|Do arquivo Público 03.11.2021|  É verdade que o país está em crise. Mas crise mesmo, daquelas existenciais, vive o planeta, ou melhor, a humanidade, como comunidade politicamente (des)organizada.

Só isso já seria razão para António Costa ter ido à Cimeira do Clima da ONU, mais conhecida por COP-26, em Glasgow, e ajuda a explicar por que é um tremendo erro ele não ter lá ido. É que o combate às alterações climáticas terá de enfrentar, já o sabemos, enormes obstáculos e dificuldades tecnológicas, financeiras, económicas, sociais, legais e políticas. Mas não sei se as maiores dificuldades não serão mesmo as culturais, cognitivas e de comportamento. E se os chefes de estado e de governo desligam do tema nos momentos mais importantes, então que dizer do cidadão comum?

Quem o diz não acredita demasiado no poder da mudança de comportamento individual quando comparada com a mudança sistémica de que precisamos para substituir o nosso modelo extrativista e poluente a favor de qualquer coisa que seja mais respeitadora dos limites ambientais para a nossa vida no planeta e para a preservação da biodiversidade. Quando falo de dificuldades culturais, cognitivas e comportamentais é de outro tipo de coisa que falo. Por exemplo, de escassez de atenção: ainda nem verdadeiramente começamos a luta contra as alterações climáticas e já muita gente não conseguir ouvir falar, muito menos seguir, o assunto. Ou do efeito de polarização e guerra cultural que tem infetado temas que gozam de grande consenso científico mas não gozam de consenso social: se as vacinas contra a Covid-19 se tornaram facilmente em causa de contenda em tantos países, como esperar que a luta contra as alterações climáticas não o seja numa escala maior ainda? Ou, para dar um último exemplo, da assimetria entre o curto-prazismo da maior parte da agenda mediática e política (ciclos noticiosos de 24 horas e mandatos eletivos de quatro anos) e as metas de médio e longo prazo que estabelecemos até 2050, por exemplo. 

Assim sendo, veremos negociações internacionais que, mercê do atual ambiente de nacionalismo político, acabarão a anunciar metas ambiciosas que é suposto serem cumpridas voluntariamente pelos estados, sem mecanismos de verificação e controle à altura. Veremos políticos que tentarão a contra-gosto fazer qualquer coisa para combater as alterações climáticas à escala local, apenas para recuarem perante as primeiras tentativas de capturar o tema pelas nossas guerras culturais. E veremos um normal aumento da anomia e da passividade, que não vão ajudar as sociedades do mundo a mobilizarem-se para exigir aos políticos o que deveriam fazer.

A verdade é esta: o desafio que temos à nossa frente exigiria um esforço pelo menos tão grande, e provavelmente muito maior, do que o que foi feito para ganhar a IIª Guerra Mundial. Mas neste momento ainda estamos como nos primeiros anos desse conflito, quando os EUA ainda não tinham entrado na guerra, a URSS ainda tinha um pacto assinado com Hitler, e muita gente achava que os anti-fascistas eram alarmistas e que o avanço e até controlo nazi pela Europa fora era mais ou menos inevitável. Estamos muito longe da criatividade e combatividade política de um Roosevelt e de tantos outros, que nos legou o estabelecimento das Nações Unidas e a proclamação da Declaração Universal de Direitos Humanos — e mesmo para isso foi necessário tomar conhecimento da enormidade criminosa que tinha sido o Holocausto.

Agora vamos precisar da imaginação do pós-guerra, de preferência sem ter de chegar à guerra propriamente dita.

Algumas coisas serão essenciais para podermos salvar-nos dos piores cenários. Uma opinião pública global desperta e exigente, e sobretudo informada. Não será fácil, embora a substituição geracional esteja a ajudar, embora não no ritmo que seria preciso. Precisamos de novas instituições vinculativas, com independência e poder, em particular um Tribunal Internacional contra os Crimes Ambientais, mas não se está a ver como os políticos atuais as aceitarão criar sem pressão pública. E vamos precisar de dinheiro, de muito dinheiro, para que a transição se faça se graves danos sociais: precisamos de um Novo Pacto Verde à escala global, mas como o pagar? O Fundo Monetário Internacional dispõe de um instrumento, sob a forma dos Direitos Especiais de Saque (a “moeda” do FMI, SDRs na sigla inglesa) que pode emitir à vontade, mas tem de inverter a sua distribuição (que geralmente vai de acordo com a quota de cada país no FMI e favorece os ricos) para ajudar os países pobres e também de alocar uma mega-emissão de SDRs apenas ao combate às alterações climáticas.

Não vejo ainda nada disso surgir da Conferência de Glasgow. E a este nível, por consequência, estou incaracteristicamente pessimista. Desejo apenas que não tenhamos de ficar muito pior antes de começar a lutar a sério. Como todas as guerras, esta perde-se na frente doméstica. Só que aqui essa frente é o planeta todo, a começar pelo nosso cantinho.

(Crónica publicada no jornal Público em 03 de novembro de 2021)