O passaporte da liberdade

Vale a pena tirar alguns minutos para ver este discurso do presidente tunisino Moncef Marzouki, pronunciado no Parlamento Europeu na semana passada. Um discurso de realismo e idealismo, sem fugir a nenhum assunto difícil desde o assassinato de Cokri Belaïd (que tinha ocorrido nessa mesma manhã) até ao fundamentalismo salafista, mas sem admitir qualquer queda no cinismo ou qualquer abandono das nossas responsabilidades como vizinhos e defensores dos direitos humanos, acabando com uma comovente homenagem ao seu orientador académico, judeu, e uma rememoração do holocausto essencial e rara entre os políticos muçulmanos. O melhor discurso que já ouvi no hemiciclo de Estrasburgo. As poucas palavras que aqui deixo não lhe fazem justiça. Abaixo assista ao discurso em português: Moncef Marzouki – Parlamento Europeu 06.02.2013   Ou ainda, assista ao discurso na versão original: Moncef Marzouki – Parlamento Europeu 06.02.2013

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Le problème du fromage

Acima de tudo, pouco disto chegará a ser política comunitária sem uma democracia europeia com eleição do executivo da União. Diz–se que um político português de primeira linha, no tempo em que andava nas juventudes partidárias, foi convidado a visitar a uma capital francófona para um encontro do movimento europeu. A certa altura, calhou-lhe fazer um discurso, soporífero como era seu hábito, e quando viu que o público estava aborrecido de morte, tentou dar um sobressalto às suas palavras , espetando o dedo no ar e gritando: “il faut résoudre le problème du fromage!” Os ouvintes ficaram perplexos: o queijo?! o problema do queijo?! Qual é o problema do queijo e porque é necessário resolvê-lo? Só quando o bravo homem desceu do palanque foi possível resolver a confusão. Falando em francês, o nosso jovem político tinha querido dizer que era preciso resolver o problema do desemprego, e tinha misturado duas palavras, querendo dizer “chômage”, que significa desemprego, saiu-lhe “fromage”, que se está mesmo a ver que é queijo. No fim de contas, não é vergonha: o discurso foi feito, e vinte anos depois ainda é lembrado. E ficou a lição:

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Sobre os comentários neste blogue

Caros leitores, peço a vossa compreensão para o seguinte: serão apagados os comentários repetidos, às vezes dezenas de vezes, tal como os comentários longos com texto desconexo, tal como os outros comentários cujo efeito é apenas o de destruir qualquer possibilidade de debate nas caixas de comentários deste blogue. Melhor ainda, o comentador que usa todos estes métodos (e que aparentemente é apenas e sempre a mesma pessoa) pode por favor parar com essa prática, poupando assim trabalho a si e aos outros. Tenho tido muita paciência e pouco tempo para lidar com este problema, que já dura há alguns meses, e que se sucede a um outro problema semelhante, que durou bem mais de um ano. A partir de agora, todos estes comentários serão apagados. Agradeço a vossa compreensão.

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Por uma democracia democrática

Começa a ser mais fácil discutir do destino de um cachorro ou da última futilidade de uma celebridade do que intervir eficazmente no futuro do país. Portugal tem um problema financeiro, Portugal sofre de um problema económico, mas Portugal é um problema político. A este Portugal hoje, e já há algum tempo, poderíamos chamar-lhe “um problema democrático”. Como assim? Não é Portugal uma democracia, com liberdade de expressão, partidos políticos e eleições livres? Sim. Mas essa banalidade esconde uma boa metade da verdade: a de um país que ainda não se livrou dos seus medos nem se sacudiu das suas estruturas senhoriais.

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Nota sobre o acordo orçamental 2014/2020

  O Parlamento Europeu e o processo de votação   Os 27 governos da União Europeia (UE) chegaram, como é sabido, a um acordo sobre o denominado Quadro Financeiro Plurinanual (QFP) para os anos de 2014/2020. Este é o inicio de um processo e não um fim. Este acordo será agora legislado pelo processo normal na UE – a codecisão: para isso terá de ser formalizado pelo Conselho da UE e votado pela Parlamento Europeu (PE), que aqui tem a última palavra. O Presidente do PE, bem como os líderes dos quatro maiores grupos parlamentares (populares, socialistas, liberais e verdes) já declararam a sua oposição ao presente acordo e anunciaram que se ele não for alterado, consideram que o Parlamento deve rejeitá-lo. Concordo com eles. Este é um QFP de austeridade, condicionado pela necessidade de mostar a alguns eleitorados – em particular os eurocéticos no Reino Unido – que, se os Estados-membros apertam o cinto, a UE também deve apertar. Ao embarcarem neste jogo, os governos que o fizeram prestam um mau serviço aos seus cidadãos e à União como um todo. O orçamento da UE é um orçamento de investimento que permite combater a crise e que deve aumentar em particular nas suas políticas de coesão, de investigação e desenvolvimento científico e tecnológico e de renovação e reindustrialização ecológica. Os 500 milhões de cidadãos da UE não podem ficar durante sete anos amarrados às conveniências políticas de momento dos mais retrógados chefes de governo que a Europa tem tido em décadas. Estou portanto preparado para votar contra este orçamento, contra este QFP, caso ele não seja substancialmente alterado nas negociações com o Parlamento Europeu. Um último reparo sobre o processo de votação: o presidente do PE anunciou que o voto poderá vir a ser secreto caso 151 deputados o peçam, tal como indica o “Regimento do PE”. Este mecanismo de voto secreto destinar-se-ia a contrariar as enormes pressões a que estarão sujeitos os eurodeputados dos partidos que estão no governo. Não posso concordar com esta lógica. Os cidadãos têm o direito de saber como votam os deputados numa questão tão importante quanto esta, e é aos deputados que cabe ter a coragem da suas convicções. Pela minha parte, não me juntarei aos eventuais deputados que requererem voto secreto, e caso este voto secreto se confirme, indicarei manualmente o sentido da minha votação no momento do voto.

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Uma editora de coragem para um livro importante

É de uma enorme violência pôr uma editora sob termo de identidade e residência por ter publicado um livro que é claramente do interesse público. Claro que escrevo com a cabeça e com o coração: a Bárbara Bulhosa é minha amiga e uma pessoa que admiro e respeito, e é também a editora dos meus livros. Mas essa admiração só aumenta ao ver a forma corajosa como ela dá o peito às balas por um dos seus autores, o Rafael Marques, e como ambos querem ir a julgamento apurar a verdade. Aqui fica a solidariedade e o encorajamento a ambos.

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