Arquivo mensal para April, 2015

O grande reformador

Mariano Gago

Ele fez o que fazem os grandes reformadores. O país deu um pulo, tanto na investigação científica de ponta como na disseminação da cultura científica. Do edifício que temos de construir, ele cavou alicerces, levantou paredes e traves mestras. Esse edifício, é verdade, está hoje em risco, mas há uma geração inteira para o defender.

Era um debate na esplanada da faculdade, aí por volta de 1993, e Mariano Gago era um dos convidados. Na altura o movimento anti-propinas era forte entre os estudantes mas contava com pouca solidariedade entre as gerações mais velhas, as que tinham a idade que hoje têm aqueles estudantes que encheram a esplanada para ouvir o físico e professor, então já bem conhecido pelo seu Manifesto para a Ciência em Portugal.

Mariano Gago foi generoso ao aceder àquele debate e polido a responder às perguntas, mas não facilitava — ou seja, não se moldava ao auditório. Nós estávamos sedentos de que nos dissessem o que queríamos ouvir; ele concordava conosco em parte, e na outra parte obrigava-nos a pensar.

Não fazíamos ideia de que ali estava o que viria a ser o governante mais importante para a nossa geração. Quando Guterres o nomeou Ministro da Ciência foi uma boa surpresa. E depois foi a revolução, uma revolução ao retardador de cujos efeitos só nos daremos completamente conta daqui a umas décadas.

Continuar a ler ‘O grande reformador’

O estado do desastre

Por isso a resolução da história é de novo política. Se o governo grego puder governar, com a progressiva acalmia no euro e com uma economia que bateu no fundo, pode ser que as coisas melhorem. Esse é o medo da direita europeia — e também de uma parte da esquerda, que aposta na impossibilidade de governar à esquerda dentro da União.

É altura para um ponto de situação na questão euro-helénica.

Os leitores talvez estejam lembrados de que há cerca de mês e meio, na sequência de um acordo obtido no eurogrupo sobre a questão grega, deixei aqui escrito que a crise do euro começava a acabar. Apesar de todas as cautelas — a mais importante das quais era que isso não significava o fim da crise económica e social na Europa, muito menos o fim da crise política na União, que é a mais grave — era uma profecia arriscada. Continuar a ler ‘O estado do desastre’

Portugal contemporâneo

Milagre é que, no meio do preconceito que temos conosco mesmos, haja quem queira viver de outra forma. Viver o seu tempo, vivê-lo todo, à sua maneira e até ao fim. É isso que entrevemos e nos impressiona naqueles grandes que perdemos agora. Parece inatingível. À altura a que obra deles chega, talvez seja mesmo.

Morreram Herberto Helder, Manoel de Oliveira e José da Silva Lopes, três “grandes”, como lhes chamam. Em que sentido? Certamente no sentido em que seriam grandes em qualquer lugar do mundo, e não só em comparação com o lugar em que nasceram (como demonstração aduzem-se as referências que sobre eles saíram na imprensa estrangeira).

Eu gostaria de propor uma outra dimensão explicativa. A grandeza, se existe, significa — para estes grandes ou para qualquer outra pessoa — que se viveu plenamente o seu tempo, em vez de se ter vivido meramente no seu tempo. Uma diferença subtil, mas que está lá: não apenas adverbial entre “plenamente” e “meramente”, que não passa de uma aposição nossa, mas substancial entre viver “no” tempo e viver “o” tempo, que é toda uma outra forma de entender o tudo que nós temos. Continuar a ler ‘Portugal contemporâneo’

Eficácia ma non troppo

A eficácia ou a competência são apenas prezáveis num quadro de princípios, valores e ideais. Dizer que se é eficaz na construção de uma escola não é, claramente, a mesma coisa que ser eficaz na condução de um massacre.

Quando os fascistas chegaram ao poder em Itália, em 1922, um dos primeiros sucessos que proclamaram ao mundo foi o de terem conseguido com que os comboios passassem a andar a horas. Provavelmente no ano seguinte, em Portugal, o poeta Fernando Pessoa escrevinhou num papel as seguintes frases:

«A obra principal do fascismo é o aperfeiçoamento e organização do sistema ferroviário. Os comboios agora andam bem e chegam sempre à tabela. Por exemplo, você vive em Milão; seu pai vive em Roma. Os fascistas matam seu pai mas você tem a certeza que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro.»

Os crimes da esquerda e da direita foram também, em muitos dos casos, crimes contra a esquerda e a direita — perpetrados por quem proclamava superar as distinções políticas, partidárias ou de opinião dentro da nação, do estado ou da classe. Continuar a ler ‘Eficácia ma non troppo’

Estratégia em vez de tática

O momento é de responsabilidade histórica, e bem identificado num manifesto recente no qual pontificam cinco historiadores — António Borges Coelho, Cláudio Torres, Fernando Rosas, Luís Reis Torgal e Manuel Loff, por ordem alfabética — alguns deles politicamente ligados, ou próximos, ao PCP e do BE. Neste manifesto as coisas são postas com a crueza que têm: “as eleições estarão perdidas para todas as esquerdas se, depois de três anos de Troika, o nosso povo tiver pela frente trinta anos de empobrecimento”. Esta é a quinta premissa, e decisiva: ou fazemos algo para interromper a deriva ou cada vez menos teremos um país onde valha a pena viver.

As próximas eleições legislativas não são umas eleições quaisquer. Nelas está em risco o adquirido democrático e social do nosso país. Permitam-me relembrar os traços essenciais deste argumento, embora ele já venha sido defendido há muito nesta crónica.

Em primeiro lugar, veremos certamente nos próximos meses Continuar a ler ‘Estratégia em vez de tática’