|Do arquivo Público 14.01.2019| Eu tinha outro título para este crónica, e aliás bem melhor: “Oh Rio não te queixes”. Tinha-o guardado há meses, por causa da coincidência entre o estribilho da canção d’A Aldeia da Roupa Branca e a inevitabilidade de um dia vermos Rui Rio e a queixar-se de um desafio à liderança do PSD.

O que era inevitável aconteceu, Luís Montenegro desafiou Rui Rio na sexta-feira, Rui Rio respondeu a Luís Montenegro no sábado, e eis-me a desperdiçar um título de crónica perfeitamente válido. E porquê? Não pelo que foi dito pelos putativos líderes, mas pelo que não foi dito. Um falou de como o PSD não está a fazer boa oposição ao PS e assim se arriscar a perder as próximas eleições. Outro queixou-se, como previsto, do excesso de oposição que o PSD faz a si mesmo e de como assim se arrisca a perder as próximas eleições.

No fundo, é isto. Dois dos políticos mais experientes do maior partido de oposição concentram em si as atenções do país para meia hora de intervenções em direto e o que sai é uma lavagem de roupa suja — “Ai rio não te queixes / ai que o sabão não mata” — sobre quem é mais mole ou mais oportunista. No fundo, um mero biombo para a questão de saber quem tem mais hipótese de compor as próximas listas de candidatos e as filas de espera para os lugares na administração.

E a pergunta é: que pode um português normal, já nem digo um que não seja militante do PSD, mas apenas um cidadão que não pertença aos círculos mais próximos dos putativos líderes, extrair de ambos os discursos que seja minimamente relevante para o futuro do país? Nada.
A política portuguesa já é, em geral, dominada pelo curto prazo. Em ano eleitoral, ela é-o mais ainda. O que o PSD e os seus correligionários desavindos conseguem é comprimir ainda mais o calendário, aproveitando para enfiar antes das eleições europeias — nas quais normalmente já não se consegue falar de Europa — uma disputa feita à medida para as televisões e as rádios noticiosas, que depois resultará num concurso de personalidades que esgotará os meses que nos faltam até às legislativas.
Ora, até parece que Portugal não acabou de sair de uma crise profunda que foi por sua vez antecedida por uma década perdida. Se o final do século XX foi a era em que Portugal se desligou do seu império para poder iniciar um ciclo europeu que permitisse a consolidação de um regime pluralista — descolonizar, para poder democratizar e desenvolver — o início do século XXI está a ser a era em que não sabemos o que fazer depois disso. Os primeiros 25 anos após o 25 de Abril foram suavizados pela entrada de fundos europeus e por um cenário internacional favorável às novas democracias. Os segundos 25 anos, que estão agora a acabar, foram inconclusivos num momento em que não nos podemos dar a esse luxo. Resolvemos um problema em 2015: o da incomunicabilidade histórica da esquerda que impedia o nascimento de algo como a geringonça. Mas a geringonça tem sido mais remendo do que remédio. E chegamos agora a um ano eleitoral crucial sem saber o que têm os políticos para propôr como futuro ao país: sermos um agradável quintal das traseiras onde os outros vêm às vezes comprar casas? cortar nos custos unitários do trabalho até competir com os países que sucederem à Ásia? desistir de encontrar um lugar na Europa e na globalização? ou tentar atingir um grau mais elevado de desenvolvimento e sustentabilidade para o nosso modelo político, económico e social? se sim, como?

Não tenhamos a ingenuidade de pensar que há uma resposta única para cada uma destas perguntas, ou que o lugar onde elas devem ser respondidas é numa qualquer sala acolchoada. O lugar destas perguntas e das suas possíveis respostas é no espaço público e no confronto político e eleitoral. Mas, a avaliar pela disputa no PSD, vamos passar os próximos tempos a evitar falar de qualquer coisa que não seja do último ano e do próximo ano. E ninguém em sã consciência dirá que nos outros partidos as coisas são muito melhores.

Para quem está bem instalado ou já desistiu isto é ótimo, porque só confirma todos os lugares-comuns que têm sobre o país. Para todos os outros, se pensarmos nisso por uns segundos, é aterrador.

(Crónica publicada no jornal Público em de janeiro de 2019)