Arquivo mensal para October, 2016

A terceira metade da história

taxiA minha crónica de ontem no Público.

“A questão é se devemos ser deixados a sós perante a ceifadeira prontos a sermos tragados fieira a fieira ou se, como sociedade, temos alguma obrigação de usar as mudanças no ambiente tecnológico e económico para ajudar a moderar as suas piores consequências e, se possível, melhorar a condição de vida de todos. A chave está, para mim, numa frase dita pelo representante da Cabify à RTP quando perguntado sobre a precariedade nos seus serviços: “essa não é uma questão que nos caiba a nós”. Pois é, mas cabe-nos a nós fazer com que lhes caiba a eles também.

As empresas como a Uber e Cabify orgulham-se de serem disruptoras. Essa disrupção não lhes pode sair barata a eles e cara a todos nós, o que não significa satisfazer as reivindicações de “contigentação” dos taxistas, mas obrigar as novas empresas a pagar para mitigar os problemas que causam e ajudar a resolver outros problemas que temos. Recolhendo recursos que permitam, por exemplo, aumentar o investimento nos transportes públicos coletivos e na formação e renovação dos taxistas. (…) Numa sociedade civilizada não há “isso não nos cabe a nós”. Cada um de nós é ao mesmo tempo consumidor e trabalhador; se decide por-se apenas de um lado está a decidir contra outros hoje e contra si mesmo no futuro.”

Agarrado pelos tomates

republican-presidential-hopeful-donald-trump-afp-410x220A minha primeira crónica da semana foi sobre os últimos dias de Pompeia… digo, os mais recentes desenvolvimentos da campanha presidencial nos EUA.

“E é isso que torna tão hipócrita a debandada dos republicanos que criaram o solo fértil de reacionarismo no qual Trump pegou de estaca. Ouviram Trump dizer que os mexicanos eram violadores, que os negros americanos viviam pior do que no tempo da escravatura, que a Arábia Saudita deveria ter armas nucleares, que deveria haver “uma forma de castigo” para as mulheres que fizessem abortos. E aplaudiram ou ficaram calados, enquanto esperavam que Trump os levasse a uma maioria no Congresso e a dominar o Supremo Tribunal por mais trinta anos. Só quando ele deixou de ser uma boia e passou a ser um peso é que deram umas braçadas para não se afundarem com ele.

E foi assim que, nas primeiras 36 horas após a revelação do vídeo, Donald Trump só teve um político a defendê-lo: Nigel Farage, esse mesmo. O cavaleiro do Brexit confirmou a uma televisão que “Trump não está a concorrer para papa” e que também ele e os seus companheiros do UKIP se gabam entre si do mesmo tipo de comportamentos. Percebe-se então porque há uns tempos se esforçaram tanto para alarmar a população contra os refugiados que alegadamente poderiam apalpar mulheres nas cidades ocidentais. Pelos vistos, não queriam imigrantes a fazer o trabalho que ainda consideram vergonhosamente deles.”

Leia mais aqui: http://www.publico.pt/n1746769

Guterres à frente da ONU

antonio-guterres-2340x1545Espero muito de Guterres à frente da ONU. Há uma crise profunda no consenso internacional que prometeu direitos humanos a cada um de nós e deveres dos estados para os garantir. Há um planeta em risco. Há um recrudescimento do nacionalismo agressivo. Há o terrorismo do ISIS. Há muitas razões urgentes para precisarmos de um líder mundial com independência e coragem moral. Portanto, claro que ficamos contentes como portugueses. Mas é como cidadãos do mundo que ficamos a torcer para que ele possa dar o seu melhor.

A geringonça tem futuro?

tempos-modernosA minha crónica de ontem no Público.

“Para fazer as contas à importância deste governo, não basta pensar nos desafios e dificuldades de “virar a página da austeridade”. É preciso pensar no que faria Passos Coelho num segundo governo. Ideologicamente neoliberal como poucos políticos no país, Passos Coelho privatizaria o que faltasse vender e poria em risco o estado social tal como o entendemos. Se estivesse aliado com um PS de “abstenções violentas” como o de Seguro, poria em cima da mesa uma mudança constitucional como a que propôs ao chegar à liderança do PSD, esvaziando os direitos sociais e diminuindo a proporcionalidade do sistema político. Foi com essa possibilidade que brincámos durante os últimos anos de sectarismo à esquerda.

Pelo seu lado, a governação à esquerda tem a missão oposta. Trata-se precisamente de garantir que no núcleo essencial daquilo que a une — o estado social e o cumprimento da Constituição — o acervo de conquistas do 25 de Abril fique salvaguardado por mais uma geração. (…) Mais tarde ou mais cedo, a geringonça precisará da sua base de apoio social. E esta não se mobiliza apenas para conter o que de pior foi feito mas sobretudo por uma visão estratégica de futuro.”
Mais aqui: http://www.publico.pt/n1746223

Olha um Hitler

800A minha crónica de ontem foi sobre as declarações do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte.

“O presidente das Filipinas Rodrigo Duterte, já conhecido por ter chamado “filho da puta” a Obama e respondido a uma resolução do Parlamento Europeu com um “vão-se lixar”, fez na sexta-feira um discurso que incluiu o seguinte excerto: “Hitler massacrou três milhões de judeus” (nota minha: segundo a maioria dos historiadores, o número é o dobro); “nós temos três milhões de drogados e eu ficaria feliz em poder massacrá-los. Ao menos os alemães tiveram o Hitler e as Filipinas ter-me-iam a mim. As minhas vítimas seriam só criminosos para se poder acabar com o problema do meu país e salvar a próxima geração da perdição.” Nada descreve tão bem a anestesia geral em que vivemos. Durante décadas, a hipotética ocorrência de um novo Hitler seria suficiente para alarmar meio mundo. Hoje, um homem que governa cem milhões de pessoas numa das regiões mais voláteis do mundo e que tem um conflito territorial no mar da China com pelo menos outros três países pode comparar-se a Hitler e a reação geral é como se víssemos um tipo de bigodinho esquisito na rua. Olha ali um Hitler. Extraordinário.(…) .Mas nós não estamos só anestesiados. Estamos cegos.”