Ter uma aldeia é, no essencial, ser tido por uma aldeia. É ter sido feito pela aldeia e ter ficado propriedade dela, que ela reclamará sempre.

Uma música de António Variações ,“Olhei p’ra trás”, marca o fim do tempo em que ser português era, quase sempre, vir de uma aldeia.

É cantada na primeira pessoa e pode ser bem descrita como uma lista. A lista das coisas de que era feito Portugal até uns anos depois do fim do salazarismo.

Uma lista de conquistas: “Já fiz exame da quarta classe,  já fiz a comunhão solene. P’ra pensar na vida já tenho idade. Mãe, quero ir ganhar dinheiro; Pai, quero ir para a cidade.”

Uma lista de objetos: “mala nova na mão, feita de madeira e papelão”; “dentro, um fato de cotim — que era do meu irmão Delfim”; “os sapatos de lona e o diploma das minhas habilitações”; “o terço e um santinho e o meu livrinho de todas as orações”.

Uma lista de texturas e documentos: “camurcina de riscado, um guarda-pó, a cédula e uma certidão”; “e para o Senhor Coelho, que é merceeiro, vai uma carta de recomendação”.

Uma lista de medos: “umas ceroulas de flanela, para no frio me aquecer”; “e uma medalhinha de Santa Teresinha, que está benzidinha para dos males me proteger”.

Mostrei esta música à minha mãe; lembrou-lhe o tempo, nos anos 40, em que ela e uma prima sonhavam vir para a cidade e imaginavam pagar o quarto fazendo costura — mas interrompiam-se logo e diziam uma à outra “ah, é doideira nossa”. Ela acabou por vir e trazer os irmãos, que foram marçanos — a mesma profissão que António Variações, uma geração depois, ainda ambicionava alcançar através da carta de recomendação ao senhor Coelho, que era merceeiro.

Ter uma aldeia é, no essencial, ser tido por uma aldeia. É ter sido feito pela aldeia e ter ficado propriedade dela, que ela reclamará sempre.

O resto do mundo, aquilo a que António Variações chama só de “em frente” é o lugar onde há “o comboio, a cidade, o navio, e um avião”, mas é um “em frente” onde “não havia mais nada, não” — ter sido feito por uma aldeia é ter sempre o mundo como apenas a aldeia, e apenas muito grande.

Este ser a aldeia o mundo de alguém, e ser o mundo uma aldeia para alguém, é o contrário do provincianismo (que é, em geral, o sentimento das cidades pequenas); também não é o cosmopolitismo, ou seja, sentir-se no mundo como cidadão; mas é uma espécie de universalismo como aquele que se encontra no catolicismo do Padre António Vieira quando ele diz que tem “para nascer, Portugal” e “para morrer, o mundo todo”. No Brasil de Vieira, hoje só os índios têm aldeias; no resto da América espanhola, a palavra aldeia faz lembrar fábulas. Até em Portugal desaparecerão um dia as pessoas que têm uma aldeia. Ter uma aldeia é uma coisa de um outro mundo que já não se explica e que não se esquece.

Ter uma aldeia é ter querido sair da aldeia logo que possível; ter uma aldeia é, quando se volta, fazer uma viagem que os outros não fazem. É querer fugir de lá. É querer fugir para lá. Ter uma aldeia é quando se chega, reparar que já não está ali, porque foi arrancada, uma oliveira que não poderia estar em mais lugar nenhum. E é essa oliveira que foi arrancada saber que pode, quando quiser, a qualquer momento, porque ganhou esse direito, apertar-nos a garganta por dentro.

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