A eficácia ou a competência são apenas prezáveis num quadro de princípios, valores e ideais. Dizer que se é eficaz na construção de uma escola não é, claramente, a mesma coisa que ser eficaz na condução de um massacre.

Quando os fascistas chegaram ao poder em Itália, em 1922, um dos primeiros sucessos que proclamaram ao mundo foi o de terem conseguido com que os comboios passassem a andar a horas. Provavelmente no ano seguinte, em Portugal, o poeta Fernando Pessoa escrevinhou num papel as seguintes frases:

«A obra principal do fascismo é o aperfeiçoamento e organização do sistema ferroviário. Os comboios agora andam bem e chegam sempre à tabela. Por exemplo, você vive em Milão; seu pai vive em Roma. Os fascistas matam seu pai mas você tem a certeza que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro.»

Os crimes da esquerda e da direita foram também, em muitos dos casos, crimes contra a esquerda e a direita — perpetrados por quem proclamava superar as distinções políticas, partidárias ou de opinião dentro da nação, do estado ou da classe.

Foram também, muitas vezes, cometidos num quadro mental povoado por objetivos supostamente indiscutíveis. A eficácia, a competência, a pontualidade, a produtividade são objetivos desse género. Em si, toda a gente prefere a competência à incompetência, a eficácia à ineficácia. Daí a dizer-se que as diferenças políticas entre pessoas pouco importam porque aquilo de que necessitamos é de gente competente vai só um passo, e é um passo que todos nós damos todos os dias.

Contudo, ao fazê-lo, esquecemos que a eficácia ou a competência são apenas prezáveis num quadro de princípios, valores e ideais. Dizer que se é eficaz na construção de uma escola não é, claramente, a mesma coisa que ser eficaz na condução de um massacre. E se a um nível menos extremado, se pode dizer que é preferível uma governação do campo político adversário que seja competente a uma do próprio campo político que seja competente, ainda assim a competência continua a ser um valor subordinado que não pode automática excluir a hipótese de uma governação que seja, em simultâneo, do nosso campo político e competente.

Mesmo exigências mais políticas e menos técnicas, como a da honestidade, necessitam de ser entendidas num quadro de valores maiores. Até Robespierre, instigador do Terror revolucionário que levou milhares de cabeças à guilhotina, era conhecido por “o incorruptível”. E como ele há outros casos, raros é certo, de tiranos que não enriqueceram nem se deixaram corromper enquanto zelavam pela continuação de regimes essencialmente injustos e moralmente corroídos.

Vale a pena vincar este ponto porque hoje são de novo fortes os argumentos defendendo que as diferenças ideológicas ou de opinião devem ser secundarizados em relação a critérios objetivos, neutrais e se possível quantificáveis de sucesso. Esses argumentos não precisam de advogar a eliminação direta dos adversários, como nos anos 30, para serem outra vez politicamente perigosos. Eles são perigosos porque esvaziam a possibilidade de deliberação democrática de uma sociedade que seja plural, que encontre em si os seus próprios interlocutores, e que decida a cada momento para onde quer ir. São perigosos porque, ao escolherem critérios indiscutíveis, automaticamente esvaziam a discussão, e com ela a persuasão, que fazem de nós humanos. São perigosos esses argumentos porque, no fundo, substituem a democracia pela demagogia.

(Crónica publicada no jornal Público em 1 de abril de 2015)