Período de reflexão

Teremos governo de direita, com um programa que fará o cavaquismo parecer um oásis social, e para durar oito anos. Não tenho ilusões. Ontem acabou de se confirmar uma viragem histórica em Portugal, e eu estou do lado perdedor. O país chegou a estas eleições exangue e entregue às mãos impiedosas da troika. Simbolicamente, bateu já no fundo, ou pensa que bateu — a julgar pelo exemplo da Grécia e da Irlanda, este fundo não tem fundo. Socialmente, aproximam-se tempos duríssimos; politicamente, a descrença vai ser amplificada pelos sucessivos falhanços em chegar às metas do memorando; culturalmente, no sentido mais profundo, Portugal vai esvair-se. Esvair-se em crença num futuro desenvolvido, europeu e próspero. E esvair-se em gente que ainda tenha sonhos. Desculpem, quem está do lado perdedor deveria começar por falar dos vencedores.

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Um ressurgimento

Um projeto político precisa de idealismo para marcar a diferença em relação ao que existe. E pragmatismo porque terá de construir uma maioria, e essa maioria só se faz com os que são diferentes de nós. Costuma dizer-se que toda a política é local — ou seja, que uma eleição se ganha ou perde pelo mais paroquial preconceito. Mesmo que fosse verdade, deveríamos fazer política para que se torne mentira. Considerem a seguinte história. Há uns anos, a província italiana da Puglia preparava-se para eleger um governador. Região conservadora, pobre, há anos nas mãos dos clientelismo e da versão local da mafia, a Sacra Corona Unita. A esquerda, como sempre, dividida. Os caciques já tinham as suas escolhas em mente e os aparelhos partidários em campo. Mas houve uma ideia simples que se intrometeu.

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