Alegre

Os cartazes de Manuel Alegre nas ruas, há cinco anos, tinham apenas as palavras “Livre, justo, fraterno” — a descrição idealizada do país, tal como aparece desejada no preâmbulo da Constituição — redigido pelo próprio Manuel Alegre. Esta escolha era puro Manuel Alegre. Pelo gosto de palavras que eram belas, mas não apenas isso; concretas e mobilizadores. E sobretudo por que nenhum marqueteiro, nenhum diretor de campanha, o aconselharia jamais a fazer um cartaz assim, tão desformatado dos códigos publicitários. Manuel Alegre acreditava na palavra livre, na palavra justo, e na palavra fraterno — não um acreditar de fé, mas um acreditar de conhecer aquelas palavras por dentro e saber o que elas podem fazer. Teimosamente, insistiu. Teve vinte por cento.

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Cavaco

A principal — talvez única — proclamação política de Cavaco Silva para esta campanha foi considerar que Portugal deveria abster-se de comentários sobre a situação política na Europa e a crise do Euro. Segundo ele, tais comentários seriam entendidos como “insultos” pelos investidores internacionais e deixar-nos-iam à mercê da retaliações destes — com juros mais altos sobre a nossa dívida. Silêncio contra segurança — eis o que nos propõe Cavaco.

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O original pecado de Helena Matos

Helena Matos tem um historial de, em citações e interpretações de textos de outros, nunca conseguir ser fidedigna. Mesmo assim, como é que mesmo ela consegue ler a seguinte passagem de uma entrevista minha e nela descortinar “cumplicidade” com alguns dos piores facínoras da esquerda. A passagem, nesta entrevista à Pública, é esta: «A família é a esquerda, o que quer dizer que quem é de esquerda é meu primo de uma maneira ou de outra. Isto foi muito mal entendido quando disse que é a mesma família do Sócrates. Eu sou de esquerda e ele é de centro-esquerda. Não tenho de gostar dos meus primos todos, há primos que fazem coisas muito erradas, há primos que defendem a Coreia do Norte. Não pago dívidas pelas dívidas dos meus primos, os erros dos meus primos são erros dos meus primos. Mas são pessoas que se reclamam da esquerda. Não posso dizer que só é da esquerda quem é como eu sou. As espécies: sociais-democratas, republicanos clássicos, mutualistas, libertários de esquerda, marxistas, não marxistas. E podem coexistir muitos bichos.»

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Um saco de mágoa

Se houver abuso de algum destes dados, não pensem que a lei americana nos protege, uma vez que o Privacy Act só protege cidadãos americanos e residentes nos EUA. Já não me lembro de há quanto tempo não escrevo uma crónica minimamente otimista. E, acreditem, isso não é melhor para mim do que para vocês. Mas se o otimismo se funda em saber que a sociedade tem recursos suficientes para superar os seus problemas, afunda-se quando vemos que passámos os últimos tempos a agravá-los. Três casos. 1. Dizer “isto é o regresso da censura” é, muitas vezes, uma hipérbole. Porém, o governo húngaro pretende implementar uma lei que é — e eu, por causa das coisas, quase nunca uso a expressão — o regresso da censura. Segundo esta lei a imprensa está sujeita a multas que vão até 700 mil euros — que terão de ser pagas antes de recurso aos tribunais, o suficiente para levar à falência a maioria dos títulos — por “falta de objetividade” ou “falta de equilíbrio” nos seus artigos. E quem decide o que é falta de equilíbrio? Uma comissão, nomeada por nove anos, cujos membros pertencem ao partido do governo. Em certos casos, esta comissão pode proibir programas ou ver artigos antes de publicação. É claro que um país com uma tal lei de imprensa não seria nunca admitido na União. Mas agora que está cá dentro, pode até presidir a ela, como é o caso da Hungria desde 1 de janeiro deste ano. 2. O ministro Rui Pereira negociou com os EUA um acordo para lhes ceder informações constantes dos nossos Bilhetes de Identidade, incluindo dados biométricos

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Um ínfimo Portugal?

Aquilo que dei por mim a pensar é que se “um imenso Portugal” é o outro nome para o Brasil, qual é então o outro nome de Portugal? Uma nação já de si tão inventada que sabe as suas falas de cor? Diz Evaldo Cabral de Mello que só os portugueses são mais piegas do que os brasileiros. A prova, assinala, encontra-se à vista em qualquer aeroporto: para cada brasileiro que viaja, há outros cinco que se despedem, chorando. Quem tiver visto a despedida de Lula da Silva e a tomada de posse de Dilma Rousseff sabe que é assim: Lula chorou, Dilma chorou, e o povo na esplanada dos ministérios chorou também. Eu não vi, mas sei que foi assim. Evaldo Cabral de Mello é um dos maiores historiadores de língua portuguesa, não só em profundidade como em abrangência. A erudição, nos seus livros, é uma filigrana resistente; por detrás está uma alma ágil de ensaísta. Brasileiro de Pernambuco, é o representante e herdeiro de uma geração de ouro de intelectuais a que está ligado até familiarmente — Gylberto Freire e Manuel Bandeira eram seus primos, e João Cabral de Mello Neto seu irmão. Em Portugal recebeu um prémio pelo livro A Fronda dos Mazombos, de 1995, mas nem por isso é muito conhecido. No Brasil a presença deste velho diplomata, que não andou pelos departamentos universitários, é também discreta. O livro de Evaldo Cabral de Mello para que eu gostaria de chamar a atenção hoje é uma coleção de trinta e seis artigos e ensaios sobre história e historiografia publicado em 2002. A editora é a 34, de São Paulo, mas creio que se encontra nas livrarias portuguesas. Francamente, se pelo menos um de vós decidir comprar e ler esse livro, a primeira crónica do ano está ganha. O título é Um Imenso Portugal,

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Dar tempo ao tempo

As pessoas que eu estudo também não tinham o tempo todo, também elas estavam sob o mesmo efeito do futuro, puxando-as para cima como um corpo cheio de ar à tona de água. Inexoravelmente, mês após mês, uma oportunidade só de cada vez. “Chegou maio de 1768”. “Chegou novembro de 1768”. “Chegou, finalmente, o dia 6 de junho de 1775”. “Veio o verão e passou o verão; chegou o Natal de 1775”. Estou escrevendo um livro que se passa entre 1768 e 1777. “Estou escrevendo” é uma forma de expressão — na verdade, há mais de dez anos que o faço. Como entre maio de 1768 e março de 1777 passaram quase dez anos, isso significa que já trabalho há mais tempo no livro do que o tempo que levaram a passar os acontecimentos que eu estudo. Já demorei mais tempo neste tempo do que o tempo que ele demorou consigo mesmo. Isto não tem nada de especial; é comum entre os historiadores das guerras napoleónicas, ou da Guerra Civil de Espanha que se leve décadas felizes estudando uns poucos anos infelizes. Os historiadores da Revolução Francesa podem dedicar a carreira inteira a mastigar o que aconteceu entre julho de 1789 e o termidor de 1794, meros e quase exatos cinco anos depois. Pelos meus pecados, porém, não tenho passados estes mais de dez anos inteiros olhando para aqueles quase dez anos que passaram há 230 anos. Só às vezes mergulho dois ou três dias — com sorte um pouco mais

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O ano em que a crise ganhou

Esta crise formou-se subterrânea desde a década de 1980, e nos primeiros anos deste milénio era já inevitável e (digam o que disserem) previsível. Foi aliás, prevista. Nunca gostei da frase “a única coisa a temer é o próprio medo” que Roosevelt disse no seu discurso de investitura no mês de março de 1933, em plena Grande Depressão. Nunca gostei da frase porque a achava pirosa, o que é uma péssima mania; eu era novo e não queria admitir que uma boa parte das coisas verdadeiras e/ou importantes acabam por força sendo pirosas. O problema das pessoas novas é — mais do que não terem experiência — não terem imaginação para recriar mentalmente um momento em que uma frase destas possa ganhar todo o seu sentido. (O problema das pessoas velhas é igualmente falta de imaginação. Por experiência a mais ou a menos, a falta de imaginação é sempre um problema.) Pela mesma mania, nunca gostei de outra frase, desta vez dita por Lula quando perdeu uma eleição: “o medo ganhou à esperança”. Parecia-me, igualmente, uma frase pirosa. Mas acontece o medo ganhar à esperança, tal como acontece ficarmos tolhidos pelo próprio medo. Agora sei, porque o vi acontecer. Esta crise formou-se subterrânea desde a década de 1980, e nos primeiros anos deste milénio era já inevitável e (digam o que disserem) previsível. Foi aliás, prevista: a única questão era saber se a queda ia ser dura ou suave. Quando, no verão de 2007, a bolha imobiliária americana deu os primeiros sinais de rebentar, ficámos à espera: agora íamos saber. Ainda assim, durante um ano inteiro esta crise foi observada em embrião por uma minoria de curiosos, enquanto ainda era teimosamente negada pelos poderosos, cuja frase de eleição era: “os fundamentos da economia são sólidos”. Ah, sim! Chegou setembro de 2008 e os alicerces da economia desmoronaram-se sob os nossos olhos. Uma série de falências em cadeia teria levado bancos e seguradoras para o buraco se as suas perdas não tivessem sido, no fundo, nacionalizadas. E quando se experimentou deixar cair um banco aparentemente dispensável — o Lehman Brothers — a economia mundial viu o abismo. A crise foi tão má como nas piores previsões. Logo no fim desse ano de 2008, apesar de tudo, a sociedade reagiu e, num primeiro combate, a crise apanhou um belo soco no olho. A eleição de Obama foi uma vitória da esperança contra o medo, a frase não deixa de ser pirosa, mas foi o que foi. E até achámos que estávamos preparados para fazer frente à crise. Não seria fácil mas conhecíamos o exemplo histórico da Grande Depressão, sabíamos o que estava em causa, tínhamos alguma ideia do que fazer e, sobretudo, os erros da ideologia dominante estavam identificados. Era cedo para cantar vitória; como num daqueles jogos de futebol em que uma equipa voluntariosa mas desorganizada marca um golo nos primeiros minutos, o resto do tempo tem sido passado a ver a vantagem fugir, primeiro, e uma derrota avolumar-se depois. Nos EUA, Obama passou este tempo todo com medo de tudo: da Fox News, do Tea Party, de ser acusado de ser “socialista”. Logo no início do mandato, recusou nacionalizar os bancos por parecer uma coisa “não-americana”. Roosevelt não teve medos desses quando, poucos dias depois de chegar à presidência, fechou todos os bancos por uns dias e reabriu apenas os que se revelaram sólidos. Na Europa, a influência do medo tem sido ainda mais penosa. Não é um medo-pânico, como talvez devesse ser, mas uma cobardia instintiva, feita de receio, mesquinhez e paralisia. Em 2010 instalou-se, e não se vê como vamos sacudir esta coisa de cima dos ombros. Sabemos como estas coisas continuam: com um enfraquecimento da cidadania, primeiro, e da democracia depois. Eu, apesar dos sinais, ainda me recuso a admitir que a democracia não seja mais forte. Mas pode ser que — tendo vivido em democracia desde os dois anos de idade — simplesmente me falte imaginação.

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De onde vem o poder?

Ele termina o seu discurso elevando a voz e sincopando as últimas palavras e, depois, — silêncio. Acontece nada. Volta e meia, vem-me esta imagem à cabeça: um primeiro-ministro, jovem, bem-falante, elegante e poderoso, fazendo um discurso no parlamento do seu país. Os gestos são estudados, mas adquiriram com o tempo uma certa naturalidade — o que significa que estamos perante um político muito profissional, que sabe distinguir-se da massa dos políticos meramente profissionais. As palavras saem bem articuladas, as frases aparecem moduladas, os parágrafos terminam enfáticos — e tudo isto aparece como se fosse convicção. Ele é um político de sucesso e sabe que o é. Tem o partido e o país na mão, graças a uma fórmula que foi afinando ao longo da vida, combinando carisma, oratória e sobretudo lealdades disciplinadas. Ele termina o seu discurso elevando a voz e sincopando as últimas palavras e, depois, — silêncio. Acontece nada. Na plateia ninguém aplaude. Não apenas a oposição, que não aplaude, mas também não apupa, não vaia, não protesta — nada. Mas acima de tudo a maioria, o partido de governo, com os fiéis correligionários do chefe, não levanta as mãos para o aplaudir. A única coisa que se segue ao discurso do chefe é silêncio, e a seguir a esse silêncio, mais silêncio. No meu sonho não ficam claras as razões para este fenómeno. Talvez se tenham distraído todos. Talvez se tenham aborrecido. Talvez cada um dos seguidores do chefe tenha achado que, naquele dia, se poderia dar ao luxo de não aplaudir porque certamente todos os seus colegas o fariam. Talvez, sem sequer considerar o fundo e a forma do discurso, tenham sentido que aplaudir era apenas uma obrigação de trabalho, como picar o ponto, ou de cortesia — e, de repente, não lhes tenha apetecido fazê-lo, como quem decide ligar para o emprego e inventar uma doença para ficar o dia de pijama. E agora já é tarde. Ninguém bateu palmas e o silêncio durou já uma semibreve a mais, e agora ninguém se atreve a ser o primeiro, nem consegue aliás levantar os braços, porque estão todos hipnotizados pelo sucedido. O que acontece de imediato não sei.

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Ilha do Natal

Até àquele dia já tinham morrido oito, abatidos a conta-gotas. Se isto não é uma urgência, não sei que seja. Christmas Island, ou Ilha do Natal, é um território governado pela Austrália mas localizado a apenas quinhentos quilómetros da Indonésia. Na madrugada de quarta-feira um barco com talvez uma centena de refugiados — tecnicamente, “requerentes de asilo” — nafragou ali, despenhando-se contra os rochedos. Morreram cerca de 30 pessoas, entre elas uma dezena de crianças, na maioria de origem iraquiana. Conheci gente desta nos campos de refugiados da Síria do Norte e nos arrabaldes de Damasco. Não podem voltar a casa nem ficar onde estão. Alguns são advogados ou engenheiros; perguntam-nos se achamos que emigrariam voluntariamente para ser taxistas ou faxineiras noutro país. Muitos são cristãos; a absurda “guerra de civilizações” feita para defender “os valores ocidentais” tornou-lhes impossível a vida numa terra onde as suas comunidades perduraram milénios. Praticamente todos correram risco de vida nas suas cidades e voltaram a corrê-lo para fugir. Outros desesperaram nos campos e voltaram a arriscar. Devem ter pensado que chegariam a uma vida nova antes do fim do ano. É hábito em Estrasburgo que permaneçam reunidos, no fim das sessões do Parlamento Europeu, deputados em trabalho sobre direitos humanos. Chama-se a isto as “urgências”. Na última sessão do ano ali ficámos, sessenta e poucos boiando num hemiciclo para mais de setecentos, rodeados de neve por todos os lados. Nas montanhas da península egípcia do Sinai, cerca de 250 refugiados oriundos da Eritreia estão reféns de traficantes de seres humanos que lhes exigem resgates elevados. O governo egípcio primeiro negou que fosse verdade e depois disse que ia ver o que se passava; está agora a pensar fazer qualquer coisa. Enquanto isso, os traficantes vão violando as mulheres e executando os homens. Até àquele dia já tinham morrido oito, abatidos a conta-gotas. Se isto não é uma urgência, não sei que seja.

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Tavares contra Tavares

Diria o falecido senador Moynihan que Miguel Sousa Tavares tem direito à sua opinião — mas não tem direito a factos só para ele. Miguel Sousa Tavares é um homem muito corajoso, como todos sabemos — porque ele não se cansa de no-lo repetir. Estranhei por isso vê-lo utilizar, na sua última crónica do Expresso, o bom velho truque do toca-e-foge. Consiste essa manha em aludir a alguém, não identificando, o que permite inventar o que o outro escreveu e depois escapar a uma réplica. É assim que me vejo transformado em “um deputado do Bloco de Esquerda” que “escrevia no Público” que “os segredos diplomáticos servem para subtrair aos povos o seu direito à informação”. E, continua, “seria ridículo, se fosse inocente” — e que, não sendo inocente, “é hipócrita”. Seria, seria, seria — se fosse o que eu escrevi. Ora, no meu texto fui cuidadoso em distinguir entre “segredos justificados e/ou necessários” (listando até alguns casos clássicos, como a posição de tropas em tempo de guerra, a identificação de fontes, ou pormenores sobre vítimas ou testemunhas de crimes) de uma “cultura de secretismo” crescente nos últimos anos. Confundir ambos serve apenas propósitos demagógicos. Recapitulemos — fora de fofocas fúteis — aquilo que de realmente importante temos aprendido com a wikileaks, somente nos últimos dias: 1. a petrolífera Shell diz ter infiltrado todos os ministérios do governo Nigeriano; 2. a farmacêutica Pfizer, após terem morrido onze crianças que tinham sido sujeitas a seus testes de medicamentos em África, tentou sujar o nome do procurador que investigava esse caso; 3. em Portugal, um presidente do BCP ter-se-á oferecido para espiar os possíveis clientes do banco no Irão (o próprio nega). E mais uma — esta parece menor mas, acreditem, não é — um dos telegramas sugere-me que o gabinete de um juiz francês chamado Jean-Louis Bruguière estava infiltrado. Nenhumas das coisas que listei acima faz parte dos casos clássicos sobre os quais é preciso, e moralmente justificado, guardar segredo. Escreve Miguel Sousa Tavares

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