Arquivo mensal para July, 2017

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Como poderíamos aprender com o erro de Passos [texto integral]

Foto: Miguel A. Lopes/LUSA

 | Do arquivo Público 28.06.2017 | Quando soube que Passos Coelho tinha anunciado erradamente o suicídio de sobreviventes do incêndio de Pedrógão Grande, por falta de acesso a cuidados de saúde mental, tive por ele um tipo especial de pena. Não tanto a comiseração que se tem por quem é humano e erra, embora esse tenha sido o caso. Mas principalmente o desgosto que me aflige cada vez mais perante uma política apressada, estridente, feita para competir com as mais apressadas e estridentes opiniões nas redes sociais, sempre na crença de que chamar permanentemente a atenção é mais válido do que tomar tempo, refletir, falar depois de pensar. Esse tipo de política apressada dá-me pena, e não é uma pena boa. Dá-me medo, também, ao ver que há tantos políticos reféns dela.

Mas que Passos tenha sido só traído pela forma, por penoso que tenha sido, é o que torna necessário escrever sobre o que se passou. O conteúdo é mais importante do que a forma.

Aquilo de que Passos queria falar — a prestação de cuidados de saúde mental às vítimas — é importante. Oxalá os políticos portugueses falassem mais de saúde mental. Noutros países este é um tema que vai pouco a pouco saindo do silêncio envergonhado a que o preconceito o votou durante séculos. Continuar a ler ‘Como poderíamos aprender com o erro de Passos [texto integral]’

Portugal reencontra-se consigo mesmo

“Com o caso das armas e explosivos roubados em Tancos, como com os incêndios de Pedrógão Grande, Portugal reencontra-se consigo mesmo. É melhor que se reconheça rapidamente naquilo que vê. Qualquer tentativa de afastar o olhar, qualquer pretexto para desviar a atenção, só servirá para prolongar ainda mais o caminho do nosso atraso e nos afastar mais da ansiada soberania — não a da retórica, mas a real. Pois quando desaparecem as armas das nossas tropas isso significa que não fomos capazes de proteger uma dimensão essencial da nossa soberania. E quando essas armas e explosivos podem já ter passado fronteiras, isso significa que — numa era de enorme integração e interdependência — somos nós que estamos a pôr em causa a segurança e a soberania dos outros.”

Hoje no Público.

A sociedade custo-benefício [texto integral]

 | Do arquivo Público 26.06.2017 |  Há um cálculo usado em hospitais para determinar se se deve contar o número de compressas inseridas no corpo do paciente durante uma cirurgia. Esse cálculo inclui o tempo que se perde a fazer a contagem e a probabilidade de uma compressa ficar esquecida, mais os salários por hora do pessoal médico e de enfermagem e o custo de uma possível indemnização a pagar em caso de uma queixa bem sucedida contra o hospital. O resultado depende de uma análise de custo/benefício: para algumas instituições vale a pena, e para outras não, implementar procedimentos mais exigentes para garantir que um paciente nunca saia de uma cirurgia com uma compressa no abdómen.

Do ponto de vista do paciente, porém, é fácil entender porque nos causa esta história desconforto: todos queremos ser tratados com dignidade e não como variáveis de uma análise de custo-beneficio.

Ora, a dignidade e o custo-benefício são mais do que dois extremos numa história ilustrativa. A dignidade e o custo-benefício são os dois principais paradigmas da governação na Europa do pós-guerra. Após os horrores da IIª Guerra Mundial, as democracias europeias compreenderam que não bastava respeitar a lei e o estado de direito tal como entendido pela maioria dos cidadãos. Pela primeira vez, o conceito de dignidade começa a aparecer nas constituições europeias. Em alguns casos, como o da Alemanha, não é possível alterar o artigo constitucional relativo à dignidade nem com maiorias qualificadas ou plebiscitos. A mensagem é clara: nem à democracia é legítimo ir contra a dignidade. 

Décadas depois, esquecidos que foram sendo os horrores do século XX europeu, um outro paradigma foi surgindo. Importado das áreas da gestão e acompanhado pelo lugar-comum de que o estado é “como uma empresa”, o custo-benefício foi erigido como critério fundamental da governação a partir dos anos 80. Como é evidente, as pessoas que o defenderam continuam a dizer acreditar no respeito pela dignidade — tal como as pessoas que defendem a dignidade não se recusam a fazer análises de custo-benefício. Mas a questão essencial é: qual deve ter a primazia e qual deve ser instrumental?

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Contra isto, e com isto, teremos de viver

Crónica do dia no Público, sobre Tchekov, Tancos, Trump e, vá lá, Simone Veil.