chegar a um compromisso com horário certo, mas que está dentro de um táxi num engarrafamento de uma autoestrada perto de Tóquio, e que decide seguir a indicação do taxista para sair do carro, escapar por uma escada de incêndio, e apanhar um comboio da linha suburbana que passa debaixo daquele viaduto. Antes de dar início ao seu plano de emergência, porém, o taxista avisa-a de que ela está prestes a fazer “uma coisa fora do comum” — “É verdade ou não? As pessoas normalmente não descem pelas saídas de emergência das autoestradas, especialmente as mulheres”. “E depois de se fazer uma coisa assim, o aspecto ordinário das coisas muda um pouco. As coisas vão parecer diferentes do que pareciam antes”. A protagonista não liga, faz o que tem a fazer, segue a sua vida. Mas depois as coisas começam de facto a parecer diferentes.

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Uma aldeia

Ter uma aldeia é, no essencial, ser tido por uma aldeia. É ter sido feito pela aldeia e ter ficado propriedade dela, que ela reclamará sempre. Uma música de António Variações ,“Olhei p’ra trás”, marca o fim do tempo em que ser português era, quase sempre, vir de uma aldeia. É cantada na primeira pessoa e pode ser bem descrita como uma lista. A lista das coisas de que era feito Portugal até uns anos depois do fim do salazarismo. Uma lista de conquistas: “Já fiz exame da quarta classe,  já fiz a comunhão solene. P’ra pensar na vida já tenho idade. Mãe, quero ir ganhar dinheiro; Pai, quero ir para a cidade.” Uma lista de objetos: “mala nova na mão, feita de madeira e papelão”;

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