Arquivo mensal para June, 2017

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França: a tática, a moral e a história

A política não é feita só, nem principalmente, de tática, mas de escolhas morais e históricas. Mas há quem só entenda os erros morais e históricos quando eles se revelam erros táticos. Os primeiros resultados das legislativas em França permitem revisitar esta verdade:

“À esquerda nunca pode ser indiferente de que lado da história se está. Estar contra a Europa para competir com a extrema-direita ou estar do lado da Europa para combater a extrema-direita não é a mesma coisa. No primeiro caso, opta-se por desistir do projeto europeu em nome de uma leitura do regresso da história à chave “nacional”. No segundo caso, faz-se o esforço de apresentar uma versão de esquerda daquilo que poderia ser um projeto europeu social e democrático e uma visão justa da globalização, se quisermos que a Europa e a globalização não sejam monopolizadas só pelo centro. As eleições francesas de ontem, dominadas por um Macron que afinal não é tão detestado como isso, e onde os socialistas foram arrasados e a dinâmica de Mélenchon se esvaziou, sugerem que em França estamos mesmo numa situação de monopólio do centro. Se a esquerda francesa quiser reconstruir-se para disputar a sério esse monopólio, uma boa ideia seria apresentar uma visão alternativa do que deseja para o projeto europeu, em vez de apostar só no suposto colapso da UE.”

Leiam o resto na crónica de hoje no Público

Não há opções boas para o “Brexit”

A crónica de hoje, escrita antes das urnas fecharem no Reino Unido, sobre um cenário que ficou mais provável após sabermos os resultados: o que acontece se houver Brexit sem acordo com a UE?

“Se o Reino Unido chegar a 30 de março de 2019 sem um acordo com a UE, tudo isto deixa de valer ao bater da badalada. Os camiões que tragam produtos até à fronteira terão de parar para ser fiscalizados. As peças que façam parte de linhas de montagem pan-europeias não serão entregues a tempo. Aviões de companhias britânicas que voem entre dois países da UE deixarão de ter base legal para o fazer. E, acima de tudo, milhões de cidadãos da UE no Reino Unido e britânicos na UE ficarão com as suas vidas viradas do avesso.” – No Público.

 

Um país macroeconomicamente aborrecido [texto integral]

| Do arquivo Público 31.05.2017 |

Contava-me há tempos um ex-correspondente de imprensa em Portugal durante os anos pós-revolucionários que um dia, quando ele estava à beira de terminar aqui o seu trabalho e abandonar o nosso país, o então Primeiro-ministro Mário Soares decidiu convidá-lo a ele e aos confrades da imprensa estrangeira para um almoço. E na altura do brinde, para surpresa de todos, não só Soares elogiou o correspondente de imprensa que partia como lhe disse: “ainda bem que se vai embora”. E acrescentou: “os correspondentes de imprensa gostam de estar onde há desgraças; a sua partida é sinal de que vamos passar a ser um país aborrecido”. Evidentemente, Portugal não iria deixar de ter problemas e os políticos como Mário Soares não iriam deixar de ter matéria com que se entreter. Mas, do ponto de vista da imprensa internacional, sem golpes e contra-golpes de estado, sem tanques nas ruas, sem estar à beira da guerra civil, Portugal perdia a graça. Pior para os correspondentes, melhor para os portugueses.

Ouvi esta história e contei-a a uns amigos aqui há um par de meses. E a primeira reação foi a seguinte: “não sei se sabes, mas o Wall Street Journal acabou de retirar o seu correspondente de Portugal”. Ou seja, um dos grandes jornais financeiros do mundo acha que Portugal deixou de ter interesse. Isto é interessante, mas para nós: não quer dizer que Portugal vá deixar de ter problemas económico-financeiros, mas quer dizer que Portugal, do ponto de vista do noticiário económico internacional, perdeu a graça. Passámos a ser um país macroeconomicamente aborrecido. Ainda bem.

A saída de um correspondente da imprensa internacional é, pois, um sinal dessa bem-vinda mudança de estatuto. Mas não é o único. Continuar a ler ‘Um país macroeconomicamente aborrecido [texto integral]’

A Brexitânia vai nua

White House in Washington, 27 January 2017 | EPA/Olivier Douliery / POOL

A crónica de hoje, sobre os insultos de Trump a Sadiq Khan, e o revelador silêncio de Theresa May.

“É aí que entra o silêncio, carregado de significado, de Theresa May. Por muito que me esforce não consigo imaginar outra situação em que a chefe de governo de um país se escusasse a defender o autarca da sua capital quando, após um ataque terrorista, este estivesse a ser atacado pelo líder de um estado estrangeiro. Não só porque a ausência de resposta resulta num enfraquecimento da autoridade pública no momento em que a população mais precisa dela, não só porque essa ausência representa uma falta ao dever de defender os poderes públicos do seu país, mas principalmente pelo que tudo isto nos diz sobre as qualidades morais da própria primeira-ministra. O silêncio, numa situação destas, é cobardia.”

O resto aqui.

O Grande Federador [texto integral]

| Do arquivo Público 29.05.2017 |

Escreveu Jean Monnet, um dos idealizadores do projeto europeu, que a poucos meses da assinatura do Tratado de Roma corria no seu círculo de amigos a ideia de fazer uma estátua ao “Grande Federador da Europa”. Só que o homenageado não seria Churchill, nem Schuman, nem Adenauer. Essa honra caberia antes a Gamal Abdel Nasser, o líder egípcio que uns meses antes, ao nacionalizar o Canal do Suez, dera uma lição ao mundo sobre o fim do ciclo imperial europeu.

Com um pedido de desculpas pela injustiça feita a Nasser, os europeus têm agora um outro Grande Federador com muito menos visão mas com bastante mais poder: Donald Trump. Já toda a gente percebeu que Trump não entende, não quer entender, e sobretudo não gosta da Europa. O novo presidente dos EUA sente-se muito mais à vontade sendo bajulado pelos príncipes sauditas, telefonando ao proto-ditador filipino Duterte ou recebendo os sequazes de Putin na Casa Branca. O entendimento que faz da NATO e do seu artigo 5º de defesa mútua, apenas utilizado uma vez na história (e pelos EUA), não anda muito longe da “proteção” como entendida pelos mafiosos: paguem primeiro, e depois logo verei se vos dou garantias de defesa mútua. Quanto ao Acordo de Paris para o combate às alterações climáticas, nem é bom falar.

Continuar a ler ‘O Grande Federador [texto integral]’

Uma ideia superior a qualquer profecia

“Apesar das radicais diferenças, há uma coisa em que um historiador pode compreender a mentalidade destes fanáticos religiosos: no recurso ao passado. O passado é, simplesmente, o grande repositório das ideias que a humanidade foi tendo enquanto tentava compreender as coisas. Ideias sempre distorcidas, adulteradas, simplificadas ou acrescentadas. O tolinho que sonha com uma “guerra de religião” pretende ir buscar ao passado a solução para as suas dificuldades em enfrentar o futuro. Só que o passado não é para apressados.”

No Público de hoje.