|Do arquivo Público 18.01.2019| O filósofo brasileiro Roberto Mangabeira Unger tem uma expressão de que gosto muito: diz ele que na atual situação em que a humanidade se encontra é necessário “termos a imaginação do pós-guerra, antes de haver guerra”.

Quer ele com isso relembrar que momentos como o do pós-IIª Guerra Mundial trouxeram consigo um grande furor criativo: nos meros cinco anos que passaram depois do fim da IIª Guerra Mundial nasceram as Nações Unidas como organização política internacional (as Nações Unidas já eram, antes, a aliança militar que venceu a guerra); foi redigida e proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda que apenas como documento moral; nasceram convenções regionais de direitos humanos, essas sim com tribunais próprios e mecanismos de implementação (a Inter-americana, primeiro, a Convenção Europeia de Direitos Humanos, depois); no nosso continente nasceu o Conselho da Europa e a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que viria a ser a União Europeia. Como é evidente, se fôssemos agora tentar reinventar tudo isto, os compromissos a que os nossos políticos atuais chegariam ficariam certamente muito aquém daqueles que foram logrados no final dos anos 1940. A destruição que a guerra trouxera aguçara as mentes; todos sabiam aquilo que estava em jogo; todos aliás, temiam uma nova Guerra Mundial nos dez anos seguintes ou assim (e tiveram-na, mas em modo Guerra Fria). Por isso aquela geração de homens e mulheres já bastante velhos — Eleanor Roosevelt, Churchill, Adenauer, Monnet, PC Chang, Charles Malik —, no fundo os sobreviventes da Iª e da IIª Guerra Mundial, correram como loucos para cumprir com o máximo possível dos sonhos de paz perpétua que desde os filósofos do Renascimento e do Iluminismo tinham sido sonhados. Pelo fracasso pagar-se-ia um preço altíssimo; em consequência, não se podia fracassar.

A segunda parte da frase de Mangabeira Unger diz-nos que hoje é preciso ter aquele tipo de imaginação audaz que normalmente só aparece depois das guerras, sim — mas que é preciso tê-la antes de haver guerra. Porque os edifícios dos direitos humanos e do sistema internacional precisam de ser reparados ou mesmo refundados, e adaptados à época das alterações climáticas, da inteligência artificial, e da financeirização globalizada. Mas também porque não nos podemos dar ao luxo de arriscar uma guerra. Aliás, é difícil imaginar sequer o que seria uma guerra de todos contra todos no atual estado tecnológico da humanidade. Aí está a razão suprema para não a arriscarmos.

A pergunta decisiva é: se a imaginação criativa de que demos provas depois da guerra só existe depois da guerra, será sequer possível convocá-la para um momento em que as imaginações não estão aguçadas, mas confusas, em que as vontades não estão unidas, mas dispersas, em que o sentido de progresso moral da humanidade não é intenso, mas difuso? Ou estará para lá das nossas capacidades ter a imaginação do pós-guerra não só depois da guerra, mas ainda antes, talvez para evitar a guerra?

Essa é uma daquelas perguntas, diria Kant, que não é para responder adivinhando. É para responder fazendo. Se desistirmos, estaremos a condenar o nosso futuro. Se persistirmos, estaremos talvez a salvar-nos.

Há exatamente cem anos, no dia 18 de janeiro de 1919, umas quantas centenas de homens chegaram a Paris para negociar a paz após a Iª Guerra Mundial (sim, eram só homens; uma Liga Internacional de Mulheres reuniu-se separadamente a partir de maio de 1919 em Zurique). Vinham investidos da tal imaginação do pós-guerra de que fala Mangabeira Unger. Inventaram a Sociedade das Nações, reorganizaram a Europa e o Médio Oriente segundo o princípio da auto-determinação e estabeleceram as bases de onde viriam a nascer uma série de tratados e convenções importantes nos domínios do direito da guerra ou da proteção de refugiados. Não foi coisa pouca. Mas aquilo em que falharam foi mais do que aquilo em que acertaram.

Os homens da Conferência de Paris não estavam só investidos da tal imaginação criadora; estavam dominados também — talvez mais ainda — pelo espírito da cupidez e da vingança. A França queria vingar-se da Alemanha e impor-lhe as condições de paz mais punitivas possível. Na Grã-Bretanha prometia-se também “espremer a Alemanha como um limão, até guinchar”. Os EUA quiseram a Sociedade das Nações, mas nunca lá puseram os pés. Os mandatos internacionais criados para espartilhar as colónias dos impérios derrotados mais não eram do que o velho colonialismo com um novo nome. O nacionalismo elevado a princípio organizativo foi aplicado ao sabor das conveniências — e, de qualquer forma, não tinha como ser aplicado consistentemente em regiões onde todas as nacionalidades estavam misturadas e onde muita gente não se tinha dedicado a pensar-se “nacionalmente”. Alguns tiveram direito a uma nacionalidade. Outros — os curdos, os arménios — foram traídos. Passadas duas décadas, o mundo estava de novo em guerra. Houve imaginação, mas não chegou. Foi por isso que o falhanço dos homens de há cem anos inspirou os homens e mulheres de há setenta a não arriscarem falhar.

Hoje arriscamos de novo falhar. E quando penso nisso vem-me sempre à memória a frase do meu professor António Hespanha: “eles não eram mais estúpidos do que nós”. Ou seja, podemos falhar onde eles falharam. Por outro lado, nós somos tão espertos como aqueles que acertaram. Temos de viver balizados por aquilo a que chamaram “otimismo trágico”: extrair sentido do pior do nosso passado para irmos a tempo de salvar o futuro.

(Crónica publicada no jornal Público em 18 de janeiro de 2019)