Arquivo mensal para August, 2017

A Europa há 75 anos: parece que foi ontem

O Século – 14 de março de 1933 – lembrança de como um fascista chega ao poder.

“O ano de 1941 foi o último em que Hitler esteve a ganhar a guerra; 1942 foi o primeiro em que a guerra esteve perdida para a Alemanha nazi. Essa viragem fez com que “solução final” deixasse de ser um eufemismo e passasse a ser, no tempo que restasse de guerra, um objetivo com método e consequências concretas: deportação para campos de extermínio em vez de campos de concentração; execução a tiro em vez de trabalhos forçados e morte por fome; em breve, gaseamento de milhões deseres humanos. A decisão final sobre a “solução final” terá sido tomada entre o Natal de 1941 e o final de janeiro de 1942. Houve milhões de mortos antes dela; houve milhões de mortos depois. Mas algo mudou entre 1941 e 1942: todos os pretextos territoriais, ideológicos e geopolíticos com que os nazis justificavam a guerra revelaram o seu total vazio e em lugar deles ficou apenas o impulso genocida.”

A crónica de hoje no Público, sobre a solução final, as terras sangrentas da Europa (a partir do livro de Timothy Snyder com o mesmo título) e uma ordem para o extermínio dos combatentes antifascistas da Bielorússia dada por Hitler num dia como hoje, 18 de agosto de 1942. Foi há setenta e cinco anos. Parece que foi ontem.

Explicar o neo-passismo

A crónica de hoje no Público é sobre o revelador discurso do Pedro Passos Coelho na festa de verão do PSD.

“Numa terceira explicação, talvez seja apenas a reação perante um diabo que era esperado e que afinal não veio. Se assim for, devemos ter medo, muito medo. Por cada ponto a mais de crescimento económico que tivermos no país lá teremos nós de assistir a uma nova uma guinada de Passos Coelho para o território ideológico da extrema-direita.”

Brasil: o galinheiro é das raposas [texto integral]

 |Do arquivo Público 04.08.2017| Há um verso do hino brasileiro que chama ao país “impávido colosso” — uma boa descrição do país nos dias de hoje. Já não estou tão certo sobre o verso seguinte, que diz: “e o teu futuro espelha essa grandeza”.

Impávido colosso, sim, que impotente viu 263 deputados votarem para impedir a investigação das denúncias de corrupção contra Michel Temer (seriam necessários 342 votos para que o presidente pudesse ser julgado no Supremo Tribunal; só houve 227 votos a favor da investigação das denúncias). A comparação entre este voto e aquele de que há uns meses foi alvo Dilma é mais do que instrutiva. Os deputados que então votaram contra a presidente em nome da família, do cachorro e “do evangelho quadrangular” limitaram-se agora, com Michel Temer, a fazer uma muralha sem moral em torno de um presidente gravado a discutir entregas de subornos para manter os seus aliados calados.

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Povos promíscuos

“Contrabando de produtos, contrabando de pessoas. Durante a Guerra Civil de Espanha, estas aldeias raianas receberam republicanos espanhóis refugiados ao franquismo, e por ali os deixaram ficar. Após a IIª Guerra Mundial, quando estes refugiados começaram a fazer planos (e a comprar armas) para restabelecer a democracia espanhola, as ditaduras ibéricas juntaram as forças e decidiram acabar com eles. Numa operação conjunta da Guardia Civil espanhola, da PIDE e da GNR, foi montado um cerco à aldeia do Cambedo para apanhar anti-fascistas. Num par de dias antes do Natal de 1946, os habitantes da aldeia ficaram sob fogo cruzado e não entregaram os republicanos. Foram chamados reforços militares. A aldeia foi bombardeada com fogo de morteiro. Houve mortos de ambos os lados, dos republicanos só sobrou um, e quando a resistência do Cambedo foi vencida, homens e mulheres que ganhavam o sustento para as suas famílias foram presos pela PIDE. Quando finalmente puderam regressar, meses ou anos depois, decidiram calar a história daquilo a que chamavam “A Guerra do Cambedo”.”

Leia o resto da crónica no Público de hoje – Povos promíscuos.

Uma conspiração de espertos

Uma conspiração de espertos – A minha última crónica da semana no Público.

“Ambas as candidaturas oriundas do mesmo grupo parlamentar municipal foram, portanto, invalidadas pelo tal juiz próximo do presidente da câmara. Mas para lá das suspeitas agora lançadas pelo juiz, também seria interessante saber mais sobre o mérito da decisão, que repousa sobre o facto de as assinaturas recolhidas para validar as candidaturas não estarem nas mesmas páginas onde estaria a lista de candidatos. Isto pode parecer um detalhe, mas é nos detalhes que o diabo vive. Sónia Amado Gonçalves entregou 11 mil assinaturas; Isaltino Morais 31 mil. Mais do que é necessário para registar um partido político e quatro vezes mais do que é necessário para apresentar uma candidatura à Presidência da República, respectivamente. Ora, não parece descabido tentar perceber se as pessoas sabiam o que estavam a assinar, ou se as suas assinaturas foram recolhidas pelas duas candidaturas (espera-se que separadamente) como se fossem para qualquer outro propósito. E seria bom que a discussão sobre a possível parcialidade do juiz, que se deveria ter recusado a julgar, não nos impedisse de julgar sobre a fidedignidade das candidaturas.”

Os populistas não querem saber do povo

A minha crónica de hoje no Público: Os populistas não querem saber do povo.

“A estratégia funciona. Mas isso não é razão para que a beneficiemos mais ainda promovendo equívocos sobre as razões por que funciona. O populista não ouve o povo — põe palavras na boca do povo. O populista não quer unir o povo, mas dividi-lo. O populista não quer, aliás, saber do povo para nada. Quer saber apenas de si mesmo e do seu sucesso. A palavra “povo” como raiz do termo “populista”, na sua acepção contemporânea, é apenas uma triste coincidência e um dano colateral à partida. Na verdade, nós nem deveríamos chamar populistas a estes demagogos. Chamar-lhes apenas mentirosos e desonestos seria analiticamente mais rigoroso.”

Venezuela: o poder corrompe ou o poder revela? [texto integral]

 |Do arquivo Público 31.07.2017| “O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”. Já todos repetimos estas palavras, commumente atribuídas ao escritor e político católico inglês Lord Acton. Pergunto-me às vezes se elas não fazem mais mal do que bem.

Em primeiro lugar, esta frase dá uma escapatória fácil ao corrupto: “não foi ele, foi o poder que lhe deram”. Em segundo lugar, a ideia de que é o poder que corrompe acaba por afastar muita gente boa e cívica do exercício da governação: se o poder corrompe, para que quereria alguém exercê-lo?

Em terceiro lugar, quando aplicada a análise de regimes políticos, aquela frase e o raciocínio que lhe serve de base afasta-nos da obrigação moral de enfrentar e denunciar os erros, os abusos e as perversões políticas e ideológicas desses regimes, e de identificar de onde elas vêm. A explicação está encontrada — foi o poder que os corrompeu — para quê procurar mais?

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Por um punhado de votos [texto integral]

|Do arquivo Público 24.07.2017|  As coisas agora são assim. Os escândalos políticos e as indignações da internet confundem-se e sucedem-se de tal forma que há quem tenha a ilusão de que a seriedade dos casos se meça pela sua duração. Os casos podem durar um dia, dois, três. Se não duram mais do que uma semana, serão esquecidos. Com isso contam, precisamente, os perpetradores de um suposto populismo — e os seus auxiliares.

Quanto aos primeiros. Toda a gente sabe que há um candidato do PSD em Loures que todos os dias prevarica numa nova tirada supostamente “polémica” para chamar a atenção. Começou pelo racismo anti-cigano, que tem terreno fértil no preconceito generalizado e nunca verdadeiramente combatido contra esta comunidade. E agora passou para o vigilantismo, prometendo que se «se o Governo insistir em não dar à PSP meios» não terá «outra hipótese que não criar um exército». Há que ser claro: isto é mais do que demagogia ou populismo. Isto é o discurso da extrema-direita na boca de um vulgar oportunista. Não há ninguém que se deixe enganar pela encenação com que este senhor embrulha as suas declarações — e se alguém diz que ainda não percebeu é porque nos está a tentar enganar a todos.

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