Organizar a resistência democrática à crise

É o colapso ou a reformulação. A nossa primeira linha de defesa deve ser, portanto, a existência de um pensamento sobre o que a Europa deveria ser. E como se está a sair o FMI na Irlanda? Mal. Depois de uns quantos meses a mandar no país por interposto governo, o FMI acabou por admitir que o deficit irlandês será maior do que esperado (10,8% e não 10%), que o crescimento continuaria negativo, e até mais negativo do que previsto, e que tudo somado a Irlanda não chegaria aos 3% de deficit em 2015, e nem sequer em 2016. Não há razões para pensar que em Portugal vá ser diferente. Os cortes vão ser dolorosos; quando a economia portuguesa estiver pior do que o previsto, os senhores do FMI vão culpar o paciente e apresentar novas contas. A imprensa internacional, para a qual nós portugueses seremos notícias velhas, empurrará os novos números para as secções mais esquecidas dos jornais. As primeiras páginas trarão notícias sobre as agências de notação que, por essa altura, estarão entretidas a baixar a classificação da Espanha. E o pânico verdadeiro chegará finalmente a Bruxelas, Frankfurt, Berlim e Paris. Itália, a braços com as tropelias de Berlusconi, e a Bélgica, sem governo há um ano, estão já na fila de espera da crise. Só que nesse momento já não haverá tempo para pensar.

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O falhanço e depois

Lá ao fundo ouvia-se um gemido, uma coisa entre suspiro e exalar de último fôlego. Era Portugal, esmagado debaixo da banca, por detrás do estardalhaço da União Europeia a desconjuntar-se. Havia nos anos oitenta um filme que se passava num avião lotado em queda. O protagonista era um ex-piloto, alcoólico em recuperação, cuja deixa mais memorável era: escolhi um péssimo dia para deixar de beber. Interrompi esta crónica durante um mês. Foi um péssimo mês para deixar de escrever. Tempos medonhos. No Japão, terramoto, maremoto, crise nuclear seguida em direto. Saíamos de casa, tinha explodido um reator. Chegávamos ao trabalho e já havia risco de explodir outro. No mundo árabe a revolução foi e está a ser brutalmente mutilada. No Bahrein com uma cínica invasão saudita a que erradamente ninguém presta muita atenção. Na Líbia um massacre em Benghazi foi evitado a poucas horas de acontecer (votei a favor de uma no-fly zone com mandato da ONU que o pudesse impedir) mas em vez de uma ação restrita para proteção de civis e com vista a um cessar-fogo temos agora uma situação pendular com risco de enquistamento ou escalada (eu estava consciente deste risco ao votar e, apesar dele, acho que fiz o que estava certo). E, na Síria, com a repressão fria, seca e brutal característica daquele estado policial. No Mediterrâneo um barco virou-se e morreram cento e tantos refugiados. Para terminar, caiu o governo de Portugal.

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Há esperança

Será tarde demais para Merkel pagar pelo que deixou que nos fizessem, mas talvez não tarde demais para que consigamos salvar a Europa. (Via Pedro Magalhães)

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Negócios da UE com Líbia: 343 milhões de hipocrisia

Ontem foi começo de semana parlamentar em Estrasburgo e a Comissária dos Assuntos Interno, Cecilia Malmström, apoiou a ideia de aplicar a directiva 55/2001 para ajudar os refugiados das revoltas no sul do Mediterrâneo – ou seja, a concessão de autorizações temporárias de protecção aos milhares de pessoas que têm chegado à ilha italiana de Lampedusa. Lancei essa ideia muito recentemente. Mas a activação desta directiva necessita agora de maioria qualificada no Conselho Europeu, que representa os Estados-Membros. Os Estados-Membros dizem que há falta de recursos financeiros quando todos sabem que em 2009 vários países da UE ganharam 343 milhões de euros em vendas de armas a Khadafi. O problema é que argumento de falta de recursos é completamente hipócrita. O dinheiro inicialmente disponibilizado pela UE para ajudar os refugiados foi apenas de 3 milhões de euros – cem vezes menos do lucro com armas. Esta diferença diz tudo. Durante anos Khadafi varreu para debaixo do tapete refugiados e emigrantes em troca de armamento e cumplicidade. Precisamos de uma abordagem global que não passe pela hipocrisa dos Estados-Membros.

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A “esquerda” que se sujeita e a direita que mente

Bom artigo de José Castro Caldas nos Ladrões de Bicicletas. Dois parágrafos-chave: “Os chamados países periféricos da zona euro (e com eles toda a União Europeia) estão a ser empurrados para um trilema: ou se deixam transformar em protectorados com “governos” de turno efémeros, de direita ou de “esquerda”, a executar o programa austeritário até que a recessão, a divergência e a bancarrota os separe do continente; ou partem eles próprios à aventura; ou não se sujeitam e, coordenadamente entre eles e com outras esquerdas europeias que não se sujeitam, conseguem inflectir o rumo suicidário que foi imposto à Europa. Por mim prefiro a reconstrução europeia e uma esquerda que não se sujeite em Portugal e que dê prioridade à construção de uma esquerda europeia que não se sujeita, representando-a em Portugal..”

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LEFT caucus — coordenar alternativas de esquerda no Parlamento Europeu

Se há coisa que a atual crise deixou clara é que há problemas europeus que exigem soluções europeias. E, em democracia, isso quer dizer que necessitamos de alternativas à escala europeia. Construir essas alternativas é um trabalhado vasto e multifacetado que necessita de persistência e abertura de espírito — criar uma atitude comum que supere as linhas de demarcação partidárias e regionais mas que tenha consistência política e ideológica. O LEFT caucus — em cujo projeto tenho estado envolvido desde que cheguei ao Parlamento Europeu, pretende lançar-se a essa missão. Começámos com um pequeno grupo de discussão entre deputados da Esquerda Unitária, dos Verdes e dos Socialistas de diversos países e comissões parlamentares. Éramos pouco mais que uma dezena. Agora chegou o momento de apresentar em público o caucus — numa sessão no Parlamento Europeu, em Bruxelas (ver cartaz) —. Em junho faremos a segunda reunião ordinária e esperamos estar a todo o gás na rentrée em setembro. Pretendemos ser um fórum de coordenação de políticas de esquerda, de criação de uma nova maioria progressista, e de consolidação de um discurso consistente, realista e mobilizador. Começam já a chegar novas inscrições de outros deputados. E qualquer pessoa pode inscrever-se e começar a receber as nossas informações, que nos primeiros tempos serão a conta-gontas, mas que ganharão outra força conforme formos apresentando documentos políticos, iniciativas legislativas, e textos para debate. Para tal basta consultar o site, onde encontrarão também a nossa declaração de intenções (para já tudo em inglês; versões noutras línguas estão dependentes da boa vontade do gabinete de cada eurodeputado e deverão aparecer mais no futuro). LEFT não quer apenas dizer “esquerda” em inglês; é também a abreviatura de “liberté, égalité, fraternité: toujours” em francês — o que para nós significa um regresso às fontes da esquerda enquanto uma aliança das pessoas comuns, uma coligação daqueles que não são ricos nem poderosos — e que precisam de fazer ouvir a sua voz na Europa de hoje. Ajudem-nos a construir essa alternativa.

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Mélenchon: “Há que vergar o tirano antes que ele vergue a revolução”

Em entrevista ao Libération, o eurodeputado do GUE/NGL, candidato presidencial francês e copresidente do Parti de Gauche, que com os comunistas franceses faz parte da Frente de Esquerda, responde às seguintes perguntas sobre a Líbia. Tradução de alguns excertos. Porque apoia os ataques aéreos na Líbia? A primeira questão que temos de nos colocar é a seguinte: há um processo revolucionário no Magreb e no Médio Oriente? Sim. Quem faz a revolução? O povo. É pois decisivo que a vaga revolucionária não seja quebrada na Líbia. Bastaria que Kadhafi ganhasse para que a mensagem passasse a ser: “aquele que bater durante mais tempo e com mais força no seu povo durante uma revolução, ganhou”. Ora isto seria um sinal desastroso, uma vitória da contra-revolução! A minha posição é constante: sou partidário de uma ordem internacional garantida pelas Nações Unidas. Mas conhecemo-lo bastante mais crítico contra as intervenções militares… porque votou favoravelmente, por exemplo, a resolução no Parlamento Europeu?

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Situação em Lampedusa agrava-se

IMMIGRAZIONE/LAMPEDUSA: GOVERNO ITALIANO APPLICHI DIRETTIVE EUROPEE, NAVI E TENDOPOLI NON SONO LA SOLUZIONE Le informazioni che giungono dalla stampa e dalle associazioni presenti sul posto indicano che sull’isola italiana di Lampedusa la situazione è al collasso: non si puo’ parlare di accoglienza dignitosa di fronte a profughi che da giorni dormono all’addiaccio, non hanno a disposizione acqua corrente, non ricevono abbastanza cibo nè cure mediche appropriate. » Lo dichiara Rui Tavares, europarlamentare portoghese della Sinistra Unitaria Europea e relatore del Parlamento europeo sui rifugiati. Chiediamo prima di tutto che il governo italiano non lasci sola l’isola di Lampedusa a gestire l’afflusso e si impegni ad aumentare sensibilmente il numero di profughi trasferiti ogni giorno nel resto d’Italia in strutture aperte idonee all’accoglienza. In questo quadro, le ipotesi ventilate di confinare i profughi su una nave militare o in tendopoli improvvisate non sarebbero certo conformi agli standard europei.

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Sobre a Líbia

Apenas uma certeza: aplaudir os corajosos líbios numa semana e deixar que eles se lixem na seguinte é uma indignidade.   Há certo alvoroço na blogosfera sobre o voto de uma resolução do Parlamento Europeu àcerca da Líbia (sem ser exaustivo, cito o Renato Teixeira e o Bruno Carvalho do 5dias, e uma série de comentadores num texto do Miguel Portas e da Marisa Matias no esquerda.net, entre alguns outros). Esse alvoroço vem acompanhado de uma fúria inquisitorial que, tratando-se do assunto de que se trata, é vergonhosa. No texto que escreveram, o Miguel Portas e a Marisa Matias responderam muito bem ao estilo e ao fundo da questão e eu subscrevo grande parte do que dizem. Aproveito para acrescentar algumas coisas do meu lado. Sobre mim em particular, queixam-se os ditos bloguers e comentadores de 1) não terem lido nada (aliás, por culpa deles, como se verá) que eu tivesse escrito àcerca do voto da resolução sobre a Líbia no PE; 2) eu ter votado de forma diferente dos meus colegas na delegação do BE ao PE. Acima usei a expressão “fúria inquisitorial”, mas talvez não seja o bom termo, e por uma razão: os inquisidores eram diligentes e não deixavam nada por consultar. Ora, se os meus acusadores fossem minimamente diligentes teriam notado que eu — longe de me remeter ao silêncio — fui o primeiro eurodeputado português a escrever sobre a resolução e sobre o meu voto, já há quase uma semana, e era até o único europdeputado português a tê-lo feito bem antes de esses acusadores terem acordado para o assunto. Fi-lo aliás menos de uma hora depois do voto, através do meu twitter, que é retransmitido no meu blogue e até no portal oficial dos eurodeputados do BE. E nesse mesmo momento respondi a perguntas, em directo e ao vivo, sobre se o meu voto era diferente do voto do Miguel e da Marisa (vejam se percebem o seguinte: no PE a regra é a liberdade de voto, felizmente). Prestação de contas mais rápida é difícil, mas enfim, escapou a observadores que deveriam ser atentos. Em particular, gostaria de saber que raio de jornalista é o Renato Teixeira que não fez uma pesquisa básica nos meios oficiais de comunicação do deputado e da delegação sobre os quais escreve incessantemente desde há dias. Mas não percamos tempo. Então, que temos na Líbia?

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