O Estado contra a solidariedade

A direita no poder quer que a sociedade se ocupe daquilo que o estado vai abandonando, mas apenas da forma que a própria direita deseja. Há uns tempos, Pedro Passos Coelho, na esteira do inglês David Cameron, ainda ensaiou uns discursos daquilo a que chamava a “big society”, ou seja, uma “sociedade grande” que substituísse o estado nas suas funções de combate à pobreza, solidariedade social e redistribuição de riqueza. Em nenhum dos casos a ideia era para levar muito a sério, mas antes de eleição os políticos neoliberais têm tendência a inventar umas coisas para não parecerem frios e impiedosos. Esta necessidade não é nova: quem tiver memória lembrará que em 2000 George W. Bush foi eleito com uma campanha em torno do “conservadorismo compassivo”. Após a conveniência eleitoral, estas etiquetas voltam a ser guardadas, provavelmente na mesma pasta dos marqueteiros políticos de onde saíram. Lembrei-me disto ao ver, na semana passada, as notícias sobre o despejo da Escola da Fontinha, no Porto. Como é sabido, a Escola da Fontinha era um espaço abandonado e degradado que foi ocupado, recuperado e dinamizado por um grupo de jovens, com apoio dos habitantes do bairro vizinho, que lá faziam desde aulas de recuperação a atividades artísticas. Não só a escola era abandonada como o bairro era também pobre e esquecido pelo Estado; a singularidade do projeto da Escola da Fontinha foi achar que uma escola abandonada poderia continuar a ser um local de aprendizagem para todos os envolvidos

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Há uma nova esquerda

A moleza, em época de crise, é tóxica. A inconsequência, em época de crise, é uma irresponsabilidade. A esquerda que não se revê na moleza nem na inconsequência precisa de uma infusão de esperança. Uma vez fui a uma coisa chamada “Fórum de São Paulo”, que reúne as esquerdas da América Latina. Ouvi lá das melhores análises sobre a crise económica, curiosamente da autoria de políticos peruanos. Os brasileiros do Partido dos Trabalhadores eram pretendidos por toda a gente e, se é injusto dizer que tinham o rei na barriga, tinham pelo menos o Presidente Lula. Outros partidos tinham um discurso mais datado e simplista.A certa altura houve uma espécie de comício do Partido Comunista Cubano a que assisti por curiosidade. De repente ouço uma voz perguntar-me, num tom irónico e num castelhano de sotaque francês: “¿entonces, compañero, no aplaudes a los comunistas cubanos?” Era Jean-Luc Mélenchon, que agora é a grande surpresa nas eleições presidenciais francesas. Já tínhamos conversado muito nos dois dias anteriores e ele sabia muito bem que eu não aplaudiria o Partido Comunista Cubano, muito pelo contrário. Ficámos amigos desde esse tempo. Mélenchon sentava-se umas filas antes de mim no Parlamento Europeu.

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Datas, somente datas

Isto não são datas, somente datas. São memórias de como a história às vezes nos foge descontrolada. O que me interessa no naufrágio do Titanic é o que aconteceu depois. Quando os passageiros embarcaram no grande paquete transatlântico, há pouco mais de cem anos, ainda havia um mundo, o da Europa Imperial, com mais do que apenas vestígios de Antigo Regime, e todo um otimismo industrial-colonialista para supostamente o levar à glória. Em 1912 havia um Império Austro-Húngaro; havia um Império Otomano; havia um czar na Rússia; havia um Império Alemão que era o herdeiro da Prússia Imperial. E não é só que “havia” este ou aquele império. Parecia que sempre tinham estado ali (embora não fosse verdade) e que ali continuavam para durar. Na verdade, todo esse mundo estava à beira da falésia sem o imaginar. As ideias que o sustentavam tinham se esboroado já. O que não quer dizer que

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Três sílabas apenas

Depois de ter decidido acabar com o TGV, o governo de Pedro Passos Coelho anunciou que iria ser construída uma linha de alta velocidade para mercadorias, ligando Sines a Badajoz. Poucos dias bastaram para se descobrir que não haveria nada do outro lado da fronteira para levar os produtos portugueses até aos mercados europeus. Depois de ter decidido que o Partido Socialista iria votar a favor do novo tratado do “bloco orçamental” (a razão: porque sim), António José Seguro anunciou a invenção de um “tratado complementar” sobre crescimento e emprego, a ser adotado pressurosamente pelos chefes de 25 países europeus para que sossegar no Largo do Rato as consciências dos socialistas portugueses. Que hipóteses tem isto de acontecer?

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Um tratado inconstitucional?

Demorámos 60 anos a fazer a União, e este tratado começa a desfazê-la. Em dezembro passado os chefes da União Europeia reuniram-se prometendo uma solução “abrangente e definitiva para a crise”. Em vez disso, saíram da reunião de madrugada, sem o governo do Reino Unido, e prometendo um novo tratado que, alegadamente por essa razão, teria de ser feito fora da União Europeia. Meses depois, nada está bem explicado nesse novo tratado. Em Portugal, nem sequer o nome. Mesmo assim, a Assembleia da República prepara-se para o aprovar à pressa, sem provavelmente se dar conta de todas as consequências desse gesto, que podem ser muito graves

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O feudalismo na política portuguesa

A questão nem é de lei. É de cultura: é da naturalidade com que cada um for capaz de olhar o autoritarismo nos olhos e seguir tranquilamente o seu caminho. Por isso, o meu obrigado de cidadão a Ribeiro e Castro e a Isabel Moreira. Ai a liberdade é uma coisa tão desagradável. Tão difícil de aceitar. É uma coisa até “inexplicável”, para usar as palavras do Presidente da Mesa do Conselho Nacional do CDS-PP ao comentar o voto de Ribeiro e Castro contra a extinção do feriado da Independência, o 1º de Dezembro. Como diz o senhor Presidente António Pires de Lima, “o partido dispensa clivagens neste momento” (e não as dispensam sempre os partidos em Portugal?) e um ato de independência é “grave, grave para a coesão do partido”, valor pelos vistos superior à Independência com maiúscula simbólica e nacional, porque o que “é importante” é que o partido possa “continuar a crescer, apesar de um erro individual de um  deputado, que tinha e tem responsabilidades muito grandes enquanto representante  do partido na Assembleia da República”. Não, não e renão! Não foi um “erro individual” de um deputado: foi uma atitude consciente de Ribeiro e Castro, que explicou considerar que ninguém tinha mandato eleitoral para extinguir o 1º de Dezembro.

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Máquinas de matar

Precisamos nos próximos dias de atingir metade das assinaturas dos eurodeputados, e estamos ainda longe. Se concordar com esta causa, escreva para os deputados do parlamento europeu pedindo-lhes para se juntarem a nós — e pararem com estas máquinas de matar. Muitos milhares de mortos e amputados depois, as minas-anti pessoais — bombas-armadilha enterradas debaixo do solo que explodem quando alguém pisa nelas — são hoje consideradas das armas mais cruéis, cobardes e criminosas. Mas houve certamente um tempo em que foram consideradas grandes achados para os exércitos e para os países em risco de invasão, pois permitiam defender uma fronteira de um exército mais poderoso sem grandes custos económicos — uma mina anti-pessoal custa meia-dúzia de euros — ou de pessoal, pois elas substituíam linhas defensivas constituídas por soldados. A partir do momento em que as minas anti-pessoais se generalizaram, contudo, ficou claro que muitas das suas vítimas eram civis, em particular crianças e mulheres, que terrenos agrícolas ficam inutilizáveis muito depois dos conflitos acabarem e que os custos de desminar os terrenos são muitos maiores — às vezes dez vezes mais por cada mina — do que os custos de armadilhar o terreno. Alguém deveria ter parado com as minas anti-pessoais antes de elas se terem tornado correntes. Algo de muito semelhante se está a passar hoje com os drones, aviões sem piloto que são comandados automaticamente ou à distância e que podem dispôr de lançadores de mísseis ou de outras armas letais para conduzir ataques assassinos.

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Elegia pelo TGV

É às elites portuguesas que fica agora bem repudiar os investimentos em transportes. E há toda uma paleta de preconceitos para o justificar. Regressando a casa, fiz no outro dia escala no aeroporto de Madrid. Não nos terminais modernos e espaçosos de que Barajas, como se chama o aeroporto, dispõe. O voo para Lisboa partia de um dos terminais mais distantes, quase uma espécie de armazéns para passageiros, só acessíveis por autocarro. À espera do avião uma ou duas centenas de portugueses com ar cansado, pasta de trabalho na mão, uns com pinta de quem veio às reuniões do escritório de advogados, outros com ar de quem fazia aquilo todas as semanas. À entrada, alguém disse: “bem, vamos lá apanhar o autocarro”. O “autocarro” era, bem entendido, o avião Madrid-Lisboa.

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O que é um louco?

A loucura não existe fora da sociedade nem se trata de uma forma binária, louco ou não-louco. Há uma gradação, há momentos e há tipos de loucura. No Verão passado, quando o assassino Anders Breivik matou na Noruega mais de setenta pessoas, na sua maioria adolescentes, passei dois dias lendo o seu compêndio de mais de duas mil páginas com elucubrações contra o multiculturalismo, descrições da preparação do seu atentado e uma enxurrada de  recriminações aos muçulmanos, aos sociais-democratas e à esquerda em geral. Desde então a opinião de que esse assassino era um louco acabou por se tornar dominante. Tanto quanto sei, foi até validada num primeiro momento pelo sistema judicial norueguês, o que gerou controvérsia e levar ao pedido de uma segunda avaliação psiquiátrica do assassino. A sociedade procura uma resposta a essa pergunta — é louco ou não é louco — como se ela fosse o fim do assunto. E, no entanto, ela é só o início.

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