Sobre o vazio

Porque segredava Gaspar ao ministro alemão Schäuble? Porque precisou depois de negar a evidência do que disse, ao passo que o ministro alemão a negava de outra forma? Porque ficámos com a sensação de que naquela conversa-de-pé-de-orelha se discutiam coisas com mais importância e substância do que nas reuniões formais dos parlamentos e das cimeiras? Resposta: porque a política na União Europeia assenta num vazio. Três vazios, aliás: de linguagem, de representação e de eficácia. O governo da União Europeia não se chama governo, mas Comissão. A União Europeia tem leis, que têm força de lei, se aplicam como lei, e até têm precedência sobre as leis nacionais; todavia, não se chamam leis, mas sim diretivas e regulamentos. Essas leis são feitas num processo de “co-decisão” entre duas câmaras, mas há um problema:

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Crédulos e incrédulos

A linguagem vazia dos governantes, quando sentem necessidade de parecer que estão ao controle dos acontecimentos, acabou criando uma sociedade dividida entre crédulos de um lado e incrédulos do outro. Nessa sociedade as reações são sempre as mesmas independentemente dos factos. Seja como for, o crédulo acredita em tudo o que lhe dizem, o incrédulo não acredita em nada. O crédulo acreditou que Saddam tinha armas de destruição em massa e deixou que se fizesse uma guerra no Iraque por causa disso; o incrédulo não acreditou nos massacres do Ruanda, da Jugoslávia (ou quaisquer outros) e ficaria de braços cruzados à espera que Khadafi chacinasse a cidade de Benghazi. Ambos podem ser, portanto, perigosos à sua maneira.

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A voz das consoantes sem voz

Salvé, Vasco Graça Moura, insigne auctor que desafiaste o dictame do governo e reintroduziste a escripta antiga no teu Feudo Cultural de Belém! Povo português, imitai o exemplo deste Aristides Sousa Mendes das consoantes mudas, como lhe chamou o escriptor e traductor Jorge Palinhos. Salvai as sanctas letrinhas ameaçadas pela sanha accordatária. Mas ficai alerta, portugueses! As consoantes mudas são muitas mais do que julgais! O “c” de actual e o “p” de óptimo são apenas os últimos sobreviventes de um extermínio secular que lhes moveram os medonhos modernizadores da escripta. Há que salvar agora estas pobres victimas, até à septima geração.

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Desengonçado

As derivas verdadeiramente graves começam sempre por coisas pequeninas, daquelas que se pergunta: “mas que importância tem isso”? E assim com esta questão dos feriados. Que importância tem isso? Pergunta-se. Afinal, é só o 1º de dezembro e o cinco de outubro. Afinal, o 1º de dezembro significa apenas a auto-determinação e o cinco de outubro significa apenas a república. São apenas ideias. E depois paramos para pensar que ideias são essas. Como pode um governo ignorar a auto-determinação sem a qual não seria governo e nem haveria país para governar? E como poderá algum presidente da república promulgar a supressão do dia da república sem a qual ele não existiria? Quem não respeita essas coisas pequeninas que são as ideias — as ideias que nos unem, as ideias que lhes dão existência, mesmo que eles não saibam — não é certo que respeite o resto.

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A liberdade de expressão em tempos de austeridade

Pedro Rosa Mendes vem a Bruxelas amanhã, numa sessão que organizei também com a presença da International Alliance of Journalists falar sobre os possíveis impactos da crise no pluralismo e na qualidade da democracia. A partir do seu caso recente, tentaremos perceber se esta é ainda uma questão teórica ou se já se tornou uma questão de sobrevivência. Pretendemos transmitir em direto este evento. Amanhã, ao meio-dia de Lisboa e uma da tarde de Bruxelas, a partir deste blogue.

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20?2

Por isso perguntamos: que trará 2012 para nós? E essa pergunta está errada: 2012 não nos traz nada, nós é que trouxemos até 2012 as coisas de que ele há-de ser feito. No início do último livro de Haruki Murakami, 1Q84, há uma personagem com pressa para chegar a um compromisso com horário certo, mas que está dentro de um táxi num engarrafamento de uma autoestrada perto de Tóquio, e que decide seguir a indicação do taxista para sair do carro, escapar por uma escada de incêndio, e apanhar um comboio da linha suburbana que passa debaixo daquele viaduto. Antes de dar início ao seu plano de emergência, porém, o taxista avisa-a de que ela está prestes a fazer “uma coisa fora do comum” — “É verdade ou não? As pessoas normalmente não descem pelas saídas de emergência das autoestradas, especialmente as mulheres”. “E depois de se fazer uma coisa assim, o aspecto ordinário das coisas muda um pouco. As coisas vão parecer diferentes do que pareciam antes”. A protagonista não liga, faz o que tem a fazer, segue a sua vida. Mas depois as coisas começam de facto a parecer diferentes.

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Uma aldeia

Ter uma aldeia é, no essencial, ser tido por uma aldeia. É ter sido feito pela aldeia e ter ficado propriedade dela, que ela reclamará sempre. Uma música de António Variações ,“Olhei p’ra trás”, marca o fim do tempo em que ser português era, quase sempre, vir de uma aldeia. É cantada na primeira pessoa e pode ser bem descrita como uma lista. A lista das coisas de que era feito Portugal até uns anos depois do fim do salazarismo. Uma lista de conquistas: “Já fiz exame da quarta classe,  já fiz a comunhão solene. P’ra pensar na vida já tenho idade. Mãe, quero ir ganhar dinheiro; Pai, quero ir para a cidade.” Uma lista de objetos: “mala nova na mão, feita de madeira e papelão”;

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Bolsas 2.0

A resposta à primeira pergunta é muito simples: a bolsa teve uma taxa de sucesso de cem por cento. Mas — e como fazer para conseguir apoiar mais projetos? No ano passado escrevi que a resposta poderia ser a criação de uma “plataforma inter-bolsas”. Essa é a experiência para levar a cabo no próximo ano. Há um ano e um mês, nesta coluna, expliquei que tínhamos conseguido, entre o meu contributo inicial e a crucial ajuda financeira de três amigos (Ricardo, Zé Diogo, Miguel) atribuir sete bolsas de estudo. Hoje gostaria de responder a duas perguntas que me fazem muitas vezes: como correu a coisa? que vai acontecer agora? Há uns meses recebi uma carta de Itália. Tinha um postal do Museu dos Uffizi e um recorte do jornal L’Unità, fundado por Antonio Gramsci e antigo órgão oficial do Partido Comunista Italiano. No artigo aparecia uma foto onde estava eu, com ar encavacado, três dos quatro gatos fedorentos, e a Diana Ferreira, remetente da carta e estagiária no Museu dos Uffizi com uma das bolsas que nós inventámos. A Diana cumpriu o estágio e está agora a escrever um livro sobre monumentos e estilos artísticos. A Isabel Duarte, bióloga,

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Um discurso de Hitler

Quando se dirige aos homens do Reichstag e lhes pergunta “o que é a Europa, meus deputados”? Aí, lança-se numa longa e rebarbativa passagem que é o Hitler que esperaríamos que ele fosse: um homem obcecado por questões de raça e de sangue, de que fala com tanta verve que é como se os seus fantasmas estivessem ali com ele. Há setenta anos e três dias — a 11 de dezembro de 1941 — Adolf Hitler fez um discurso perante o Reichstag para declarar guerra aos Estados Unidos da América. Um discurso impressionante a vários títulos, permanentemente mudando de estilo e de sentido quase como se fosse da autoria de alguém com divisão de personalidade. É sempre perturbante pensar ou escrever ou falar sobre Hitler, e perturbante também lê-lo, por aquilo que esperamos e por aquilo que não esperamos.

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